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segunda-feira, 5 de março de 2012

Beginners (2011).


“You are only two years older than me, darling, where have you been all my life??” Foi desta forma que Christopher Plummer, do alto dos seus 82 anos, reagiu à entrega do Óscar de melhor actor secundário para gáudio da plateia, que lhe dedicaria um sentido e prestimoso (e merecido) aplauso. Plummer chega finalmente à almejada estatueta dourada, aquela que tantas vezes foge aos mais ilustres, pela sua prestação em Assim é o Amor, de Mike Mills, onde contracena com Ewan McGregor e a francesa Mélanie Laurent. É a consagração de um grande senhor do cinema.
Não fosse o prémio para este veterano actor, e talvez este fantástico filme passasse completamente ao lado do público português. Continua a ser lamentável que filmes assim não sejam alvo de uma maior e mais equitativa distribuição pelas salas de cinema portuguesas.
Plummer é Hal, pai de Oliver (Ewan McGregor), do qual nunca foi próximo. Viúvo, sente necessidade de revelar a Oliver a sua homossexualidade, reprimida ao longo de 44 anos de casamento. A confidência tem o inesperado efeito de aproximar pai e filho, e serve de mote para que Oliver encete uma viagem interior de auto-descoberta que o vai levar a quebrar barreiras e a redefinir o é para si o amor.
Beginners – título original que alude às novas experiências em torno do amor que aguardam os personagens – destaca-se, acima de tudo, pela sua enorme honestidade. É um filme sem subterfúgios, daqueles que desde os primeiros minutos pegam no espectador ao colo para não mais o largarem até final. Assim é o Amor não tem outra pretensão que não a de celebrar o sentimento que faz de nós aquilo que somos, seres humanos com defeitos e virtudes, e afinal o único capaz de obliterar a perspectiva da nossa própria finitude e de conferir um sentido à nossa passagem por este mundo. Especialmente quando retrata um romance homossexual de um octogenário “saído do armário”. Assim é o Amor relembra-nos, oportunamente, as múltiplas formas e manifestações que o amor pode assumir, e o que podemos apreender das vivências daqueles que nos são mais próximos. O filme de Mills – semi-autobiográfico como o próprio admitiu – tem o grande mérito de captar com a alvura necessária os desafios psicológicos advindos do amor: a homossexualidade de Hal faz com que Oliver reflicta no percurso de vida da sua mãe e na relação que esta estabelecera consigo, à qual vai atribuindo novos significados.
Por fim, o filme não deixa de beneficiar das magníficas interpretações de Plummer, McGregor e Mélanie Laurent, esta última irradiando um brilho a que é impossível ficar indiferente, e que disputa a atenção e a reverência do espectador com as fabulosas aparições de Arthur, o Jack Russell de Oliver, um cão apegado ao dono que não fala mas cujos mordazes pensamentos perpassam para a tela, colocando a cereja no topo do bolo neste Assim é o Amor.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Autobiografia de Niculae Ceausescu (2010)

