quinta-feira, 9 de abril de 2009

Plastic Fang (2002).


Há exactamente sete (!) anos, Jon Spencer e a sua trupe editavam Plastic Fang, o oitavo registo dos nova-iorquinos. É impossível rotular seja de que maneira for o que Jon e os compinchas fazem. Groove, punk, rock, blues, indie? Tudo? Nada daquilo? É complicado. Apenas uma coisa é certa: it's damn good!
Há sete (!) anos também, um indivíduo douto nestas andanças chamou-me entusiasmado para escutar por breves momentos um certo som que saía de uns auscultadores na Worten (infelizmente, sitos algures entre Toy e Mónica Sintra). Esse som era Jon Spencer e o indivíduo em questão happened to be my cousin. E estava feito: meio minuto depois, Jon e a respectiva comandita ganhavam dois fãs do outro lado do mar. Obrigado meu.
Grande voz, enormes guitarras a rasgar o limite. Som "abluesado" pelo meio, uma estrada musical feita de lampejos inescedíveis, uma sensação de energias inesgotável, impiedosa e furiosamente dinamitada. Mas o que é isto? Que som saído dos confins dos amplificadores é este que cola imediatamente ao mais desprevenido e ao mais sabichão dos ouvidos? Blues Explosion é a democratização do rock, é blues lançado às feras da corrente eléctrica, é descarregar emoções acumuladas em plena noite de trovões. É um go fuck yourself às convenções. Não devia ser assim toda a música?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Nuclearmente Falando.

O debate acerca da introdução da energia nuclear em Portugal já não é recente, mas reacendeu-se por estes dias com o anúncio da formação da Associação para a Divulgação da Energia Nuclear (ADN). Entre os fundadores da ADN encontram-se personalidades nacionais de renome do mundo da ciência, que pretendem dar um contributo construtivo para uma questão cada vez mais premente hoje em dia no nosso país.
Não é mais possível ignorar, num país como este, que importamos cerca de 20% da electricidade que consumimos de países como Espanha e França, a qual provém precisamente de fonte...nuclear. Não faz sentido algum prolongar um tabu que tem durado décadas, como se este tipo de energia representasse o advento incontornável de acidentes nucleares e de criancinhas moribundas para o resto da vida. A energia nuclear não coloca em causa a aposta do país em energias renováveis, e muito menos acarreta os riscos e as interrogações que levantava há décadas atrás. Está hoje provado que a opção nuclear é tecnicamente segura, e tem um baixíssimo nível de emissão de CO2 para a atmosfera, o que significa que é uma energia globalmente limpa e que vem por isso, desde logo, de encontro às preocupações do momento em matéria ambiental.
Como tal, creio que a necessidade urgente de evitar a dependência do petróleo e do carvão, aliada ao inevitável aumento do consumo de energia eléctrica são bons motivos para que Portugal acmpanhe a tendência internacional de retoma da produção deste tipo de energia. Países como a Suécia, o Reino Unido e outros estão a ponderar a construção de novas centrais e Portugal devia considerar seriamente a hipótese de construir uma sua. Devemos ter a nossa central e continuar a aposta nas renováveis. Seria mais uma fonte investimento (provavelmente privado), e um factor de criação de novos postos de trabalho.
Sei que em ano de eleições é impossível, mas espero que o próximo Governo (socialista) o coloque este na sua agenda legislativa. Mais não seja, acredito que o debate merece ter lugar. Sem preconceitos nem juízos pré-concebidos - muito menos daqueles que emanam de argumentos estupida e ignorantemente politizados e nada sérios, que não poucas vezes dão à tona em praça pública.

domingo, 5 de abril de 2009

Para Abrir o Apetite...


Inglorious Basterds já está anunciado há algum tempo. Mas não é daqueles filmes que sai de uma vez; nada disso. Inglorious Basterds vai saindo aos bocados. Qualquer resquício de novidade surgido sobre o filme é tratado à lupa e revirado, qual bomba noticiosa.
A foto acima, saída da objectiva da Vanity Fair, é visualmente deliciosa e mostra os grandes protagonistas da obra mais esperada do ano, pela qual legiões de indefectíveis fanáticos se espumam e retorcem à espera de mais uma imagem, de mais uma curiosidade, de mais um trailer que mostre só um bocadinho mais da nova aventura de Tarantino. A 27 de Agosto próximo dissipam-se todas as dúvidas.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O Grupo dos Vinte.


A cimeira do G-20, que amanhã dia 2 começa em Londres, pode muito bem ser a reunião de líderes mundiais mais relevante do ano. Vários actores de primeira proa do sistema internacional levam na bagagem propostas para reformular o sistema financeiro mundial. Infelizmente, muitas delas são pouco ou nada coincidentes entre si. A reunião do G-20 pode ser a alavanca necessária para um real e duradouro entendimento à escala global, ou pode saldar-se num dos maiores fiascos que há memória.
A ténue fronteira entre o sucesso e o fracasso da cimeira advém da diferença de opiniões e de estratégias a seguir para o combate à actual crise, defendidas pelos actores envolvidos. Os EUA têm apostado num plano de injecção de capital na economia, ao contrário do defendido pela Rússia e pela União Europeia. Mesmo assim, economistas como Paul Krugman dizem que os montantes em causa não são ainda suficientes. Pelo meio, a presidência do Conselho da União chegou mesmo a acusar os EUA de estarem a acalentar um novo proteccionismo. Rússia e UE insistem na prioridade a dar à reforma das maiores instituições financeiras mundiais, tais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
A chave para uma abertura no diálogo pode residir no papel negocial da Grã-Bretanha, que se declarou abertamente empenhada em construir um consenso alargado e de ser o motor do mesmo. Londres propõe, entre outras medidas, a criação de uma nova instituição financeira global que detecte preventivamente os riscos de ocorrência de novas crises.
Não é menos verdade, contudo, que desenhar um novo New Deal parece hoje tarefa bem mais complicada. A solução conjunta para grandes problemas globais é facilitada pela existência de lideranças fortes, carismáticas e que sejam capazes de emanar confiança aos restantes agentes sociais. O panorama contemporâneo, a esse nível, não é satisfatório. É hoje mais difícil aglutinar interesses no seio das lideranças políticas, muitas vezes por culpa própria. Obama, Medvedev e Sarkozy são líderes jovens, mas com muito ainda para trilhar. A estrada continua sinuosa e cheia de obstáculos.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Playboy à Nossa Moda.


Após tantos anos, alguém se lembrou de publicar a Playboy em Portugal. Não contesto a ambição do projecto, muito menos o facto de a sua publicação constituir mais uma prova da abertura das mentalidades em Portugal durante as duas últimas décadas. Tudo isto é verdade, e nada tem de negativo.
Não consigo, no entanto, tirando o expectável interesse e curiosidade iniciais, vislumbrar um futuro airoso para a revista em Portugal. A revista tem um par de artigos com alguma profundidade, mas não vai além do que as outras revistas direccionadas preferencialmente ao público masculino já fazem. Não há uma única secção da revista que seja realmente diferente das outras publicações do género, designadamente da GQ. Pelo contrário, e tendo em conta este primeiro número, parece-me até estar bem em desvantagem: exceptuando o consensual Nuno Markl, não há colunas especialmente interessantes; Costinha e Pacman são são exactamente figuras nacionais de primeira linha; e até a menina da capa poderia ter sido muito melhor escolhida. Para não falar do preço, mais elevado.
Assim, e para além da nudez (pouco explícita) das partes baixas das meninas, a Playboy é mais do mesmo. Não acredito pois que apenas a falta de cuecas leve o público masculino de todas as idades a correr a comprar a Playboy todos os meses. Como é sabido, para isso há outras opções.
Veja lá, Sr. Hefner, não entre em mais despesas que os tempos são de crise e as coisas pelos seus lados não lhe têm corrido nada bem. Oxalá esteja enganado.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ainda a pérola de Eastwood...

