segunda-feira, 25 de maio de 2009

Tarantino a Perder Fulgor?


Já estava ansioso por Inglourious Basterds desde o dia em que se soube que ia ser feito. Mas disto não estava mesmo nada à espera. A incursão de Tarantino pelo tema da II Guerra Mundial, junção que só de si faz crescer água na boca, pode ser (repito: pode ser) um tremendo fiasco. Se é verdade que não devemos acreditar em tudo o que nos dizem, também não é menos verdade que alguma coisa deve certamente haver naquele filme para que a crítica não seja minimamente consensual. Não digo que a crítica devesse unanimemente aclamar Inglourious Basterds, mas uma coisa é dizer que o filme não excedeu todas as expectativas de um filme de Tarantino, outra um pouco diferente é alguns críticos terem desancado no filme como se não houvesse amanhã. O senhor do Guardian estava especialmente inspirado: The expression on my face in the auditorium as the lights finally went up was like that of the first-night's audience at Springtime for Hitler. Except that there is no one from Dusseldorf called Rolf to cheer us up.
Não que os críticos saibam tudo, não que a sua palavra possua resquícios divinos, mas o desacordo face a Inglourious Basterds vem, mesmo que não se admita à boca cheia, pôr alguns a pensar se será mesmo possível que Tarantino tenha (pela primeira vez na sua carreira) posto o pé na poça.
Gosto de pensar que a ovação de 11 minutos a que o filme teve direito após a exibição em Cannes (o tal momento em que o senhor do Guardian deve ter tapado os ouvidos) seja justificada. Mas não posso deixar de estar como aquela expressão: Yo no creo en brujas pero que las hay... las hay.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

The Cleveland Show!

Mais uma fantástica sub-incursão pelas personagens de Family Guy, a única série animada actualmente em exibição capaz de num futuro incognitamente distante igualar Os Simpsons. Depois de uma longa-metragem sobre Stewie Griffin e mais umas gracinhas entretanto, eis que a Fox decide apostar na exploração a fundo do mais pachorrento afro-americano de sempre, Cleveland. Nova família, novos personagens, gáudio renovado. Seth McFarlane e companhia parecem empenhadíssimos em tornar Clevelend ainda mais delirante do que o que já é. Por adorar a personagem e os seus tiques (ou falta deles), partilho da expressão (mas não da indignação) do bebé mais diabólico do mundo: What the hell? He's gettin' his own show??
Uau.


quinta-feira, 21 de maio de 2009

João Bénard da Costa (1935-2009).

Hoje, quem gosta de cinema (e de cultura em geral) em Portugal acordou triste. Morreu João Bénard da Costa, a maior cabeça pensante da sétima arte que este país já teve. Não só pelo seu saber enciclopédico, mas pelos caminhos que trilhou e fez o cinema trilhar em Portugal, merece uma mais que justa homenagem na hora do adeus. Além do mais, foi alguém inegavelmente dedicado à causa pública, e por isso um exemplo a reter para os dias que correm.
Saiba dar-se continuidade à sua visão e ao seu trabalho pela propagação da beleza do cinema e da cultura, num país ainda tão precisado dela.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Um Homem de Sorte.


Não deve haver homem com mais ódio aos americanos do que Tsutomu Yamaguchi, japonês de 93 anos e sobrevivente às duas(!) bombas atómicas lançadas sobre o Japão em Agosto de 1945. Yamaguchi, engenheiro, estava de serviço em Hiroxima no dia 6, dia em a primeira deflagração arrasou a cidade. No dia seguinte, com diversas queimaduras, seguiu para Nagasáqui por motivos de trabalho. Aí chegado no dia 8, qual presente de boas-vindas, levou com outra bomba em cima no dia 9.
É caso para odiar os americanos de morte, mas não. Depois da guerra, Yamaguchi trabalhou para as autoridades americanas. Para os japoneses o trabalho é sagrado, mas também não era preciso exagerar. Uma bomba atómica ainda passa, agora duas...
Resta-lhe a consolação de ter sido caso único e, finalmente, reconhecido como tal.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Política Matreira.