A “Autobiografia de Niculae Ceausescu” apresenta um retrato impressionante do regime que durante décadas atormentou e amordaçou o povo romeno. O filme de Andrei Ujica mostra-nos os bastidores da tirania, do seu inexcedível cinismo e da terrível encenação do seu poder.
Esta “Autobiografia” reflecte fielmente a teatralidade do regime, das suas práticas, das bases nas quais assenta o seu poder. É um documento prodigioso, um deslumbrante “flashback” visual de uma grande parte do regime comunista romeno, centrado na sua figura cimeira, e exibindo o maniqueísmo do regime em toda a sua plenitude. Sublinhe-se a forma como regime instrumentaliza os espectáculos públicos e as grandes concentrações de massas para fins propagandísticos, com a pretensão de legitimar o comunismo como o destino final do país.
Outros líderes comunistas como Mao, Dubcek ou Kim Il-sung aparecem como personagens de um enredo que ultrapassa as suas figuras para se centrar nesse “corpus” político que é o internacionalismo comunista e no aparente espírito de solidariedade e cooperação entre os seus regimes. Impressionam as recepções a Ceausescu em Pequim, e particularmente em Pyongyang, que não deixam de remeter para a dimensão do poderio do estado totalitário comunista e para a consequente obliteração do cidadão enquanto ser pensante.
Ocasiões como os seus aniversários, o doutoramento honoris causa atribuído pela Universidade de Bucareste, ou a aclamação de que foi alvo no 12º Congresso do Partido Comunista após uma voz contra (que terá acontecido a esse homem?), confluem numa estratégia de encenação tendente a alimentar o culto da personalidade que caracterizou o regime do ditador. É transversal ao filme uma preocupação em fazer notar a imagem de catarse colectiva em torno da sua figura, em todos os seus discursos e actos públicos, como se a absoluta clarividência e capacidade de decisão perante os problemas e os desafios do país fosse, a ser possível, um exclusivo seu.
O filme de Ujica coloca-nos perante um ditador que apreciava a visibilidade pública. Através de aparições milimetricamente preparadas, a sua imagem de força e poder não era descurada em nenhuma ocasião. A propaganda mostra Ceausescu em permanente contacto com populares, que maquinalmente lhe vão endereçando felicidades, saúde e uma vida longa.
Talvez resida aqui o maior mérito de Ujica: o de conseguir desmontar a imagem de Ceaucescu e a sua linguagem política virando-os, com meritória minúcia e precisão, contra o objectivo para o qual foram concebidos.
Trata-se de um grande “flashback” biográfico imaginado por Ceausescu aquando da sua detenção, em finais de 1989, deixando sub-reptício o tipo de evolução social de um país governado com mão de ferro ao longo de quase 25 anos, e a plasticidade e mecanicismo do seu regime – uma receita sobejamente comum a outros regimes congéneres. A sua imperturbável expressão facial por ocasião da sua captura demonstra inequivocamente uma nítida altivez, colocando a nu a sua arrogância, e uma perturbadora obstinação, que acabem por incorporar a natureza férrea do seu regime. Assim ditam estes hipnotizantes 180 minutos.
O “filme ficção” de Ujica faz acreditar que a ideologia política de que as ditaduras se servem pode ser de tal ordem poderosa que se torna capaz de reproduzir nos seus líderes um grau de fanatismo tal que os acompanha até ao momento em que encaram a morte.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Single Man.


Uma estreia auspiciosa. É o mínimo que se pode dizer da que Tom Ford teve atrás das câmaras, na adaptação de A Single Man, romance homónimo de Christopher Isherwood, uma história passada no ano politicamente quente de 1962. O reverenciado estilista norte-americano rubrica uma obra de fazer cair o queixo, onde nada parece falhar. Todo o filme é uniforme, uma sinfonia de sentimentos que vem cobrar ao espectador a desfaçatez de, num laivo de preconceito, alguma vez ter duvidado do talento de alguém que desenha roupas. Não se duvide pois, já que A Single Man é um daqueles filmes que nos surpreendem não só pelo nome de quem realiza, mas por uma conjugação simbiótica de dois actores soberbos, Colin Firth e Julianne Moore. Se Firth, na pele de um professor universitário homossexual que perde o amor de uma vida até aí perfeita, enche completamente o ecrã; Moore aparece fulgurantemente como a sua cara-metade, alguém com quem partilha um passado comum, embora um pouco menos tortuoso.
O grande mérito de Ford (que surpresa mais uma vez!) reside na captação perfeita do tormento de George Falconer (Colin Firth), e da fragilidade e permeabilidade do seu estado de alma ao longo daquele que será o seu último dia de vida. O jogo de cores que Ford faz trespassar para fora do ecrã tem uma força tremenda, e realça ainda mais a já de si espantosa interpretação de Firth. Ford consegue também, e o filme não o esconde, transportar os seus dotes de profissional da moda para a tela, num trabalho meticuloso de design, notoriamente assente numa produção de época imaculada. Os ambientes, as interpretações e, não esquecendo, a glamorosa banda sonora, conferem ao filme um poder hipnotizante sobre o espectador, cedo rendido à sua beleza.
Tremendamente emocional, A Single Man faz a apologia dos mais profundos sentimentos humanos, a dor, a perda, o vazio, o amor; alcançando essa quase inenarrável proeza de acometer na mesma obra uma realização tão pessoal e tão viva, conjuntamente com uma estética carregada de charme e de significado combinação que só poderia resultar num filme simplesmente...arrebatador.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

The Company (2007).


