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terça-feira, 20 de abril de 2010

A Questão Quirguize.

Foi hoje publicado no blogue Da Rússia, um texto da minha autoria sobre os recentes tumultos no Quirguistão. Esta república centro-asiática tem sido notícia de primeiro relevo nas últimas semanas, devido à queda do governo de Kurmanbek Bakiyev e à ameaça iminente de guerra civil.
Os meus agradecimentos ao autor do blogue em questão, o jornalista da Agência Lusa José Milhazes.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sintomático.


Outra vez o velho problema. Numa altura em que já vigora o Tratado de Lisboa, ainda não existe articulação interna nem consenso sobre a aplicação prática das suas disposições. Nada que não se previsse já, mas o facto de Herman Van Rompuy não ter logrado sequer um breve encontro privado com Barack Obama na última Cimeira para a Segurança Nuclear, em Washington, demonstra que o caminho para uma sólida implementação do Tratado está mais longe do que o imaginado. Obama preferiu encontrar-se com Angela Merkel, a toda-poderosa chanceler alemã, que representa um estado, está claramente mandatada para tal, e "make things happen" se assim o entender. Tendo em conta o elevado sentido prático dos americanos, não admira nada que Obama prefira perder tempo com os trabalhos de casa da sua filha mais velha do que cinco minutos com Van Rompuy, que só resultariam em ofuscadas e torpes declarações comuns, e em muitos bocejos do lado de lá do Atlântico.
O acto não caiu bem em Bruxelas, mas é sintomático da incapacidade da UE retirar o devido potencial do Tratado que, com tamanha vontade política pelo meio, tanto pugnou por aprovar. Na altura, os sinais eram positivos, para logo se esbaterem perante a nomeação de um par de figuras "low profile" para os novos cargos. Mais do que as figuras e o seu papel, permanece uma incógnita se a UE a 27 saberá ou conseguirá fazer-se reger efectivamente pelas regras que nele constam, ou se o tempo ditará se foi dado um passo maior do que perna.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A Diplomacia Pura.


Mesmo sendo um livro que se pode considerar técnico, pois trata de conceitos operacionais que dizem respeito à instituição diplomática e às técnicas de negociação diplomática, este A Diplomacia Pura, da autoria do proeminente Embaixador José Calvet de Magalhães, apresenta-se também como uma boa sugestão para todo o espírito curioso com interesse por questões diplomáticas. Não só Calvet de Magalhães, mesmo sendo diplomata de carreira, sabe ter uma escrita prazenteira e quase romanceada, como também a sua proficuidade e a sua profundidade de análise conseguem tornar um assunto aparentemente cinzento numa leitura interessantíssima e reveladora.
Como diplomata de inegável craveira que o foi, com passagens por postos tão distintos como Washington, Boston, Paris, Cantão e Santa Sé, e ainda pelo cargo de secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Calvet de Magalhães alia o seu saber enciclopédico à experiência acumulada durante décadas. É desta forma que o autor começa por fazer uma distinção essencial que trespassa todo o resto da obra, a distinção entre política externa e diplomacia, conceitos que amiúde aparecem confundidos e misturados tanto pelo público em geral, pela imprensa, e mesmo por especialistas na matéria.
Depois deste esclarecimento, importante para ler o resto do livro com outros olhos, o autor prossegue com um compêndio histórico da evolução da diplomacia enquanto prática progressivamente instituída desde a Antiguidade na vida dos povos. Seguem-se aspectos mais específicos, como sejam os diversos tipos de diplomacia (secreta, aberta, bilateral, multilateral...); as patologias de que a diplomacia pode sofrer, mas que não são exactamente diplomacia nem podem ser confundíveis com esta (diplomacia paralela, espionagem...); até aos aspectos que caracterizam a actividade diplomática propriamente dita, sintetizados em representação, informação, negociação, promoção, protecção, e extensão externa do serviço público.
Mais do que recordar algo de que já se tomou contacto noutros âmbitos, ler algo como A Diplomacia Pura é como reler Os Maias fora das pressões escolares: o saber pelo prazer torna-se em algo menos mecanizado e, logo, mais clarificante e eficaz.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Mundo Está Menos Democrático.