Ainda a propósito de Gran Torino, torna-se imperioso ouvir o tema de Jamie Collum. É uma melodia assombrosa e de derreter quaisquer "Walt Kowalskis" que por aí deambulem. Uma vénia ao senhor, isto é qualquer coisa. Ouvi-la é sentir o filme.


Gran Torino.


Naquela que é provavelmente a sua última participação num filme como actor, Eastwood dá mostras de não vacilar. Pelo contrário, Gran Torino é uma obra esteticamente bela, algo que nem a crueldade de alguns momentos consegue esbater. Magistralmente, como se não estivéssemos já habituados, Eastowood é frio e pujante no enquadramento que constrói sobre os tormentos e sobre as pequenas injustiças de um bairro residencial marcado por problemas sociais e pelos constantes despiques raciais entre gangs, problema transversal a não poucas sociedades ocidentais.
Eastwood é cáustico e ultra-draconiano ao longo de quase todo o filme: mais do que os despiques entre gangs, é o despique entre um velho solitário, marcadamente old school, perseguido por fantasmas do passado, cravejado pela experiência; e um miúdo perdido também ele na sua solidão, amargurado por uma vida sem rota definida. Para complicar tudo, dá-se o caso de o miúdo ser hmong, um grupo étnico asiático que se divide por vários países do sudeste daquele continente. Daqui já se depreende da transformação de 180 graus que dá a personagem interpretada por Eastowood, Walt Kowalski. De velho rabugento, desconfiado, ultra-protector, atormentado, Walt encontra um inesperado escape e redenção última na afeição à família do jovem hmong. Gran Torino é a viagem psicológica final de um velho, sufocado, e que não encontra na família biológica qualquer conforto, e pela qual só sente desdém. Doente, sentindo que já não está para durar, Walt protagoniza um derradeiro acto de justiça, e paga-o intencionalmente com a vida.
Gran Torino é soberbamente clássico, sublimamente abordado, e com uma toada que transpira Shakespeare por todos os poros. Eastwood não brinca. Pode ser sorrateiro, mas ele está aí; confirmando uma vez e mais outra a sua indelével mestria. Como se não o soubéssemos já.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Synkronized (1999).


Faz este ano uma década que Synkronized viu a luz do dia. Por meados de 1999, Jay Kay e os seus lançavam aquele que pode até nem ser o seu registo mais bem conseguido, mas aquele que mais decididamente definiu e delineou o quadro dos meus gostos musicais. Synkronized é um álbum da "minha" época, daquela verde época em que ainda se está a separar o trigo do joio, daqueles recambolescos e indefinidos anos em que andamos à procura do que somos (não só mas também) um pouco pelo que ouvimos. Posso por isso dizer que Synkronized foi o meu mais decisivo trampolim para outros voos, para outras andanças.
O mérito de Synkronized é tanto devido à sua inegável qualidade, como à altura em que surgiu. Surgiu-me na altura ideal, precisamente na altura em que decidi explorar mares musicais desconhecidos. E por aí ficou. Ouvi e não mais larguei. Até hoje, é o disco mais ouvido da minha vida. Synkronized é como um velho amigo que não se vê há muitos anos, mas que apesar do tempo não perde proximidade, muito menos cumplicidade. Hoje, olho para Synkronized, esse good old chap, com um misto de ternura e de agradecimento por me ter iluminado trilhos musicais de qualidade.
Só não acredito é que já lá vão dez anos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

É Possível Outra Ditadura Na Alemanha?


Há filmes perturbadores. Die Welle ("A Onda"), de Dennis Gansel, é um desses. Talvez mais do que um filme, seja um manual de instruções sobre as fragilidades e incongruências da natureza humana. Die Welle levanta questões sobre a nossa identidade enquanto cidadãos, mas sobretudo enquanto sujeitos pensantes dotados de bom senso e de inteligência.
Die Welle faz o retrato de uma turma liceal absolutamente banal que é conduzida numa experiência inovadora pelo seu professor de História. A ideia é ensinar o que é uma autocracia. Herr Wenger, assim se chama (ou se faz chamar) o professor, propõe colocar em prática uma autocracia dentro da sala de aula, algo que desde cedo chamou a atenção dos alunos, cansados de referências pouco inovadoras ao III Reich. Os resultados são devastadores e surpreendentes: não só os alunos passaram a acatar as disposições comportamentais de uma autocracia (disciplina, unidade, obediência) como fizeram aquilo que supostamente seria uma mera experiência pedagógica resvalasse para fora dos muros da escola, tornando-a incontrolável. É arrepiante ver como o passado pode ser tão abjecta e maquinalmente ignorado, em prol de um movimento aglutinador das consciências individuais, responsável por actos orquestrados por verdadeiros nazizinhos de laboratório.
Die Welle capta na perfeição a facilidade como a humanidade pode ser conduzida ao mais trágico dos destinos, se hipnotizada devidamente e se lhe forem ditas as palavras certas no momento certo. No início do filme, como resposta à pergunta "Acham possível uma nova ditadura na Alemanha?", esta foi breve e imediata: "Não. Somos demasiado esclarecidos." Na cena final do filme (fantástica por sinal), tal convenção é completamente aniquilada pelo discurso envolvente e cativante de Wenger para os seus alunos, numa farsa final intencionalmente montada para desmascarar a cegueira geral que até aí se tinha apoderado da turma, e procurando fazê-los voltar à razão. Tal é conseguido, e os alunos acordam do torpor, não sem antes se depararem constrangidos com o rumo que os seus actos levavam. O pior de tudo é que o preço a pagar foi elevado. Demasiado elevado para adolescentes. Definitivamente a ver.

Resposta à pergunta inicial: sim, é possível.

quarta-feira, 18 de março de 2009

The Wrestler.


Se há algo que aparece clarividente aos olhos de qualquer um após no retrato intimista e indelevelmente humano de The Wrestler, é que Mickey Rourke está (aparentemente) de volta. Rourke tem uma interpretação genial, daquelas que colam imediatamente um actor a uma dada personagem. Rourke conseguiu isso, algo que está ao alcance de muito poucos.
Sendo verdade que The Wrester gira em torno da interpretação de Rourke, também não o é menos que o filme não se resume a isso. A vida atribulada de Randy “The Ram” Robinson – em certa medida análoga à vida real de Rourke – espelha os bastidores de uma actividade nem sempre olhada com respeito pela sociedade. Debaixo dos músculos e da encenação idílica dos combates há toda uma realidade muito particular; misto de companheirismo, de solidariedade, de angústia perante um futuro adiado aos poucos, e de um quotidiano marcado pelas mazelas físicas e psicológicas que vão sendo irreversivelmente sulcadas. Aronofsky mostra tudo isto de forma sóbria, sem floreados, adoptando uma postura que encaixa na perfeição com o tema tratado. O filme não precisa de mais, está tudo lá.
Não deixa também de ser curioso reparar na maneira como The Wrestler é capaz de incutir no espectador sentimentos tão contraditórios quanto passageiros: desde a empatia que a lealdade patente no mundo wrestler a espaços vai gerando, até às "facadinhas" emocionais advindas de momentos perniciosos como o intenso drama familiar vivido com a filha, ou como o tortuoso caminho percorrido até à conquista definitiva (?) do amor.
A par disto, The Wrestler traz consigo resquícios do que foi a cultura popular dos anos 80, pura mas ainda desconexa em muitos sentidos – a que o tema de Boss Springsteen vem acrescentar uma certa dose de ternura. Imperdível.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Inimigos de Peso.