No tempo em que o mundo se dividia em dois blocos político-económicos antagónicos e irreconciliáveis, as actividades desenvolvidas pelas agências governamentais de espionagem e contra-espionagem detinham uma importância primordial no decurso dos acontecimentos. Por outras palavras, a "guerra" era "fria" precisamente porque disputada por meios não tradicionais, e em que por vezes valia mais o génio pessoal dos homens por detrás dos dois lados da barricada.
The Company, mini-série de dois episódios realizada por Mikael Salomon e co-produzida por Ridley Scott, mostra as mundividências do grande jogo que durou 46 a 91, os seus métodos, e sobretudo as regras da profissão, nem sempre vis. O que torna a série surpreendente é exactamente a familiarização com as regras deste jogo e com a abordagem adoptada por quem o jogava: imutáveis e implacáveis, mas com um pano de fundo onde imperava um certo reconhecimento e até respeito e admiração pelos cérebros oponentes.
Sem ser uma série de referência - está longe de o ser - The Company oferece-nos um reflexo privilegiado do fascinante mundo da espionagem, desfazendo alguns mitos (de que tanto gostamos) e mantendo outros. Aparte algumas passagens que pecam por uma desconexão algo simplória, e um ou outro erro de casting, The Company vale a pena pela riqueza com que trata certos aspectos da actividade, tais como o serviçal idealismo dos seus agentes, e a inelutável crença de muitos homens e mulheres de que as guerras não são ganhas apenas no campo de batalha ou atrás dos gabinetes das agências de segurança. Mas no terreno; em Berlim, Budapeste, Cuba e, do ponto de vista sempre parcial dos vencedores, em Washington, bem dentro do seu próprio covil.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Filme da Década.


Seria difícil concordar mais com a escolha que a Total Film de Fevereiro faz para melhor filme da década. There Will Be Blood, de Paul Thomas Anderson, foi o ilustre escolhido. Surpreendente e fascinante a todos os níveis, a obra de P.T. Anderson destaca-se das demais (e quantos excelentes filmes houve nos últimos dez anos) pela aura épica de Daniel Plainview, mais uma assombrosa interpretação de Daniel Day-Lewis.
Mas para além do génio absoluto de Day-Lewis, There Will Be Blood é um recrudescer de emoções afiadas como uma lâmina, irrepreensivelmente potenciadas por P.T. Anderson e protagonizadas por Plainview e pelo reverendo Eli Sunday (Paul Dano). De um lado a ambição de Plainview pelo ouro negro, extensão natural da sua vida; do outro, a ambição de Sunday em fazer a sua Igreja lucrar com as prospecções de petróleo. Deste confronto de egos e de ambições resulta uma encarniçada luta entre dois homem de mundos diferentes e aparentemente indestrutíveis. Toda a estética do filme é esmagadora, crua, por vezes até cruel, num sublime reflexo do perfil psicológico da dupla de protagonistas.
There Will Be Blood, passe o cliché, é de facto aquilo que se chama um "clássico instantâneo". Há muitos poucos filmes tão poderosos e eloquentes como este, não só na última década mas em toda a história do cinema. Não levou para casa o Óscar (como deveria), mas isso não lhe retira ponta de mérito.


domingo, 6 de dezembro de 2009

Ian e Rob.