É esta a conclusão de um relatório da Freedom House, a ser publicado na íntegra na próxima Primavera, que dá conta de um regressão da liberdade no mundo. O assunto é tema central de um interessante artigo do The Economist, incluído na edição deste mês do Courrier Internacional.
Altamente aconselhável, o artigo reflecte sobre o estado da liberdade e da democracia liberal no mundo, que durante os últimos anos não tem conhecido evoluções positivas. Há mais estados recentemente entrados no lote dos "não livres" do que aqueles que fizeram o caminho inverso. A realidade, pura e dura, é um sinal claro de que a comunidade dos países livres, bem como as organizações políticas e económicas internacionais não têm tido sucesso na promoção da democracia, dos respeito pelos direitos humanos, e da liberdade económica um pouco por todo o mundo - valores que não sendo os mesmos geralmente aparecem associados.
É tão importante apurar as causas desta regressão como repensar o tipo de política e de envolvimento em zonas do mundo "não livres" seguido pelo mundo democrático, e com poder para o fazer. A reflexão, oportuna, levada a cabo pelo artigo presta atenção tanto a um ponto como a outro.
A maior causa para a regressão da democracia no mundo parece ser o descrédito da ideia de que um sistema político pode exportado por via das armas, aliado à evoluções registadas no sistema internacional como a ascensão de potências como a Rússia e a China: se, por um lado, Moscovo tem constituído um sério entrave à promoção do soft power europeu, Pequim tem feito provar que liberdade económica é compatível com um sistema política autocrático.
As democracias terão pois desafios difíceis e complexos pela frente, pois terão de provar continuamente que um sistema político democrático e respeitador dos direitos humanos é o sistema que melhor assegura a riqueza, a prosperidade económica, a segurança e a justiça no seio das sociedades. Felizmente, continua a ser verdade que os sistemas autoritários são mais passíveis de instabilidade do que as democracias; e que um clima de liberdade e o pensamento livre, plural e independente oferecem melhores condições para um desenvolvimento económico sustentado do que a alternativa autoritária. Em suma, e conforme remata o artigo, "a democracia não prevalecerá se os seus defensores não governarem bem."

domingo, 24 de janeiro de 2010

O Que Pensa o Urso?


Gigante euroasiático e país de inúmeras e insofismáveis contradições, a Rússia não enveredou por um caminho democrático ou democratizante durante o postulado de Vladimir Putin. Mais do que as contradições e o estigma do enigma que a persegue, a Rússia de Putin demonstrou ao mundo a actualidade da realpolitik e da hard politics. Putin não é Bismarck, mas soube como ninguém tirar partido das potencialidades do seu país, ao mesmo tempo que procurou, pelo menos até 2004, que o Ocidente abrisse à Rússia as portas das suas instituições e a aceitasse como a sua grandeza impunha: um parceiro igual e necessário. Como se sabe, sem sucesso.
O período que a Rússia atravessa é crucial para o seu papel no mundo nas décadas futuras. O país, apesar dos avultados recursos naturais, não detém um sistema político robusto e suficientemente bem entrosado entre os seus diferentes níveis, não apresenta um modelo de desenvolvimento económico a longo prazo que permita enfrentar os desafios que se vão revelando, e quase não tem aliados. Dentro das suas fronteiras, há um problema demográfico e uma união federal em risco.
A médio e a longo prazo, a Rússia terá que harmonizar as suas regras internas e a sua política externa, ainda hoje típica de uma grande potência do século XIX, e não de uma grande potência do século XXI. A interdependência entre os países desenvolvidos é hoje um dado incontornável, e ficar fora desse "jogo" não será opção para um país como a Rússia, cujos devaneios unilateralistas tenderão a acabar num futuro não muito distante.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

As Palavras de Delors.

"If the European population want to leave a EU for their grandchildren that will be relatively well-off but without real influence on the world stage, that's their responsibility."

Delors, o histórico presidente da Comissão Europeia, faz a crítica inversa de muitos: o Tratado podia ter ido mais longe.

Jacques Delors, aqui.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Os Limites do Novo Cargo.