Parece-me que vem aí algo em grande. Michael Mann, que rubricou películas tremendas como Heat ou Colateral, volta em Julho com Public Enemies, filme que pelo que tenho visto será dos melhores do ano. Juntos estão dois protagonistas fabulosos: Depp não corta gargantas a clientes desprevenidos, mas dá uso à sua metralhadora de forma implacável pelas ruas de Chicago. Bale é o destemido agente do FBI que lhe dá caça, e que além da missão de fazer cumprir a lei, dá início a uma encarniçada luta pessoal com Dillinger (Depp) que promete grandes momentos de acção de qualidade. É daqueles filmes para ver de olhos arregalados e de sorrisinho cúmplice ao canto da boca.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Ali Não Se Dorme.


A capa da Volta ao Mundo deste mês remete-me para uma das melhores experiências da minha vida. Era muito novo é certo, novo demais provavelmente para apreciar devidamente uma cidade como Nova Iorque. Mas lembro-me do movimento, do rush, daquele frenesim tão típico mas ao mesmo tempo ainda tão distante. Nova Iorque é a cidade dos sonhos e cada um vive-a muito à sua maneira, segundo padrões próprios. É uma cidade diferente com o mundo lá dentro, é a capital da tolerância e da liberdade.
Lembro-me da Times Square, assombrosa pelo néon das luzes. Lembro-me da ilha do emigrante, porta de entrada para um admirável mundo novo. Lembro-me da escadaria da Estátua da Liberdade, a perder de vista. Lembro-me da Catedral católica de St. Patrick. Lembro-me de olhar boquiaberto para a infinidade da 5ª Avenida. Lembro-me da Lexington, do átrio do Lowe's, do ritual de comer na rua como qualquer outro. Lembro-me da envolvência pouco familiar de Chinatown e do colossal Central Park. Lembro-me do sítio onde Lennon foi assassinado, dos yellow cabs, dos Lincoln's, e das Torres Gémeas de pé. Lembro-me de tentar capturar a grandeza esmagadora do Empire State e de não ter conseguido.
Lembro-me disso tudo e de muito mais. E digo que tomar o pulso áquela cidade é tomá-la como nossa. Não saí de lá apenas português, saí nova-iorquino. Saí mais cidadão do mundo do que era antes.
Como diz a célebre canção e muito bem:
New York, you're perfect
Don't please don't change a thing...

terça-feira, 10 de março de 2009

Jolene (1974).

Jolene é uma canção poderosa como poucas. Editada nos longínquos de 74, no álbum homónimo de Dolly Parton, Jolene é a súplica chorosa de uma mulher pelo amor do seu marido, fatalmente atraído por outra mulher. Jolene impressiona não apenas pela intrincada melodia, mas sobretudo pelos sentimentos que lhe estão subjacentes: o medo da perda, a fragilidade das estruturas que nos sustentam, e a manifesta impotência face a alguém com quem é impossível lutar.
A isto junta-se um rock potente e corrosivo, que catapulta a letra para um nível superior. Jolene foi alvo de inúmeras versões, embora uma se destaque: a dos White Stripes, que pela mestria de da guitarra de Jack lhe prestam uma digna homenagem. Além da versão abaixo - tocada em Blackpool - recomenda-se também a versão de estúdio, mais "arrumadinha", mas não menos enérgica.


segunda-feira, 9 de março de 2009

O AECT Galiza - Norte de Portugal: Uma Esperança? (II)


Um AECT engloba responsabilidades em matéria de política regional que outrora, directa ou indirectamente, eram exclusivas dos Estados-membros. Este facto é ainda mais notório em Portugal, por via da sua forma de governo una e centralizada – ao contrário de Espanha, composta por Comunidades Autónomas. O AECT vem transformar a relação das regiões com os órgãos do poder central, reivindicando para si um ambicioso grau de autonomia em matéria de selecção de prioridades com vista ao investimento de fundos comunitários.
O AECT Galiza - Norte de Portugal terá como entidades constitutivas iniciais a Junta da Galiza e a Comissão para o Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), não se prevendo por enquanto a participação de mais qualquer entidade regional ou dos respectivos Estados. Ficou acordado em convénio um capital inicial de cem mil euros para cada entidade, a fim de impulsionar a colocação em prática da AECT. Acordada ficou também a localização da sede, em Vigo, e nomeação a futura de um director, que será português. O AECT Galiza - Norte de Portugal vai de encontro ao preconizado pelas directivas comunitárias para o período 2007-2013, ajustando-se plenamente ao por elas estipulado, estando voltado para objectivos como a melhoria dos sistemas de transporte e das acessibilidades; para o aumento da cooperação no âmbito do mar; para o aumento da competitividade das PME’s da Euro-região; para a protecção ambiental e desenvolvimento urbano sustentável; e para o fomento da cooperação e da integração social e institucional.
O AECT inaugura uma nova forma de relacionamento entre os vários níveis de poder dentro da União, e aparece como um elemento transformador do próprio método comunitário, conferido uma dimensão mais alargada e profunda ao princípio da subsidiaridade, uma das ideias-chave sob a qual assenta a União Europeia. E atendendo à receptividade que teve e tem tido em regiões de toda a União, parece vir a tornar-se (assim se espera) um caso sério de sucesso, do qual se espera que esta região retire os dividendos esperados. Para já, há que reconhecer a importância do seu pioneirismo. Resta saber se a uma bela ideia se juntarão resultados práticos, especialmente em matéria de emprego e de competitividade, da qual a nossa região, muito especialmente o sempre atrasado lado português, está carente.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sea Change (2002).