Quem já viu High Fidelity, de Stephen Frears, baseado no romance homónimo de Nick Hornby, recorda-se deste momento como nenhum outro. Ian (Tim Robbins) é o responsável por "roubar" a namorada de longa data de Rob (John Cusack). E esta é a forma como Rob (não) reage às provocações de Ian, a personificação de todas as misérias de Rob. Bem à imagem do filme, esta cena, ainda que desbocadamente cómica, ajuda a perspectivar os problemas sérios das relações humanas e o sempre delicado tema do amor de uma forma leve, desdramatizando-os. É como falar de assuntos sérios a brincar. High Fidelity, para além da fabulosa banda sonora, não é parco em momentos como este. Por isso mesmo, o melhor é apreciar e desfrutar deste delicioso filme do princípio ao fim.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Ursos em Monociclos!"

Nunca viu a face amigável do actual Pres...perdão Primeiro-Ministro russo? Mais uma tirada das mentes geniais por detrás de Family Guy. É delirante ver o desbocado humor da famosa série norte-americana retratar alguém como V.V.Putin:


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Inglorious Basterds.


O muito aguardado regresso do aclamado realizador norte-americano fez-se pela porta pequena. Tarantino, esforçadamente, chama a si as ferramentas que tantos sucessos lhe deram, para desta feita se resumirem a um ou outro pico de adrenalina, a uma ou outra tirada, a um ou outro momento mais bem conseguido.
Inglorious Basterds não é um filme sobre os "Basterds". Ao contrário dos seus anteriores registos, as personagens participam pouco no filme, com a excepão total do Coronel Hans Landa - magnificamente interpretado por Cristoph Waltz. Pitt tenta fazer de Lee Marvin, mas não consegue. Eli Roth não foi feito para fazer de mau, para não falar de Daniel Brühl, nada menos do que um clamoroso erro de casting. Shosanna (Mélanie Laurent) é, a par de Waltz, o melhor do filme; uma espécie de "Uma Thurmanzinha" em ebulição, com a desvantagem de a fazer lembrar e de ser impossível evitar comparações. O mesmo acontece com Pitt.
Basterds acaba por se perder nas influências a que vai beber e acaba, por isso mesmo, por ser um filme inconsequente. Não é fraco, mas é o pior Tarantino da carreira, pois é um filme sobre filmes. Faltam diálogos delirantes, faltam momentos em que sobressaia a banda sonora, e falta, acima de tudo, o seu típico humor. Cortar escalpes a nazis e dizimar altas patentes numa sala de cinema trancada é engraçado, mas não chega para mais de duas horas de Tarantino.
Apesar de ser um entretenimento garantido, Inglorious Basterds traz algo que desconhecia a um filme de Tarantino - não tem a arte e o engenho para ser fabulosamente surpreendente, que é precisamente a maior característica do realizador e aquilo que não lhe tem falhado em nenhum dos seus anteriores filmes. Mas em Basterds, até isso faltou.
Tarantino disse que Waltz veio salvar o seu filme. Salvou mesmo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Александра (2007).


Um dos mais proeminentes cineastas russos da actualidade, Aleksandr Sokurov, apresentou-se em Cannes em 2007 com uma obra no mínimo peculiar, detentora de uma mensagem desdobrável, por via dos sentidos e das interrogações que lhe possam ser atribuídas.
Alexandra Nicolaevna é avó de um oficial russo destacado para a segunda guerra da Chechénia, a quem decide, por ardente necessidade psicológica, visitar. A realidade que lhe aparece diante dos olhos é tudo menos agradável. É um mundo de homens e de miúdos a quem a vida pouco diz, uma espécie de I Vitteloni à maneira russa, com fardas militares. O dia-a-dia é vazio, os olhares são penetrantes, inquisidores, tristes. Alexandra parece não compreender a vida daqueles a quem a pátria apontou o caminho para uma confrangedora solidão nos confins de uma terra onde não são bem-vindos. A espaços, sente-se este desdém hostil entre locais e russos, uma desconfiança mútua, um medo que não cessa de pairar; para além de uma gritante carência de afectividade - essa trágica recordação antiga.
Alexandra é um filme enigmático e artisticamente ambíguo, passível de múltiplas leituras, mas é certamente tudo menos um chavão para a compreensão da душа (alma) russa. Funciona, pelo contrário, como uma pista para os insondáveis desígnios de um país ainda à procura do que pretende e da sua própria identidade.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Momentos Para Sempre.