"...Europe's chief diplomat will also not be allowed to venture beyond strictly defined limits when dealing with day-to-day politics. The high representative may be allowed to speak with the Turkish government about its relations with Iraq, but she will be prohibited from discussing with Ankara the prerequisites for possible EU membership, such as freedom of the press and respecting human rights. In the future, the issue of Turkish membership will still be reserved for the Commission. In the Balkans Mrs. Ashton can talk about everything under the sun -- but will be strictly forbidden from mentioning possible financial aid from Brussels. Everything that has to do with EU enlargement falls under the jurisdiction of the Commission. She will also have to steer clear of key areas such as foreign aid and international trade."

Presseurop, aqui.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Desilusão Completa.


O actual chefe do governo belga e a commissária europeia do comércio foram hoje escolhidos, respectivamente, para os recém-criados postos de presidente permanente do Conselho Europeu e de Alto Representante da UE para a Política Externa e Política de Segurança. Herman Van Rompuy e Catherine Ashton são dois rostos que representam nada mais do que um consenso absurdamente minimalista e que não favorece em nada o que se pretendia da União Europeia num momento histórico como poucos desde a assinatura dos tratados de Roma.
O primeiro-ministro belga cessante é conhecido pelo seu estilo low-profile, e apresenta-se como uma figura pouco carismática e desconhecida. O seu papel, como de algum tempo para cá se vinha a suspeitar, será mais institucional do que pró-activo.
Mas se a nomeação de Van Rompuy ainda é justificável à luz do quadro de competências que lhe está atribuído, o pior é mesmo a nomeação da Sra. Ashton: sem qualquer tipo de experiência reconhecida em termos de diplomacia, sem nunca ter ocupado um posto ministerial, e com um background pessoal totalmente diferente do expectável para ocupar um posto daquela envergadura. Apesar de representar um grande país, não terá a presença forte nem o peso político de nomes como Tony Blair, David Miliband ou de um Martti Ahtisaari, este último de longe a melhor escolha.
Ahtisaari representava, em termos pessoais, tudo aquilo que UE pretende ser na arena internacional: uma comunidade política exportadora de valores e de princípios de boa governação e direitos humanos, apologista dos compromissos multilaterais e do respeito pelo Direito Internacional. Era uma personalidade com carisma, muitíssimo experiente, com reconhecidos dotes diplomáticos (na boa tradição nórdica), respeitado internacionalmente pelo seu percurso como enviado especial da ONU às negociações para o estatuto final do Kosovo, pelo importante papel desempenhado na resolução de vários conflitos por todo o mundo, e prémio Nobel da Paz em 2008.
Gorou-se, como muitos analistas acreditam, um momento de excepção para uma definitiva consolidação e expansão do papel da UE nos assuntos internacionais. O Tratado de Lisboa é um passo demasiado aprofundado na integração, e talvez por isso muitos governos não arriscaram em mais mudanças de fundo. É muita mudança para tão pouco tempo. Pena é estarem muitas capitais por esse mundo fora a rir à gargalhada. Não é para menos. Se eu estivesse no Kremlin também me ria. De alívio. Mas ria.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ideias.

Só para reforçar a idea do post anterior:

"Os Estados Unidos lidarão connosco de acordo com aquilo que formos. Ver-nos-ão como uma Europa dividida e virar-se-ão cada vez mais para as grandes potências que contam no mundo. Apostarão cada vez mais num G2 com a China, ou no G20. Mas não num G3, em que a Europa funcionaria como um parceiro igual aos EUA e à China.
É por isso que insisto tanto em que temos de aproveitar este momento histórico para construir uma Europa forte, que fale a uma só voz na cena mundial e que seja capaz de defender os seus próprios interesses."


Timothy Garton Ash

Público, aqui.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Ainda há Muros 20 Anos Depois.