Não gosto dos cartazes do Partido Socialista para as eleições europeias. A política não costuma ser um jogo sério e leal, mas estes cartazes denotam uma falta de seriedade acima daquilo que considero razoável. Não que o PS não seja um partido que tenha apoiado o projecto europeu, mas daí a aproveitar tudo quanto é momento de integração europeia em seu exclusivo proveito vai uma distância muito grande. Cada vez mais se fala em falar verdade aos portugueses, e cada vez se transmitem mensagens erróneas e deturpadas.
Foi durante o primeiro governo de Cavaco Silva que foi assinado e entrou em vigor o Acto Único Europeu. Foi durante o terceiro governo de Cavaco Silva que foi assinado e entrou em vigor o Tratado de Maastricht, que foi somente o passo mais importante desde os Tratados fundadores. Cavaco foi também o principal impulsionador da caminhada de Portugal rumo ao Euro - moedinha que Guterres faz questão de ter entre os dedos, reclamando os louros. Foi também durante um governo do PSD que foi assinada a defunta Constituição Europeia, da qual o Tratado de Lisboa - que Sócrates tão galantemente assina no cartaz - é maioritariamente originário.
Sei que a rectidão e a honestidade não fazem parte da política, mas também não era preciso chamar parvos aos portugueses que, enfim coitadinhos, como não lêem livros, engolem qualquer coisa que venha num cartaz colorido.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Química.



Dois dos mais estilosos ladrões de que há memória fazem desta cena de Ocean's 11 uma das mais memoráveis do filme (e da trilogia). Esta cena é o supra-sumo da pinta em cinema. Rusty está preocupado, mas nem precisa de falar. Poucos actores jorram tanta "química" como Pitt e Clooney no ecrã. Tudo resulta melhor quando estes dois estão juntos. Nada a dizer, está tudo lá. O resto vem por acréscimo, mas nem por isso deixa de ser bom.
Química: s.f. Ciência que estuda a natureza e propriedade dos corpos simples, a acção molecular desses corpos uns sobre os outros e as combinações devidas a essa acção. Também.
Nova definição: Brad e George.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Alta Fidelidade (2000).



Não, não se trata do filme protagonizado por John Cusack e Jack Black a partir do romance homónimo de Nick Hornby (muito bom por sinal). Não. Trata-se de um dos melhores telefilmes que a SIC teve alguma vez a ideia de produzir - prática que entretanto abandonou não se sabe (pelo menos eu não sei) porquê. Parece, no entanto, que estão mais alguns aí na forja. Se tiverem uma qualidade parecida com este, venham eles.
Alta Fidelidade, realizado a partir de um argumento de Rodrigo Guedes de Carvalho, foi dos objectos cinematográficos que até hoje mais me fizeram vibrar. Uma daquelas histórias que uma vez gravada nos neurónios, nunca mais sai. Alta Fidelidade seria um filme de culto à escala universal se tivesse sido produzido por um qualquer endinheirado estúdio, e se eventualmente se desse o caso de ter chegado ao público pela mão de um...assim de cabeça, Ritchie, Tarantino, Rodriguez, Frears ou um qualquer outro que imaginaríamos a pegar em algo assim. Não foi, não o será quase de certeza, mas também não faz mal. Alta Fidelidade vale por si só conforme está, à moda portuguesinha é certo, e não deixa por isso de ser a prova provada de que com algum desprendimento e criatividade, se podem fazer coisas boas em Portugal.
Não encontro superlativos politicamente correctos para qualificar devidamente Alta Fidelidade, senão os que me ocorreriam numa qualquer conversa de rua. Por isso, não tenho outra solução senão rotular Alta Fidelidade de algo completamente marado dos cornos. Pronto já disse.
Apetite espevitado? Pois. Pena que não haja edição em DVD. Pena também pelo que sei seja difícil arranjá-lo, mesmo por meios menos...ortodoxos. Em suma, a SIC devia pensar seriamente em pôr esta pérola no mercado. Isso sim, valia mesmo a pena. Fica o repto.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Widow of a Living Man (1997).