O cinema é uma arte propiciadora de momentos únicos, daqueles que se recorda quando vamos na rua; quando estamos sentados num banco de jardim; quando damos voltas na cama e esperamos que o sono chegue; quando atravessamos uma longa recta na autoestrada; enfim, sempre que à mente se lhe propicie a evasão, e sempre que à evasão corresponda o intrépido e sempre presente instinto de recordar 'aquela' cena, 'aquela frase' ou 'aquela' sequência. Não importa se são momentos de choque, de terror, de comédia, de suspense, de adrenalina, de espanto, de enternecimento, de repúdio, de revolta ou da mais pura satisfação. Importa sim honrar a memória do cinema e dos momentos que, cinéfila e emocionalmente falando, são inesquecíveis pela arte e pelo génio que encerram.
Vale a pena vasculhar o baú, vale a pena perder tempo a perscrutar onde foi que o cinema atingiu o auge da criatividade e da beleza. Faz bem saborear, mesmo estranhando à primeira, o que de melhor trazem os filmes: seja o "Heeeere's Johnny" de Nicholson, o "I love the smell of napalm in the morning", o (primeiro) "Bond, James Bond", ou o tiroteiro na escadaria de Odessa do fabuloso Couraçado Potemkin. Não importam os momentos. O mais importante mesmo é recordar e, com isso, aprender.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Death of a President (2006).


Morte de um Presidente, mockumentary (logo não é Michael Moore) que chocou meia América em finais de 2006, mas que só estreou em Portugal em 2008, mostra o cenário hipotético do assassinato do à data Presidente dos EUA, George W. Bush.
Cenários hipotéticos não são novos em cinema nem nas artes em geral, mas quando a figura central é o presidente dos EUA, os ecos da ideia são redobradamente repercutidos. Morte de um Presidente parece não ter um objectivo concreto e, mesmo do alto do seu despretensiosismo, parece não levar o espectador a nada mais do que a hora e meia de interrogações, que variarão muito consoante a opinião de cada um tenho do hipoteticamente assassinado Presidente.
No seguimento do assassinato no Sheraton de Chicago, o vice Dick Cheney sucede a Bush perante uma América em choque e altamente envolvida na caça ao responsável pelo acto. O que inicialmente parecia estar ligado aos exaltados manifestantes que durante todo o dia e noite mostraram a sua raiva contra a figura de Bush, cedo resvala para Jamal Abu Zikri, um sírio que estivera no Paquistão e que alegadamente recebera treino nos campos da Al-Qaeda no Afeganistão. Após a sua condenação, fortemente influenciada por motivos políticos, dá-se a descoberta do verdadeiro responsável por alvejar mortalmente Bush, um afro-americano veterano da guerra do Golfo, que via a segunda guerra do Iraque como injusta e procurava vingar os danos que a sua família sofrera por causa dela.
Morte de Presidente é um filme parco em ideias, e tremendamente previsível. Aquilo que lhe está subjacente - o preconceito contra os muçulmanos depois do 11 de Setembro - poderia ter sido mostrado de muitas outras formas, qualquer delas provavelmente de uma maneira muito melhor do que através de um mero cenário hipotético, que não leva a muito mais do que a sorrisos maliciosos por parte dos (muitos) opositores e detractores de Bush.
O que seria porventura um exercício arrojado e ambicioso, acaba por redundar num vazio imenso e em algo frágil que não diz muito nem a quem não gosta(va) de Bush nem a quem o apoia(va), já que uns provavelmente não se reverão nas atitudes selváticas dos manifestantes, ao passo que os segundos sentir-se-ão tremendamente ofendidos, como aliás se verificou.

domingo, 21 de junho de 2009

"Funny How??"