Sea Change é um álbum difícil de qualificar. Vem de alguém que desde cedo habituou o público a canções cuja parafernália sonora desde cedo agradou e lhe marcou o estilo. "Isto é Beck de certeza" dizem muitos qundo confrontados com "aquele" som. Beck de si já difícil de qualificar. Mas quando em 2002 lança Sea Change, depois de pérolas como Odelay, a sua legião de fãs franzia o sobrolho. Em vez de "isto é Beck de certeza" passou a dizer "isto é Beck??? De certeza!!?". Sim, é Beck. Sea Change não só é Beck, como é o melhor Beck que eu já ouvi.
Doze canções escritas depois de findo um amor de longa data, doze diamantes de um lirismo quase canónico. A música, de uma tristeza suave, reconfortante, pura e despretensiosa. Brotando sentimento por todos os lados, Sea Change são duas mãos cheias de uma simbiose perfeita e maravilhosa. O simplismo dos versos é encantador, não só pelo que revela mas pelos mundos que deixa por revelar, e que nem todos percebem.
Sea Change é dos melhores álbuns de sempre, e merece ser (re)descoberto por muito boa gente. Possuir esta obra-prima é nada menos que um orgulho.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O AECT Galiza - Norte de Portugal: Uma Esperança? (I)




A diluição das fronteiras, o liberalismo económico e as novas redes de comunicação à escala global transfiguraram o modo como é exercido o poder público um pouco por todo o mundo. Estes factores estão na base de novos modelos de organização social, nos quais entidades públicas e privadas de vária índole têm ganho progressiva autonomia face ao que dantes era um poder incontestável por parte do Estado. Esse poder, designadamente em espaços geopolíticos como o da União Europeia, é um poder cada vez mais contestado devido ao elevado estádio de desenvolvimento em que aqui se encontram os factores referidos. A União Europeia é, por isso, um espaço geográfico com maior tendência para o surgimento de centros de poder regional mais coesos e definidos.
Os cidadãos de uma Europa a vinte e sete, destinatários últimos das decisões comunitárias, são muitos deles o reflexo do distanciamento, do cepticismo e da passividade face ao papel que a União Europeia desempenha nas suas vidas. Esta descrença – em abono da verdade não poucas vezes motivada pela falta de informação – é uma das principais, se não a maior fraqueza da Europa contemporânea, e um dos seus maiores e mais prementes desafios. A solução encontrada passa, grosso modo, pelo reforço do método comunitário como via privilegiada para uma maior eficácia das decisões comunitárias. É inegável que a transposição de responsabilidades para um nível inferior, fazendo-as acompanhar por um maior grau de autonomia – necessariamente respeitador das especificidades regionais – é uma aposta segura e benéfica para o próprio futuro da Europa, pois garante uma cidadania mais plena, mais justa, e mais democrática.
Em 2004, com o acordo do Parlamento e do Conselho, a Comissão Europeia idealizou um novo instrumento jurídico de cooperação transfronteiriça sob a sigla AECT (Agrupamento Europeu de Cooperação Transfronteiriça). Aquele que se apresenta como o maior ponto de interesse do AECT é, sem dúvida, o facto de possuir personalidade jurídica própria. Na prática, isto significa que um AECT, quando constituído, pode agir em nome próprio e fazer-se representar autonomamente junto de outras entidades públicas ou privadas. Está dentro das competências de um AECT gerir programas de cooperação transfronteiriça financiados pelos fundos estruturais ou por outros fundos comunitários; todavia, um AECT pode também gerir e responsabilizar-se por programas que tenham sido da iniciativa de um ou mais Estados-membros, e financiados por estes e/ou pelas suas regiões. Esta característica garante a versatilidade deste instrumento, e alarga o âmbito da sua actividade. Espera-se que o AECT Galiza - Norte de Portugal venha a ser um estímulo para esta cada vez mais empobrecida região. O facto de contar com personalidade jurídica própria e com um elevado grau de autnomia é, teoricamente, uma mais-valia, que terá de se fazer repercutir na prática. Se não somos capazes de por nós mesmos fazer desenvolver esta região, que o façamos em conjunto com os senhores do lado de lá da fronteira. Pode ser que ao menos aqui Bruxelas tenha razão.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Ainda Havia Gente Decente.


Perante a inevitabilidade de um desfecho trágico para a Alemanha enquanto nação e para os alemães enquanto povo, um punhado de oficiais bem colocados na hierarquia do exército decidiu pôr cobro ao terrível pesadelo de uma guerra há já muito perdida e minorar o sofrimento da população civil, já inútil e em vão. Há quem diga que Hitler foi salvo pela espessura da mesa, há quem diga que poucos segundos antes a pasta foi desviada do ditador o suficiente para não lhe tirar a vida, há quem diga - e esta parece ser a versão mais fidedigna - que não houve tempo para colocar mais um explosivo dentro da pasta, que por certo seria mais do que suficiente para o mandar pelos ares.
A História é pródiga em acasos, uns mais custosos do que outros. Este, concretamente, foi um acaso hediondo, um sarcasmo de Deus, uma incomensurável perfídia da Providência, que protegeu o Mal e o deixou continuar a sua horrível missão por mais nove sangrentos e infindáveis meses.
Para a História, uma ciência que deve contar tudo e não deixar nada por dizer, é preciso que guarde estas memórias com cuidado, para que não se caia na tentação de culpar cega e indiscriminadamente todo um povo pelas atrocidades sobejamente conhecidas, como alguns radicais dos novos tempos insistem em fazer.
Sorte do Diabo, composto por excertos da biografia em dois volumes de Adolf Hitler, Hubris e Nemesis, de Ian Kershaw, é uma leitura interessante em jeito de apanhado das principais motivações do putsch de 20 de Julho de 1944, e da cronologia dos acontecimentos. Dá para ter uma ideia da implantação do movimento oposicionista alemão ao regime e das tentativas (muitas) levadas a cabo para decepar a cabeça do regime e feri-lo de morte. É uma descrição satisfatória do «círculo de Kreisau», o grupo oposicionista em causa, que reunia essencialmente elementos de proveniência aristocrática influenciados pelo movimento juvenil alemão e pela filosofia socialista e cristã, inicialmente atraídos pela força patriótica do nacional-socialismo, mas cedo desiludidos com o rumo bárbaro do regime. Deste grupo veio mais tarde a fazer parte o agora badalado conde de Stauffenberg, de formação católica, perpetrador material do atentado.
Uma leitura breve mas esclarecedora, para limar algumas arestas e interrogações sobre um dia que podia ter representado a salvação antecipada da Europa. Porque na Alemanha hitleriana, também havia heróis.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

The Hobbit.


Fabulosa está a capa da Esquire do mês de Março. Não é para menos. The Hobbit, a prequela da mais grandiosa trilogia da história do cinema, tem estreia ainda longínqua, mas cada pedacinho surgido acerca da obra faz aguçar desmedidamente o apetite. The Hobbit (partes 1 e 2) será realizado por Guillermo del Toro, o mesmo por detrás de outras obras do cinema fantástico como o surpreendente Pan's Labyrinth. A realização está bem entregue. À falta de Jackson - que terá outras funções - del Toro é um nome que faz descansar os indefectíveis da saga. A estreia está prevista para finais de 2012 (!), e a rodagem não começará antes do próximo ano. Mas como se constata pela capa da Empire, o frenesim já começou. Até lá, é ler o livrinho.

Ainda Fincher.


Os senhores da PREMIERE acharam graça às minhas palavras sobre o novo trabalho de David Fincher e decidiram publicá-lo na edição de Fevereiro. Se a eles lhes agradou, a mim ainda mais. Não é nada de extraordinário, mas sempre dá para pôr um sorriso na cara.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Blonde on Blonde (1966).


Blonde on Blonde é provavelmente o maior disco da carreira de Dylan. Editado em 1966, Blonde on Blonde é um marco na história do blues-rock. Gravado em Nashville, o álbum segue-se ao também aclamado Highway 61 Revisited – todavia com um som mais maduro. Os anos 60 foram os melhores n que respeita à produtividade artística de Dylan e os anos que marcaram a definição da sua música. São 14 canções de pura contracultura, de riqueza musical, som anafado, um fartote de profunda densidade artística. Pledging My Time, I Want You, Stuck Inside of Mobile With the Memphis Blues Again estão entre as mais enérgicas e as mais emblemáticas. Outras como Obviously 5 Believers e Sad Eyed Lady of the Lowlands são tão valiosas embora menos badaladas. Blonde on Blonde é a melhor harmónica de Dylan. Não é um mero disco, é um monumento.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Homer na Esquire. Fabuloso.