Para a geração da qual faço parte, o Muro de Berlim vem apenas nos livros de História. Muitos de nós nao se recordarão daquele dia 9 de Novembro de 1989, demasiado novos para nos apercebermos da importância do momento. Para as gerações mais velhas, que o puderam viver e saborear, o sentimento será outro. Para os povos da Europa central e de leste, mais do que para qualquer cidadão de um estado europeu periférico, a queda do Muro é um momento sem precedentes na História.
1989 foi o ano de todas as transformações, de todas as revoluções. O derrube do Muro significava nada menos do que o advento de uma nova ordem mundial, erigida sobre as ruínas de um gigante com pés de barro, o cadáver mumificado que Moscovo mantinha vivo a custos insuportáveis. A concretização do grito de Reagan demorou menos de nada.
Para a Europa, era o início de uma nova era. O precipitar dos acontecimentos na Europa de leste foram protagonizados por povos esclarecidos o suficiente para saberem que não mais os muros e as fronteiras de um continente poderiam continuar agrilhoadas à mercê de um qualquer politburo de uma capital estrangeira. Os acontecimentos da fronteira austro-húngara e da Polónia foram determinantes para a queda do Muro e, logo, para a reunificação da Alemanha e da Europa. Acreditava-se que a vontade estava do outro lado, e estava mesmo.
O Muro abriu caminho a uma renovada construção europeia, fez acelerar o processo de uma forma que nem os líderes mais optimistas previram. Abriu espaço a um período de fé e de esperança no futuro, que Maastricht materializou. Abriu também caminho ao alargamento, esse novo desígnio que conduziu as prioridades de Bruxelas durante os 15 anos seguintes e que ainda perdura, apesar de a etapa principal estar completa.
No entanto, 20 anos volvidos, ainda há muros nesta Europa. Cedo os Balcãs fizeram a Europa descer a terra, relembrando-lhe as suas muitas fraquezas e fragilidades. Recomposta, depois de corrigidos alguns erros e reconquistada a paz, falta estender a pacificação completa à região, de onde – felizmente porque é bom sinal – virão alguns dos próximos membros deste clube. Muros ainda perduram, mais a leste: entre outros, Lukashenko ainda é Presidente e a revigorada tenaz russa ainda prende os movimentos de Kiev.
Duas décadas depois de caído o Muro da Vergonha, é preciso olhar para trás e ver o que foi conquistado e o que ficou por fazer. Mais do que nunca, a Europa precisa de união e de ter dois motores a funcionar em simultâneo: um económico e um político. Cada um deles não faz sentido por si só. O grande desafio para os anos que se avizinham, agora que Lisboa vai entrar em vigor, está em provar a todo um continente que isto é possível. Haja a abertura de espírito necessária para esperar o melhor desta Europa unida. Lembremos 89 e derrubemos também esse Muro.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Falácias.

Já vem um pouco tarde é certo, mas só hoje li esta observação sobre a posição que certos políticos tomam em altura de eleições. Pode ser um exemplo lateral e pouco mediatizado, muito menos pela questão que é, mas nem por isso menos demonstrativo da desonestidade e da hipocrisia de alguns deles. Esta senhora deixa, de facto, muito a desejar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Prémio Nobel da Paz 2009.


O comité especial nomeado pelo Parlamento noruegues acaba de atribuir o Prémio Nobel da Paz deste ano a...Barack Obama. Uma surpresa para muitos, e uma decisao que vai por certo dar azo para bastante reflexao. Quanto a mim, Obama e Prémio Nobel simplesmente por nao ser George W. Bush. Em pouco de mais de meio ano, nao ser Bush e, de facto, já uma vitória.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Dos Think-Tanks.

O modo como são tomadas as decisões políticas ao mais alto nível na União Europeia conta com pouca influência da produção intelectual e científica dos think-tanks europeus. Esta é muito provavelmente uma das maiores carências que afecta a qualidade das mesmas. Por toda a Europa, aquilo que é proposto ou problematizado por um centro de investigação dedicado à área científica das Relações Internacionais e dos Estudos Europeus é amiúde ignorado ou colocado numa gaveta onde permanece por tempo infinito. Isto, claro, se é que alguma vez chega a ser objecto de atenção por parte das entidades oficiais a quem, em última instância, se deveriam supostamente dirigir.
Vêm estas palavras a propósito de um muito oportuno artigo de James Rogers no Ideas on Europe. Ao contrário dos EUA, país onde os think-tanks gozam de influência junto dos policy-makers, na Europa o seu papel é sistematicamente secundarizado. Quem perde é somente a própria União Europeia, a tal entidade sui generis que acertará tanto mais nas suas políticas estratégicas quanto mais escutar e incorporar nas suas decisões a sabedoria e a experiência dos membros deste tipo de organismos. Ainda assim, existe na União Europeia uma tendência marcadamente positiva a este respeito, o que é louvável e de saudar.
Em Portugal, mais concretamente, o melhor será mesmo nem tecer grandes considerações, uma vez que tal prática é praticamente inexistente. Aqui também, muito caminho para percorrer, e por certo muita mentalidade bafienta para mudar.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Da Regulação e da Legitimidade na UE.