Mais uma memorável cena da sétima arte. Em Goodfellas, o ultra-idolatrado filme de Martin Scorsese, Joe Pesci dá corpo a um mafioso sui generis que além de um inato talento para o alheio e para despachar quem se atravessa no caminho, tem também o dom da comédia. Numa mesa recheada de wiseguys, Pesci protagoniza dos monólogos mais marcantes a que já assisti, repleto de humor negro e de uma visão despreocupadamente retorcida da vida, bem ao estilo gangster.
Pesci faz um grande papel em Goodfellas, provavelmente o melhor de uma carreira que, diga-se, também não viria a conhecer dias muito melhores. Mas por Goodfellas, Pesci receberia o Óscar de Melhor Actor Secundário, um galardão bem merecido após tão tragicómica e hilariante interpretação. Pesci é o sal do filme, e é dono e senhor do seu melhor momento.
A recordar:


terça-feira, 2 de junho de 2009

Bobby (2006).


Este é um filme não do que foi, mas do que poderia ter sido. Bobby retrata o assassinato de Robert Kennedy, o irmão mais novo de John, também ele malogrado alguns anos antes. No filme de Emilio Estevez, a tragédia de RFK é a tragédia da América. É a tragédia de uma América que quer mas que não se consegue libertar dos fantasmas do passado. Bobby Kennedy juntava-se a Luther King, que naquele fatídico ano de 1968 morrera também.
Bobby debruça-se sobre os acontecimentos da noite de 5 de Junho de 1968 ocorridos no Hotel Ambassador em Los Angeles, local onde RFK celebrava a vitória nas primárias da Califórnia. Mas fá-lo de modo pouco convencional, a partir das vidas privadas de várias pessoas: dois ajudantes de cozinha, um par de namorados com casamento combinado para salvá-lo do Vietname, um ainda ternurento casal sénior, o gerente do hotel que engana a mulher, o jovem activista negro, dois reformados que jogam xadrez. Enfim, gente normal, gente como todos nós que acaba por partilhar uma infelicidade histórica e, juntos, chorar por ela. Todas estas personagens têm algo em comum; todos simbolizam algo, todos partilham a esperança em RFK, a todos RFK diz respeito, a todos poderia e deveria afectar.
Bobby pode saber a pouco. Ao vê-lo dá vontade de saber mais sobre aquele jovem Senador por Nova Iorque com cara de rapazinho que um dia quis salvar o seu país e o mundo. Mas Bobby é importante pela carga simbólica que lhe está inerente, pela forma virtuosa como caracteriza alguém que prometia, alguém que na consciência comum da América seria o homem certo no lugar, mas que nunca o chegou a ser. Um triste momento da história da América e do mundo que merece ser recordado pela demonstração da força das palavras e dos ideais. Mesmo daqueles que a perfídia não deixou progredir.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Tarantino a Perder Fulgor?


Já estava ansioso por Inglourious Basterds desde o dia em que se soube que ia ser feito. Mas disto não estava mesmo nada à espera. A incursão de Tarantino pelo tema da II Guerra Mundial, junção que só de si faz crescer água na boca, pode ser (repito: pode ser) um tremendo fiasco. Se é verdade que não devemos acreditar em tudo o que nos dizem, também não é menos verdade que alguma coisa deve certamente haver naquele filme para que a crítica não seja minimamente consensual. Não digo que a crítica devesse unanimemente aclamar Inglourious Basterds, mas uma coisa é dizer que o filme não excedeu todas as expectativas de um filme de Tarantino, outra um pouco diferente é alguns críticos terem desancado no filme como se não houvesse amanhã. O senhor do Guardian estava especialmente inspirado: The expression on my face in the auditorium as the lights finally went up was like that of the first-night's audience at Springtime for Hitler. Except that there is no one from Dusseldorf called Rolf to cheer us up.
Não que os críticos saibam tudo, não que a sua palavra possua resquícios divinos, mas o desacordo face a Inglourious Basterds vem, mesmo que não se admita à boca cheia, pôr alguns a pensar se será mesmo possível que Tarantino tenha (pela primeira vez na sua carreira) posto o pé na poça.
Gosto de pensar que a ovação de 11 minutos a que o filme teve direito após a exibição em Cannes (o tal momento em que o senhor do Guardian deve ter tapado os ouvidos) seja justificada. Mas não posso deixar de estar como aquela expressão: Yo no creo en brujas pero que las hay... las hay.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

The Cleveland Show!