Fantástica a capa deste mês da Esquire espanhola. Simplesmente deliciosa. Homer Simpson, o patriarca da família disfuncional mais famosa do mundo é o eleito, como se de alguém de carne e osso se tratasse, tal é a importância da garbosa(?) criatura. Uma ideia fabulosa, um must para apreciadores. E, imagine-se só: lá dentro, e a par de muitas outras, uma entrevista do homem! Uma belíssima e inovadora maneira de celebrar os vinte anos da série. E que melhor homenagem do que uma capa? Assim até é um prazer ler em espanhol. Pena que ninguém em Portugal tenha olhado para o potencial de uma publicação como a Esquire. Com a GQ a “enrascalhar-se” a cada número, e com as inqualificáveis perdas de tempo chamadas FHM e Maxmen, talvez um dia a Esquire portuguesa se venha a tornar uma realidade. Alguém que ponha os olhinhos em nuestros hermanos.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Slumdog Millionaire.


Alguns anos depois de Trainspotting, Danny Boyle regressa por fim à sua veia artística mais entusiasmante. Slumdog Millionaire é uma história de encantar, daquelas contadas às crianças antes de adormecer. Um verdadeiro conto de fadas à maneira indiana, com laivos de Bollywood, crivado por um humanismo capaz de catalisar um sem-número de emoções que atordoam os sentidos e fazem elevar a alma. Slumdog Millionaire é uma grandiosa obra de arte, fulgurantemente lapidada.
A par da história de encontros e desencontros de dois irmãos dos bairros de lata e da shakespeariana história de amor do mais novo, o filme é o retrato não só do desenvolvimento da cidade de Bombaim, mas também o de toda a Índia moderna. Jamal, Salim e Latika são produtos típicos das vivências conturbadas num país que esmaga por completo as classes mais baixas de população, reduzindo-os literalmente a rafeiros de rua (“slumdogs”); seres que nada valem, desprotegidos e autênticos objectos de exploração. O crescimento do trio de personagens principais acompanha o ritmo de crescimento do país, conseguindo um melhor nível de vida mas nem por isso mais livre.
A toada à volta do concurso televisivo mais visto da Índia é demonstrativa da fragilidade e da permeabilidade da sociedade indiana ao encandeamento das luzes de uma ribalta praticamente inacessível, mas à qual Jamal, por amor a Latika, foi capaz de ascender. À boa maneira de Dickens, a ascensão do pobre Jamal obedece a uma única palavra-chava, que é também a de todo o filme: destino.
Slumdog Millionaire é uma pérola, uma fita inovadora no modo como entrecruza lágrimas, riso, choque, surpresa, tudo o que de mais o cinema deve ter em doses maciças. É dos poucos filmes onde as pessoas se voltaram a sentar para verem o genérico depois de já estarem levantadas para saírem da sala. Até isso prende. Depois de quatro Globos de Ouro e de sete prémios BAFTA, o próximo passo é inequívoco: Óscar. Só a estatueta dourada fará justiça àquela que foi já descrita como a primeira obra-prima do cinema globalizado.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pessoa Malcriado.


(...)
Está claro
Que isso tudo
É desse pulha austero e raro
Que, em virtude de muito estudo,
E de outras feias coisas mais
É hoje presidente do conselho,
Chefe de internormas animais,
E astro de um estado novo muito velho.

Que quadra
Isso com qualquer espécie de graça?
Nada.
A Igreja Católica ladra
E a Maçonaria passa.

E eles todos a passar
Na vitória que os uniu
Neste nada que se viu,
Dizem, lá se conseguiu,
Para onde agora avançar?
Olhem, vão pró Salazar
Que é a puta que os pariu.

Em 1935, já com Salazar plenamente instalado em São Bento, havia um certo poeta bem conhecido de todos que vociferava contra o ditador beirão. Trata-se do caríssimo Pessoa, que nesses idos de 35 não parou de o achincalhar. O poeta até começou por receber bem o golpe do 28 de Maio, para não muito tempo depois se desgostar com o caminho seguido pelo regime, em especial pela escolha da figura do discreto professor para chefiar o governo.
Afinal, também os poetas se têm direito a chatear.

sábado, 24 de janeiro de 2009

The Strange Case of Dr. Jekyll & Mr. Hyde.


He put the glass to his lips and drank at one gulp. A cry followed; he reeled, staggered, clutched at the table and held on, staring with injected eyes, gasping with open mouth; and as I looked there came, I thought, a change - he seemed to swell - his face became suddenly black and the features seemed to melt and alter--and the next moment, I had sprung to my feet and leaped back against the wall, my arms raised to shield me from that prodigy, my mind submerged in terror.
"O God!" I screamed, and "O God!" again and again; for there before my eyes - pale and shaken, and half fainting, and groping before him with his hands, like a man restored from death - there stood Henry Jekyll!

A vontade que tenho em ler e saborear contos sobejamente conhecidos da literatura universal é pouco menos que uma constante, mau grado a habitual falta de tempo e cabeça infelizmente comuns à maioria das pessoas activas. Mas o forcing foi feito e consegui por fim pôr cobro à minha curiosidade em mergulhar no conto de Robert Louis Stevenson, Dr. Jekyll & Mr. Hyde.
Curiosidade, diga-se, é a tónica do conto a cada página. Apesar do desfecho, por senso comum sabido de antemão, a verdade é que nem por isso o leitor deixa de ser surpreendido. Jekyll & Hyde junta ao ambiente noir da história uma tragigidade típica dos mistérios Vitorianos, uma espécie de golden era deste tipo de novelas.
Monstruosidades à parte, o livro é pródigo no foco em temas universais e marcadamente humanos. O humanismo do conto conflui na duplicidade do bom Jekyll, homem socialmente prezado e respeitado, mas cuja natureza não o deixa evitar o seu lado obcuro - algo impensável de assumir no seu meio. O conto patenteia a fragilidade do ser humano, a sua parmeabilidade ao mal e à supressão de vontades pautadas por necessidades emocionais latentes, transversais ao ser humano. Em suma, a supressão do biológico pela moral, contornada por uma inata dualidade.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Uma Imagem de Esperança.


Porque do sucesso deste homem depende muito do futuro deste mundo. Haja fé na mudança.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Estiveste Quase Lá, Fincher.