Os bons ou os maus resultados das políticas públicas europeias poucas vezes são atribuídos a Bruxelas. É notório que são os governos nacionais quem efectivamente mais lucra ou perde com os sucessos e falhanços das políticas europeias. Daí a necessidade de a União Europeia compensar os Estados por eventuais falhas sistémicas do mercado. A responsabilização da União Europeia pelo sucesso ou falhanço das suas políticas públicas é um aspecto que a aproxima daquilo que tradicionalmente é uma função do Estado. À medida que a União Europeia vai assumindo cada vez mais poderes e responsabilidades, torna-se imprescindível que tal transferência de competências seja acompanhada por um reforço da sua legitimidade democrática. Tal exigência é fundamental para a clareza de processos e para a transparência das funções da União Europeia aos olhos do cidadão, que só assim lhe reconhecerá legitimidade para tomar decisões e para aquiescer ao seu acatamento. A função reguladora da União Europeia, como reflexo mais ou menos óbvio e necessário do progressivo aumento das suas competências, só é justificável perante os cidadãos europeus se lhes for garantido uma maior participação no processo. Todavia, e ainda que a sucedânea de tratados tenha vindo a reforçar o seu papel enquanto tal, a verdade é que tal ainda permanece dúbio e o carácter paradoxal do Tratado de Lisboa não ajuda.
A passagem para o estudo da governação reflecte, deste modo, novas explicações para procurar saber qual o verdadeiro tipo de ordem política que actualmente representa a União Europeia. Mais concretamente, estamos perante uma entidade que assumiu um modelo mais aproximado aos cidadãos através da transferência de competências políticas para os centros locais e regionais de poder; uma entidade que procura garantir renovadas doses de democraticidade de modo a garantir que as decisões que toma e as políticas públicas da sua responsabilidade estão munidas da necessária legitimidade; e uma entidade que se tem concentrado em assumir uma das mais importantes funções clássicas do Estado, a regulação.
A meu ver, são estas as novas dinâmicas transnacionais – empiricamente comprovadas – que se destacam dentre os quadros teóricos disponíveis para a explicação do fenómeno comunitário. O caso português tem sido um bom exemplo delas mesmas: o pioneirismo em criar dinâmicas transnacionais de cooperação entre Portugal e Espanha e a manifesta diminuição da presença estatal em vários sectores da economia, verificada desde a adesão às Comunidades em 1986 são disso prova. Portugal tem sido um bom exemplo da ocorrência de lógicas de poder indirecto ou, conforme classificado por Focault, poder “disciplinar”: um poder exercido indirectamente pelos Estados, uma espécie de re-regulação transnacional, que não esconde todavia a erosão do poder dos governos nacionais.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Incongruências.

Não existe, neste país, uma consciência crítica bem definida acerca da política externa portuguesa, ao contrário do que acontece em países como os EUA, o Reino Unido e até mesmo o Brasil.
Veja-se o caso do apoio directo estrangeiro atribuído pelo Estado português: mais de 50% do apoio directo é concedido a Angola, um dos países mais ricos de África e de longe o mais rico de todos os PALOP. Acontece que Angola é também um dos países com pior desempenho em termos de governance do mundo. Angola só recentemente melhorou um pouco a sua posição no ranking da Transparency.org, e está actualmente na 158ª posição, mesmo assim bem atrás de Moçambique.
Entre 2003 e 2005, Angola recebeu quase 60% do apoio dado por Portugal, enquanto Moçambique, citado apenas como exemplo, que tem mais população e melhores indicadores internacionais, recebeu apenas 5% do total dessa mesma ajuda.
Falta massa crítica para pensar a nossa política externa, faltam plataformas para a sua discussão, falta que a sociedade civil no geral ganhe consciência do rumo e das prioridades que ela assume.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Das Verdadeiras Divisões na UE.