Mais uma fantástica sub-incursão pelas personagens de Family Guy, a única série animada actualmente em exibição capaz de num futuro incognitamente distante igualar Os Simpsons. Depois de uma longa-metragem sobre Stewie Griffin e mais umas gracinhas entretanto, eis que a Fox decide apostar na exploração a fundo do mais pachorrento afro-americano de sempre, Cleveland. Nova família, novos personagens, gáudio renovado. Seth McFarlane e companhia parecem empenhadíssimos em tornar Clevelend ainda mais delirante do que o que já é. Por adorar a personagem e os seus tiques (ou falta deles), partilho da expressão (mas não da indignação) do bebé mais diabólico do mundo: What the hell? He's gettin' his own show??
Uau.


quinta-feira, 21 de maio de 2009

João Bénard da Costa (1935-2009).

Hoje, quem gosta de cinema (e de cultura em geral) em Portugal acordou triste. Morreu João Bénard da Costa, a maior cabeça pensante da sétima arte que este país já teve. Não só pelo seu saber enciclopédico, mas pelos caminhos que trilhou e fez o cinema trilhar em Portugal, merece uma mais que justa homenagem na hora do adeus. Além do mais, foi alguém inegavelmente dedicado à causa pública, e por isso um exemplo a reter para os dias que correm.
Saiba dar-se continuidade à sua visão e ao seu trabalho pela propagação da beleza do cinema e da cultura, num país ainda tão precisado dela.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Química.



Dois dos mais estilosos ladrões de que há memória fazem desta cena de Ocean's 11 uma das mais memoráveis do filme (e da trilogia). Esta cena é o supra-sumo da pinta em cinema. Rusty está preocupado, mas nem precisa de falar. Poucos actores jorram tanta "química" como Pitt e Clooney no ecrã. Tudo resulta melhor quando estes dois estão juntos. Nada a dizer, está tudo lá. O resto vem por acréscimo, mas nem por isso deixa de ser bom.
Química: s.f. Ciência que estuda a natureza e propriedade dos corpos simples, a acção molecular desses corpos uns sobre os outros e as combinações devidas a essa acção. Também.
Nova definição: Brad e George.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Alta Fidelidade (2000).



Não, não se trata do filme protagonizado por John Cusack e Jack Black a partir do romance homónimo de Nick Hornby (muito bom por sinal). Não. Trata-se de um dos melhores telefilmes que a SIC teve alguma vez a ideia de produzir - prática que entretanto abandonou não se sabe (pelo menos eu não sei) porquê. Parece, no entanto, que estão mais alguns aí na forja. Se tiverem uma qualidade parecida com este, venham eles.
Alta Fidelidade, realizado a partir de um argumento de Rodrigo Guedes de Carvalho, foi dos objectos cinematográficos que até hoje mais me fizeram vibrar. Uma daquelas histórias que uma vez gravada nos neurónios, nunca mais sai. Alta Fidelidade seria um filme de culto à escala universal se tivesse sido produzido por um qualquer endinheirado estúdio, e se eventualmente se desse o caso de ter chegado ao público pela mão de um...assim de cabeça, Ritchie, Tarantino, Rodriguez, Frears ou um qualquer outro que imaginaríamos a pegar em algo assim. Não foi, não o será quase de certeza, mas também não faz mal. Alta Fidelidade vale por si só conforme está, à moda portuguesinha é certo, e não deixa por isso de ser a prova provada de que com algum desprendimento e criatividade, se podem fazer coisas boas em Portugal.
Não encontro superlativos politicamente correctos para qualificar devidamente Alta Fidelidade, senão os que me ocorreriam numa qualquer conversa de rua. Por isso, não tenho outra solução senão rotular Alta Fidelidade de algo completamente marado dos cornos. Pronto já disse.
Apetite espevitado? Pois. Pena que não haja edição em DVD. Pena também pelo que sei seja difícil arranjá-lo, mesmo por meios menos...ortodoxos. Em suma, a SIC devia pensar seriamente em pôr esta pérola no mercado. Isso sim, valia mesmo a pena. Fica o repto.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O Rapaz do Pijama às Riscas (2008).