A história de um homem nascido “sob circunstâncias muito pouco usuais” é, por si só, um ponto de partida interessantíssimo. Acrescido do nome de David Fincher ainda o é mais, e se a dupla de protagonistas incluir dois gurus como Brad Pitt e Cate Blanchett a expectativa gerada torna-se compulsiva. The Curious Case of Banjamin Button entrecruza o curso normal do tempo com a vida em rewind de um ser que parece ter sido amaldiçoado desde o início. A viajem do bebé velho Benjamin por múltiplos espaços e vivências é suscitada por uma juventude psicologicamente confusa, por um enquadramento social nem sempre fácil para o próprio nem para os que amavelmente o aceitaram nas suas vidas, e pela consciência de uma finitude previamente conhecida.
Há, sem dúvida, mestria na obra de Fincher. Nota-se a ambição do projecto e é sobretudo notório um vívido e intenso desejo de quebrar barreiras. Mas The Curious Case… não convence totalmente. A linha temporal é salpicada por vários episódios de relevo, designadamente os vividos através da aventura marítima no ‘Chelsea’, rebocador onde Benjamin passa uma importante parte do seu tempo e talvez a maior testemunha do seu (de)crescimento. Aqui, ênfase para o adultério em Murmansk com Tida Swinton e para a relação muito peculiar com o seu capitão (diga-se, que grande referência a Forrest Gump trazida por Eric Roth).
Aliar um espantoso trabalho de caracterização que envolveu a mais alta tecnologia e muitas dezenas de profissionais a uma história sinuosa mas cativante é o maior triunfo de Fincher. No entanto, no melhor pano cai a nódoa, e a verdade é que nem a fantástica química entre Pitt e Blanchett apaga o arrastamento por vezes penoso da história durante uma boa parte da segunda parte do filme. A relação entre os dois é, em muitos momentos, ultra-explorada sem necessidade. A intenção de mostrar um amor intemporal, procurando alhear-se das vicissitudes de uma vida a andar para trás, foi conseguida, todavia exageradamente. Esticar a complexidade inata do conto de Fitzgerald por via da história de amor, faz o filme perder algum do fulgor inicial e retira-lhe o possível estatuto de obra-prima. E nestas, é sabido, nada mas rigorosamente nada pode soar a forçado.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Tombstone Blues.

Marcus Carl Franklin e Richie Heavens ou, se quisermos, o encontro entre o novo e o velho numa demonstração preciosa e genuína da música americana. Esta é uma das muitas performances de encher o olho (e os ouvidos) encontradas em I'm Not There, filme de Todd Haynes em torno das múltiplas facetas de Bob Dylan. Woody, Billy, Jude, Robbie ou simplesmente Dylan. Porque Dylan não é uno, é um desdobramento contínuo de vivências, formas de arte e sonoridades. Dylan é único, é inimitável. O som que segue é eterno.


domingo, 11 de janeiro de 2009

Um Regresso de Saudar.


Os tempos que se seguem serão pródigos em filmes com a II Guerra Mundial como pano de fundo. O ano de 2009 traz consigo películas como Defiance, The Reader, Good, The Boy in the the Striped Pajamas, Valkyrie e, lá mais para a frente, o muitíssimo aguardado Inglorious Basterds, a nova aventura de Tarantino. O interesse de Hollywood é assinalável, pois há já muito tempo que não se viam tantos filmes seguidos focalizados naquele acontecimento. O interesse fica provado pelo nível dos actores envolvidos: respectivamente, Daniel Craig, Kate Winslet, Viggo Mortensen, Vera Farmiga, Tom Cruise e...Brad Pitt. Tanto filme sobre uma temática sempre apaixonante como a II Guerra, com tantos e tão bons intervenientes, faz abrir o apetite para os tempos mais próximos. Não deixa de ser reconfortante que no meio de muito filme que apenas vive de efeitos especiais e de outros ornamentos sem significado, Hollywood é sensível à necessidade de mostrar outro tipo de histórias, voltadas para um classicismo moral que hoje em dia começa a fazer falta.


P.S.: Não que Tarantino seja propriamente um moralista...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Young Mr. Lincoln.


Em 1939, John Ford dava início à sua longa e frutífera colaboração com Henry Fonda através de uma história centrada nos tempos de juventude de Abraham Lincoln, então um jovem letrado que optara pela advocacia. O filme é uma peça valiosa do cinema americano clássico e da própria "americanidade" enquanto valor artístico. Além da magnifica presença de Fonda, Ford inaugura uma nova forma de filmar, colocando as personagens no centro de uma vasta área de terreno circundante, focalizando-se nos seus contrastes. Eisesntein disse um dia que este era o filme que gostaria de ter realizado.
Young Mr. Lincoln é cativante pela forma, mas especialmente pelo conteúdo. Trata-se de uma história de justiça, bela por si só, onde as palavras surgem só como complemento, pois é como se tudo já estivesse dito. A ascensão de Lincoln fora já o corolário daquilo que ele representava à época: uma garantia de sobriedade a nível dos valores, capaz de se fazer destacar como símbolo social numa América ainda à procura de si mesma e dos seus ideais. Para tal, Lincoln impõe ordem e justiça a um ambiente incendiado por um assassínio. No final, o jovem Lincoln foi capaz de devolver à liberdade um par de inocentes e desmascarar o culpado, chamando a si um papel denunciador da fragilidade da conduta e do temperamento humanos.
Lincoln, ao longo da sua carreira política, acabaria na Presidência, com resultados que se sabe; e Ford, ao longo da sua inigualável carreira de cineasta, acabaria com quatro Óscares de melhor realizador, e um de Melhor Filme.

Vitória Sport Clube.


Salvo circunstâncias excepcionais, não haverá neste espaço mais análises avulsas a jogos do Vitória SC. Doravante, e se assim se justificar, qualquer assunto relacionado com o melhor clube do mundo será incluído na etiqueta "Futebol". Esta alteração tem a ver com uma sugestão de um amigo que muito prezo, e que decidi aceitar. Este espaço tem outro tipo de prioridades, que não o futebol.
O amor ao emblema da terra, esse, é inquestionável e cada vez maior. Vitória até morrer.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Escárnio Educativo.


A Turma, de Laurent Cantet, é um filme atípico. Atípico porque baseado numa experiência de vida aparentemente próxima de cada um de nós, mas que é difícil engolir ao depararmo-nos com muitas das cenas aqui retratadas. E quando digo "cenas" não o faço referindo-me ao termo cinematográfico, mas a verdadeiros momentos de paródia pedagógica, uns "engolíveis", outros um pouco menos, e outros ainda incontornavelmente detestáveis.
Este não é, de modo nenhum, um filme fácil de ver. O espectador é atirado para o meio de uma combustão emocional chamada sala de aula, onde predomina a lei do mais forte. Esta é, aliás, a única lei que parece por vezes dar resultado. Embora diga-se que o elemento mais forte a que me refiro não é o professor. A partir daqui os dados estão lançados para um banquete de desordem selvática, que faz tremer até a mais empedernida das almas. É lançado um imodesto desafio ao sistema nervoso central do espectador, entre gritos, insultos, desobediências de vária ordem, expulsões e uma mochila na cara.
Amigavelmente falando, no fundo até estão ali bons miúdos coitados. Vai-se a ver e a culpa até nem é só deles. Mas tornam-se num obstáculo ruim de ultrapassar para todo o pobre docente que tenha a desmedida ambição de conservar uma quantidade suficiente de sanidade mental. Ser professor nos subúrbios de Paris não é, repito, não é, agradável para os "Bégaudeaus" dessa França (e desse Portugal) fora.
Contudo, para o bem e para o mal, é uma Palma de Ouro muito bem dada.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma Metáfora à Vida.