O rumo da UE é, já se sabe, fruto do consenso interestadual e da intersecção de interesses dispersos e não raras vezes sensíveis. A posição dos Estados-membros sobre determinada questão é, não pode deixar de ser, o reflexo de um poder independente e internacionalmente reconhecido, ao qual se dá o nome de soberania. Contudo, o enunciado intergovernamental não chega para explicar a génese e a direcção do processo de integração. A UE não é, hoje em dia, um mero agrupamento de Estados nacionais soberanos. A soberania é, nas relações internacionais contemporâneas, um conceito poroso e bastante mais diluído do que o engendrado por Bodin no longínquo século XVI. Mas o que define realmente o rumo da integração europeia, se o enunciado supranacional também apresenta limitações, desde logo pela dificuldade em justificar, por exemplo, a existência de um segundo pilar?
A explicação pode residir nas divisões históricas que têm como protagonistas os mais poderosos Estados europeus, a França e o Reino Unido.
A primeira tem a ver com uma divisão de natureza económica, entre o ‘laissez-faire’ britânico e o dirigismo francês; divisão esta que, historicamente, espelha o desencontro entre uma visão liberal da economia, aberta ao exterior e baseada nos privados; e uma visão estatocêntrica, baseada na percepção de que a Europa deve estar o mais protegida possível face à concorrência exterior, e que deve ser o sector público o principal promotor do desenvolvimento económico.
A segunda, por seu lado, aparece relacionada com a diferente perspectiva que ambos os países têm (hoje mais esbatida) do processo de formação e de desenvolvimento de uma política externa e de segurança comum. De um lado, a perspectiva eminentemente continentalista de Paris, que lateraliza a OTAN; e uma perspectiva atlanticista encabeçada por Londres, que não anui a uma UE com capacidades autónomas da OTAN, a não ser em cenários onde esta não mantenha a intenção de intervir. A dicotomia franco-britânica relativamente a uma política externa e de segurança está na base da pouca integração europeia nestas áreas (política externa, segurança, e defesa), pelo menos quando levada a termo de comparação com outras onde o processo se encontra num patamar bastante mais dinâmico.
Estas divergências, globalmente consideradas, desembocam numa conclusão sobre a problemática do desequilíbrio do processo de integração, que é de certo modo alternativa à simples (ou simplista) referência ao poder dos Estados e à prevalência do seu interesse nacional. Deste modo, pelas divergências de base entre a França e o Reino Unido se pode depreender que as condicionantes ao processo de integração são extensíveis ao domínio económico e político por via não do desacordo entre todos os Estados da UE, mas pelo desacordo entre dois dos seus membros – tendo ambos tendência para liderar o processo. Como consequência directa deste facto há a destacar a amplamente reconhecida imperfeição do Mercado Interno, bem como as sobejamente conhecidas limitações da UE em ter uma voz política una e assertiva na arena internacional. O Mercado Interno e a política externa são áreas-chave para o sucesso de integração europeia, e é nelas que mais se manifesta o desacordo protagonizado por Paris e Londres, a partir da defesa de princípios de base distintos.
É, pois, nos Estados que servem de veículo transmissor das suas posições que reside o verdadeiro poder de influenciar o processo. Do desequilíbrio de poder entre os Estados-membros resulta um desequilíbrio proporcional no avanço sectorial do processo de integração.
Interessante.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Impasses em Ano Crucial.