Que Ben Harper é um músico brilhante, já o sabíamos. Que do seu talento jorra arte em doses abundantes também o sabíamos. Para a indefetível devoção ao norte-americano contribuiram canções como Steal my Kisses, The Woman in You, ou Amen Omen. Para não falar de versões como Sexual Healing ou Like a King.
Mas do repertório do norte-americano fazem parte jóias como esta, Widow of a Living Man. Aqui tocada ao vivo, provavelmente como saberá melhor, a canção faz parte de The Will to Live, o terceiro do artista, editado em 1997. Tendo por tema uma disfunção familiar, a canção é dramaticamente profunda, goteja esperança e incredulidade pela ruína de uma realidade que não compreende. É uma soberbamente ritmada ode à fé e a benevolência perante a rudeza da vida e deve ser, por isso mesmo, encarada como uma celebração.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

O Rapaz do Pijama às Riscas (2008).


O Rapaz do Pijama às Riscas, adaptado a partir da obra homónima de John Boyne, retrata o Holocausto de um ângulo muito particular. A psicologia do filme é dominada pelo bem pensante cérebro de uma criança de oito anos, sedenta de explorar novas sensações e realidades, pelas quais se possa ir construído. Até aqui nada de novo. Mas estamos na Alemanha nazi, em plena execução da "Solução Final para o Problema Judaico", o hediondo plano para erradicar o povo judeu da Europa. A abordagem ao problema não é, deste modo, a mais convencional, daí a riqueza do filme. Ainda nos falta conhecer as pessoas "normais" que estavam do outro lado da barricada, do outro lado que julgamos infame.
A história gira em volta de Bruno, filho de um oficial alemão de alta patente, entretanto nomeado para dirigir e supervisionar um campo de concentração. Levando a família atrás, o oficial (David Thewlis) patriarca dá-se gradualmente a conhecer, evidenciando uma vincada crença no ideal nazi e nos desígnios do seu regime. A desconstrução da personagem do oficial leva ao desmoronar dos seus alicerces familiares, abrindo rupturas no seio da família: a mãe (Vera Farmiga), chocada com a tarefa do seu marido, e a filha, cada vez mais seguidista. Quanto ao rapazinho, a personagem é constante, amiúde ternurenta. A sua inocência contrasta com a cruel realidade que o rodeia, trazendo à memória o pioneirismo nestes trilhos de A Vida é Bela.
Bruno conhece um rapazinho da sua idade, que vive do outro lado da cerca. Um como ele, diferente apenas por vestir um pijama sujo. Para Bruno, é tudo um jogo. Separados por uma cerca em que não podem tocar, a sofreguidão por brincadeira de Bruno leva-o por fim a um funesto destino, que o filme até aí não fazia antever, fazendo o espectador tombar perante a seca tragicidade do seu final.
Apesar de algumas limitações, O Rapaz do Pijama às Riscas não deve ser visto como o parente pobre de A Vida é Bela, e merece por isso um visionamento despegado e atento, tanto por via da abordagem que faz por reflectir, pelo contraste abrupto que estabelece entre a iniquidade dos adultos e a fantasiosa infância; como pela ideia de que as atrocidades do nazismo são falaciosamente conotadas com todo um povo. Nunca é demais, pois, recordar.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Um Delírio Chamado Snatch.

Recordo aqui uma das cenas mais hilariantes de um dos mais hilariantes filmes de sempre. Hilariante é dizer pouco, complicado é mesmo escolher dentre as doses maciças de puro delírio que Snatch - Porcos e Diamantes proporciona. O próprio filme é um delírio do princípio ao fim, puro deleite repleto de personagens que, sendo tudo e não sendo nada, são tão galhofeiramente indescritíveis. Snatch sabe ao mesmo que uma bola de Berlim cheia de creme a meio de uma tarde de praia. É delicioso. Snatch é de lamber os dedos, é uma guloseima servida em formato cinema. Esta é uma das cenas que melhor retrata o que o filme: Mickey (Pitt) fala um inglês imperceptível, revela o amor pela sua "ma", os dois compinchas mostram bem o que são (zee Germans incluído), para não falar da fabulosa perseguição do cão à lebre. If I loose, well...I don't even want to think about loosing. Mas aí é que está a piada: a lebre fugiu.


domingo, 3 de maio de 2009

The Privilege of Making the Wrong Choice (1998).