Esta é a insignificante história de um elefante. Insignificante não por menosprezo do seu autor nem da sua obra, longe de mim de tal blasfémia, mas porque lá bem no fundo insignificantes são todos os seres vivos à face desta bola simpaticamente chamada Terra. Talvez até ela própria, quem sabe, seja insignificante.
Virtuosismos à parte, o que é certo é que o pobre do paquiderme andou tanto sob tanta neve, tanto frio, tanta lama para chegar a um sítio que lhe era mais estranho do que Lisboa e acabar como acabou, o pobre do bicho. Não digo como para não atrapalhar as leituras de ninguém, mas bem não foi, apesar das mordomias que chegou a receber e dos olhares atónitos e espantados de que era alvo. Ele e também o seu cornaca, Subhro feito Fritz pela imperial sapiência - que isto de tomar conta de elefantes não é coisa que se veja muito na velha e civilizada Europa, agora imagine-se o século XVI, com muito mundo ainda por desbravar.
Não aconteceram muitas peripécias durante a viagem do elefante à corte austríaca, mas as que aconteceram provam muito daquilo que é a natureza humana, que alheia à sua insignificância, ora se faz de forte, ora se faz de parva, ora se faz de coisa nenhuma, tornando-se mais insignificante ainda. Ou grotesca, ou seja lá o que for.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Comfortably Numb (1979).

Ir ao fundo do baú recordar músicas intemporais é um exercício fascinante. Faço-o com regularidade, apercebendo-me do bem que faz ouvir canções de outras décadas repletas de significado. É o caso de Comfortably Numb dos Pink Floyd, datada de 1979, e incluída no celebradíssimo The Wall. É realmente complicado ficar indiferente aos solos de Gilmour e ao refrão em forma de hino que os acompanha. Uma boa canção é como o whisky: quanto mais velha melhor.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

2008 - Crónica de Um Ano Atípico.


Aceitando com prazer o repto lançado pelos blogues Abertamente Falando e Colina Sagrada, deixo aqui a minha análise do que mais importante se passou no ano que agora finda:

O ano de 2008 foi pródigo em acontecimentos. Pode mesmo ter sido um ano de viragem para algumas concepções até aqui dadas como suficientemente sólidas para não precisaram de ser alteradas pelos menos durante as próximas décadas. Caíram muitas máscaras por esse mundo fora, mas houve três que caíram e que considero fundamentais. Como ano de transição, creio ser impossível destacar os mais relevantes acontecimentos do ano sem fazer referências, ainda que superficiais, a outros. Por isso, para evitar desconsiderações e imprecisões desnecessárias, opto por uma análise mais global.
Em primeiro lugar, a crise económica, depois financeira, depois económica e financeira. Contra as previsões mais optimistas para o crescimento da economia, a verdade é que o carácter marcadamente global desta crise parece ter abalado as fundições do sistema vigente desde a II Guerra Mundial. Caiu a máscara à ordem económica do pós-guerra. Muitos advogam não a morte do capitalismo, mas uma mais do que urgente reformulação deste. A palavra mais ouvida, a que faz qualquer adepto do liberalismo económico coçar-se, foi a mais ouvida em 2008 – a par, claro está, de “estagnação”, “recessão” ou “crise”: regulação. Regular os mercados, as instituições financeiras de crédito; regular o mercado habitacional, regular as trocas de capitais, regular as práticas obscuras de muitos gestores; regular e tornar mais transparente e credível o sistema financeiro, incentivar à poupança; e, acima de tudo, punir os responsáveis por danos irrecuperáveis causados a quem confia o seu dinheiro aos bancos. Para os que auguravam a morte do estado enquanto poder regulador, esta crise veio trocar completamente as voltas. Ao estado foi-lhe implorada a sua intervenção sob a forma de muitos zeros – vejamos se agora esse mesmo estado está em condições de se fazer pagar com a imposição de mais e melhores regras e, mais visível aos olhos do cidadão, com justiça.
Aproveitando o embalo de ideias como “estado” e “regulação”, destaque e honra seja feita à eleição do 44º Presidente dos EUA. Barack Obama, após uma transição que se afigura impecável, vai assumir as rédeas do (ainda) estado mais poderoso do mundo. Os EUA deixaram cair uma máscara que escondia a sua genuína identidade como povo democrático e tolerante. Do país que fez catapultar a crise económica, resta saber se vem também o antídoto. Obama inspira confiança, teve um discurso atractivo e eloquente durante a campanha mas será o motor da mudança necessária? Se os EUA não se assumirem como líderes de uma mudança anunciada, a sua posição no mundo estará definitivamente ameaçada. Não parece restar outro caminho ao novo Presidente que não um novo rumo para o seu país. O dia 5 de Novembro último pode ter sido o princípio de uma bela história. Ou não.
Um destaque final para uma questão intrinsecamente política e estratégica, que foi alvo de abrupta actualização em Agosto passado. Durante as Olimpíadas de Pequim, os olhos do mundo desviaram-se inesperadamente das piscinas e das pistas para o Cáucaso, região onde a Rússia fez questão de mostrar quem manda. Tal resposta seria impensável ainda há poucos anos. Enriquecida pelos petrorublos e dona de si como há muito não se via, o gigante russo marcou território e dissipou muitas dúvidas sobre a natureza do seu poder actual – centralizado, ambicioso, nacionalista e, pior, imperialista. Também a Rússia deixou cair a sua máscara para se tornar num dos mais sérios testes à União Europeia e aos EUA, ou por outras palavras, à unidade da UE (através da mais que duvidosa PESC) e à capacidade de influência dos EUA, respectivamente.
Venha 2009.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Retratando um Monstro.

Hitler sempre foi um olhado como um demónio da Humanidade. Os factos falam por si e não deixam mentir: uma guerra mundial, a qual deixou atrás de si um rasto de destruição sem precedentes na história do mundo, reclamando as vidas de 50 milhões de pessoas entre civis e militares, onde se incluem 6 milhões de judeus nos lamentavelmente famosos campos de extermínio. Cidades arrasadas, património irremediavelmente perdido e uma nova ordem mundial foram as pricipais consequências do turbilhão que alterou (a mal) a face do mundo entre 1939 e 1945.
Sendo muito embora bastante incomum os politólogos e historiadores centrarem as suas análises no nível puramente individual dos fenómenos sociais, a verdade é que o papel e a força aglutinadora deste indivíduo como sujeito histórico é um papel que ultrapassa o acaso e a superficialidade. A dimensão bíblica dos seus crimes aliada às sensibilidades que várias décadas depois ainda consegue ferir vai lateralizando a análise deste indivíduo pela via artística, como é o caso do cinema. Der Untergang, ou A Queda em português, vem de encontro à norma e, mais do que isso, distorce-a por completo ao focar o alegado lado humano, ou se quisermos, humanizante, do ditador autro-germânico.
Posto isto, A Queda é, desde logo, um filme misterioso. Nunca vai revelar tudo, vai sempre deixar à consideração do espectador aspectos fulcrais da personalidade de Hitler, vai sempre deixar muita coisa implícita. Mas não deixa por isso de ser um exercício cinematográfico marcado por uma toada assumidamente ambiciosa e, claro está, absolutamente fascinante - facto a que não é alheio o carácter eminentemente revisionista da obra.
Abaixo segue aquela que para mim é, por excelência, a cena que cola o espectador à cadeira e faz estremecer todos os sentidos do seu corpo: o momento em que Hitler se consciencializa da inevitável derrota final do III Reich às mãos das forças soviéticas que já se movimentavam nos escombros de Berlim. Pelo corpo do actor Bruno Ganz faíscam os olhos de Hitler, que vocifera enraivecido contra os seus, num momento marcadamente dramático e infinitamente perturbador. Obrigatório.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A Evitável Queda do Tio Sam.