Estocolmo assume hoje a Presidência do Conselho da UE. Fá-lo numa altura em que a UE se encontra numa verdadeira encruzilhada institucional, uma espécie de limbo político em que nada se afigura como certo. Incerteza é, neste momento, a palavra que melhor define a hora actual da UE. Até Dezembro, muito ficará decidido. Mas por enquanto o cenário é ainda de incerteza, embora haja assuntos mais incertos do que outros.
Por um lado, há a entrada em funções de um novo Parlamento Europeu, que por si só já acarreta constrangimentos vários, e cuja primeira tarefa será a de se pronunciar sobre o nome do Presidente da Comissão. A Presidência sueca terá de lutar para que isso seja feito já em Julho em vez de no Outono, como é pretendido por alguns.
Por outro lado, a Presidência sueca terá um papel fundamental na continuação dos esforços levados a cabo pela UE com vista à obtenção de um acordo global favorável pós-Kyoto, para o qual a cimeira de Copenhaga em Dezembro poderá desempenhar um papel fundamental. A política ambiental da UE sofreu um revés durante Presidência checa, após o vigor inculcado pela Presidência francesa do último semestre de 2008. A ideia, de reduzir os gases com efeito de estufa no espaço da UE em 20% até 2020, enfraqueceu devido à crise económica e financeira internacional - diga-se, outra das grandes preocupações suecas.
Finalmente, a Presidência terá ainda de contar com a aprovação ainda dúbia do Tratado de Lisboa no referendo irlandês de Outubro que, em caso de rejeição, pode abrir uma nova crise política e institucional no seio dos vinte e sete.
Muito por fazer, muito que esperar. 2009, está confirmado, é definitivamente um ano de transição e de viragem para a UE.

sábado, 20 de junho de 2009

Como?

In Russia, the optimists learn English; the pessimists learn Chinese and the realists learn to operate a Kalashnikov.

Dmitri Rogozin, Russia's ambassador to NATO

sexta-feira, 19 de junho de 2009

What About a Regime Change in Pyongyang?


North Korea is a tough regime to change. Some even affirm it is unchangeable by traditional means. The belligerent behaviour of North Korea is a direct result of the draconian thought and craziness of the regime’s highest leadership. Pyongyang cannot be trusted by the West nor by any of its neighbours.
The best strategy to overthrow the Stalinist-type regime is not, as many would wonder, a conventional war or rough sanctions. The best way to initiate a regime change is from inside. If North Koreans could have access to information from the outside, the regime wouldn’t be able to hold itself in power for much longer. Information about the prosperity and development of their southern neighbours would certainly be an excellent conductor of gradual resentment, and pave the way for a large-scale revolt.
Encouraging students (even if only the well-heeled ones) to study abroad would be a good starting point. Receiving western education and contacting with western culture and freedoms would for sure function as a powerful weapon against the regime.
History has proved how dictatorships suffer the destabilizing effects of having nationals who disseminate new ideas and values into a closed society. Soviet Union is a good example and North Korea could easily become the most recent one.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Devaneios Sovié...Perdão, Russos.

O conceito de "democracia musculada" na Rússia parece estar a servir-se do seu carácter ambíguo e descomprometido para reescrever alguns dados históricos até hoje tomados como comprovados e irrevogáveis. A estratégia do estado russo passa agora por limpar a imagem do país aos olhos dos seus cidadãos e, pior, aos olhos dos povos vizinhos e da comunidade internacional em geral.
Os sinais têm sido muitos e quase ininterruptos nestes últimos tempos, especialmente desde o segundo mandato de Putin, tendo sido reforçados no primeiro ano da era Medvedev. Mas o último devaneio russo não pode passar sem um pouco de publicidade. Segundo um historiador militar, a culpa do desencadear da II Guerra Mundial não foi da Alemanha militarista mas da...Polónia. Claro! Os alemães sempre foram um povo brincalhão, autênticos arautos do pacifismo. Já os polacos...humm...esses nunca enganaram ninguém.
Por este raciocínio, podemos esperar a breve trecho exigências territoriais russas à Ucrânia, à Estónia, à Bielorrússia, à Geórgia (ah sim aí o assunto já está resolvido), à Finlândia, etc. E que se cuidem os americanos: estão a ver aquele bairro nova-iorquino cheio de russos? Pois é. Também faz parte da santa Mãe-Rússia. Há lá russos! Um dia a Rússia vai reclamar isso como enclave.
Enfim, seria bom que alguns russos não escrevessem depois do almoço. Não todos. Alguns.