O Rapaz do Pijama às Riscas, adaptado a partir da obra homónima de John Boyne, retrata o Holocausto de um ângulo muito particular. A psicologia do filme é dominada pelo bem pensante cérebro de uma criança de oito anos, sedenta de explorar novas sensações e realidades, pelas quais se possa ir construído. Até aqui nada de novo. Mas estamos na Alemanha nazi, em plena execução da "Solução Final para o Problema Judaico", o hediondo plano para erradicar o povo judeu da Europa. A abordagem ao problema não é, deste modo, a mais convencional, daí a riqueza do filme. Ainda nos falta conhecer as pessoas "normais" que estavam do outro lado da barricada, do outro lado que julgamos infame.
A história gira em volta de Bruno, filho de um oficial alemão de alta patente, entretanto nomeado para dirigir e supervisionar um campo de concentração. Levando a família atrás, o oficial (David Thewlis) patriarca dá-se gradualmente a conhecer, evidenciando uma vincada crença no ideal nazi e nos desígnios do seu regime. A desconstrução da personagem do oficial leva ao desmoronar dos seus alicerces familiares, abrindo rupturas no seio da família: a mãe (Vera Farmiga), chocada com a tarefa do seu marido, e a filha, cada vez mais seguidista. Quanto ao rapazinho, a personagem é constante, amiúde ternurenta. A sua inocência contrasta com a cruel realidade que o rodeia, trazendo à memória o pioneirismo nestes trilhos de A Vida é Bela.
Bruno conhece um rapazinho da sua idade, que vive do outro lado da cerca. Um como ele, diferente apenas por vestir um pijama sujo. Para Bruno, é tudo um jogo. Separados por uma cerca em que não podem tocar, a sofreguidão por brincadeira de Bruno leva-o por fim a um funesto destino, que o filme até aí não fazia antever, fazendo o espectador tombar perante a seca tragicidade do seu final.
Apesar de algumas limitações, O Rapaz do Pijama às Riscas não deve ser visto como o parente pobre de A Vida é Bela, e merece por isso um visionamento despegado e atento, tanto por via da abordagem que faz por reflectir, pelo contraste abrupto que estabelece entre a iniquidade dos adultos e a fantasiosa infância; como pela ideia de que as atrocidades do nazismo são falaciosamente conotadas com todo um povo. Nunca é demais, pois, recordar.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Um Delírio Chamado Snatch.

Recordo aqui uma das cenas mais hilariantes de um dos mais hilariantes filmes de sempre. Hilariante é dizer pouco, complicado é mesmo escolher dentre as doses maciças de puro delírio que Snatch - Porcos e Diamantes proporciona. O próprio filme é um delírio do princípio ao fim, puro deleite repleto de personagens que, sendo tudo e não sendo nada, são tão galhofeiramente indescritíveis. Snatch sabe ao mesmo que uma bola de Berlim cheia de creme a meio de uma tarde de praia. É delicioso. Snatch é de lamber os dedos, é uma guloseima servida em formato cinema. Esta é uma das cenas que melhor retrata o que o filme: Mickey (Pitt) fala um inglês imperceptível, revela o amor pela sua "ma", os dois compinchas mostram bem o que são (zee Germans incluído), para não falar da fabulosa perseguição do cão à lebre. If I loose, well...I don't even want to think about loosing. Mas aí é que está a piada: a lebre fugiu.