O mundo já não é unipolar. Uns dizem que ainda é e será. Outros que ainda é, mas não por muito tempo. Outros ainda afirmam categoricamente que nunca foi. E, dentro destes, alguns dizem que é unimultipolar, outros que é simplesmente multipolar. A confusão do leitor não será menor que a do escriba. Quando os académicos não acertam, o comum dos mortais não fará por certo muito melhor, se bem que nestas coisas o senso comum conta e não é pouco.
Para clarificar estas e outras dúvidas, Fareed Zakaria, homem reputado, doutor por Harvard e actual editor internacional da Newsweek, traz a público um livro bem oportuno. Bem escrito, dentro da simplicidade possível, sem floreados e repleto de exemplos ilustrativos, Zakaria traça o ponto da situação da conturbada distribuição de poder a nível mundial. O retrato, esse, é claro: os EUA, outrora intocáveis, estão a perder terreno face às potências emergentes do Oriente, não só económica mas sobretudo politicamente. China e Índia são por isso os mais vibrantes e elucidativos desafios estratégicos com que os EUA terão de lidar.
Contrariamente ao convencionado, os novos poderes, explica Zakaria, não representam ascensões políticas ou militares do tipo tradicional. São, isso sim, ascensões pautadas por uma diplomacia tranquila, nada quezilenta, preocupada com a vertente económica e em estender o seu braço comercial a toda a Ásia e depois ao resto do mundo. Se a China ou mesmo a Índia fossem uma ameaça do tipo da que representava a União Soviética, os EUA estariam preparados. No entanto, para este novo tipo de ascensão e de crescendo pacífico, os EUA não estão preparados e serão forçados a mudar radicalmente de estratégia.
Mas como? Nas suas palavras, já nem se pode falar em futuro: “o futuro já está aqui”. Os anos 90 habituaram mal os EUA, que se tornaram preguiçosos, arrogantes e presunçosos na arena internacional. A unipolaridade fez mal a um país, que na economia sempre se privilegiou e incentivou a concorrência, mas que em termos de política externa se habituou a agir sozinho, sem obstáculos ao seu poder. E isso complica a resposta que terá de dar.
De acordo com Zakaria, “Washington ainda não descobriu que o imperialismo diplomático é um luxo que já não pode sustentar”. Ainda assim, os EUA têm todas as condições para conservarem o seu poder dominante, embora já não hegemónico. Para tal, terão de fazer escolhas e não gastar recursos em zonas do mundo onde não tenham muitas hipóteses de levar a sua avante; deverão procurar ser o motor da criação de regras, práticas e valores para que o mundo se possa reger; devem manter melhores relações com as novas potências do que elas mantêm entre si; deverão fazer mais trocas e compromissos com outros países; devem pensar assimetricamente e não se deixar iludir por ameaças sobreavaliadas como o terrorismo islâmico; e devem, last but not least, actuar com mais legitimidade, a qual será necessariamente fonte de poder na nova era em que entramos.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Quase Grandes.


O terceiro registo destes senhores soa a hino. Ou a hinos se quisermos. Durante a audição é fácil imaginar um tremendo coro de milhares de vozes a entoar entusiasticamente estas melodias numa qualquer sala de concertos, ou em qualquer estádio por esse mundo fora. Day and Age é muito bom. Não sem antes torcer o sobrolho, deparamo-nos com uns Killers desviados do caminho palmilhado até agora. Não soa ao (excessivamente) criticado Sam's Town, muito menos a Hot Fuss. Day and Age é como a Coca-Cola: primeiro estranha-se depois entranha-se. E de que maneira.
No início, além do sobrolho, torce-se também o nariz. Depois já custa menos, mas continua a soar estranho...Volta-se à faixa 1 mais algumas vezes. Até que finalmente os ouvidos se começam a habituar e a engraçar com esta surpresa. Chega a parecer que podiam ter sido os U2 a fazer aquilo. E o veredicto tarda mas sai, como diz o outro, firme e hirto: Day and Age não é muito bom. É fantástico. Além de Human, o primeiro single, o álbum destaca-se por pérolas como Losing Touch ou I Can't Say. Não consigo decidir qual a melhor. Menção honrosa para Goodnight, Travel Well, um pouco mais sombria que as restantes, mas uma saída esplendorosa para o álbum.
Experimentais q.b., Brandon Flowers e os seus estão de parabéns. Deu a volta a muito boa gente, esta sapatada de luva branca chamada Day and Age. Podem não ter passado o teste do segundo álbum, mas passaram certamente o do terceiro. Depois disto, os Killers transformaram-se numa caixa de pandora: o que virá dali a seguir? Futuro risonho para estes senhores.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Considerações Sobre Maquiavel (II).


Para Maquiavel, o cerne da questão reside no facto de que ser-se “liberal” é sinónimo de magnificência excessiva; o que significa despesa excessiva e perfeitamente desnecessária. Ao actuar desta forma, acabarão depressa as capacidades financeiras do Príncipe, e começará rapidamente a sobrecarga fiscal sobre o povo – com o correspondente descontentamento e revolta contra o soberano. Não é vital para um Príncipe um gasto deste género. É possível, com muito menos gastos e com mais paciência, obter o apoio do povo sem o risco de o perder a curto prazo: o apoio dos súbditos resultará gradualmente, quando estes se derem conta de que o Príncipe é capaz de “empreender cometimentos” sem custos adicionais.
O Florentino oferece uma perspectiva económica do realismo político, mais concretamente, uma perspectiva de contenção de gastos. Uma estratégia de poupança valerá a fama de “somítico” ao Príncipe, uma fama que depressa se dissipará num momento de maior necessidade e aperto para o Estado. Em conformidade com o seu modo de pensar – não se pode hesitar em usar de quantos vícios quantos necessários – também aqui ser-se “somítico” é positivo e permite ao Príncipe não ser odiado e reinar em paz.
A liberalidade só pode ser admitida na acção política se para tal forem usados os bens dos outros, isto é, o resultado de pilhagens e saques de cidades conquistadas ou inimigas. A riqueza retirada destas investidas compensará portanto o referido vício de “somítico” do Príncipe, que, ao sê-lo, defende apenas o que é dele. O soberano não precisa de gastar o que é seu, visto que pode comprar o apoio dos seus soldados e súbditos com aquilo que é extorquido a outrem.
Maquiavel, como é sabido, considera a natureza humana negativa e, pior que tudo, imutável. O recurso a exemplos do passado constitui então prova fiel e sólida daquilo que pretende ilustrar. Se era verdade antes, também o é agora. Maquiavel prova assim o seu ponto de vista através dos exemplos de Júlio II e de Júlio César. É possível neste ponto definir um pouco mais da identidade ideal do Príncipe: um homem moldado pela “experiência histórica real”, que coloca os fins antes dos meios.
Maquiavel foi, conclui-se, pioneiro num modo muito específico de ver a realidade. De ver o “ser” em vez do “dever-ser”. Citando Viriato Soromenho Marques, o texto de Maquiavel “situa-se claramente na zona dos paradigmas clássicos da Realpolitik”, do qual o capítulo XVI constitui ilustrativo exemplo.