Fui convidado pelo autor deste blogue a escrever umas palavras sobre esta “defunta” banda e sobre este álbum em concreto. Mas vamos por partes.
Os ZEN foram um colectivo que surgiu na cidade do Porto em 1996, após a extinção dos No Creative Solution e dos Cosmic City Blues. Da primeira sairiam para integrar os ZEN o vocalista Rui Silva e o baixista Miguel Barros, enquanto que o guitarrista Jorge Coelho (que actualmente toca com os Mesa) e o baterista André Hollanda haviam sido membros dos Cosmic City Blues.
Em 1998 surge o álbum The Privilege of Making the Wrong Choice, que considero ser um tesouro perdido do rock nacional em particular e da música portuguesa no geral, isto a par de outros projectos nacionais que apesar de terem um culto à sua volta (o dos ZEN tinha bastantes “fiéis” até) acabaram por cair no esquecimento ou cessaram actividades. Como exemplo, posso apontar bandas como os Feed – que tocavam um funk/rock muito interessante e cujo vocalista milita hoje nos menos interessantes EZ Special; e os Zorg, um powertrio que não desiludiria nenhum fã de Placebo ou até mesmo de QOTSA.
Mas voltemos aos ZEN. Apenas conheci a banda nos meados de 1999, quando dois colegas de turma, repetentes e um pouco mais velhos, me questionaram sobre se gostava ou não da banda: “Curtes ZEN?”, perguntaram-me eles. A minha resposta, apesar de negativa, mudou para melhor os meus gostos musicais, tornando-me um fã incondicional até aos dias de hoje.
“Ouve aí, já que não conheces…” disse um dos rapazes enquanto me passava um leitor de cassetes (sim, sou desse tempo) com o já referido álbum. Após a primeira audição completa já sabia que tinha que o ter o quanto antes. Tinha ficado impressionado com faixas tão poderosas como Redog, U.N.L.O, a contagiante versão de Trouble Man, um tema de Marvin Gaye; e a música que para mim é um exemplo do que melhor se fez em Portugal no que diz respeito ao rock, 11.00 AM – uma verdadeira lição que muitas bandas actuais que só se preocupam com a imagem deveriam aprender.
É efectivamente uma pena que este álbum seja já um pequeno tesouro perdido, porque merecia um lugar nos quadros de honra da música nacional, visto ser um dos melhores ou até mesmo o melhor álbum dos últimos 20 anos em Portugal. Desculpem-me os fãs de Ornatos Violeta por esta afirmação, mas até vocês, bem lá no fundo, sabem que é verdade.
Despeço-me com uma pergunta: “E tu? Curtes ZEN?”

António Freitas

segunda-feira, 27 de abril de 2009

"Era de Agitação".

Fiquei positivamente surpreendido com a imprensa generalista nacional, ao ver que nesta semana o Expresso entrevistara o conceituadíssimo Niall Ferguson, uma das mais bem-pensantes cabeças da actualidade. Geralmente, não ligo em demasia aos arautos da desgraça, muito menos quando esses mesmos escrevem nos jornais sobre tudo e mais alguma coisa, como se tudo e mais alguma coisa fosse realmente a sua especialidade. No entanto, venho com alguma apreensão a verificar que cada vez mais gente com créditos firmados, pensadores, politólogos e personalidades mundiais de elevada temperança vêm a traçar um futuro negro para a estabilidade política e social no quadro global.
Diz Ferguson, nas entrelinhas, que a crise económica não poderá servir de escudo à acção que o mundo livre deverá desempenhar nos tempos que se avizinham. Da acção (ou inacção) da Europa ocidental e dos EUA dependerá a paz mundial, provavelmente a breve trecho. Junte-se às renovadas ambições regionais da China e da Rússia, as ambição nucleares do Irão, compreensíveis mas inexequíveis. Reside aqui a grande questão dos tempos vindouros: Israel jamais o permitirá. Já tive oportunidade de discernir sobre este tema noutro âmbito, e parece que não me enganei. Está provado por A + B que Israel usará todos os meios à sua disposição para impedir o Irão de obter a arma. Quando Obama faz a apologia de um mundo sem armas nucleares, é bom que fale a sério, pois os custos do bluff serão incomportáveis.

Up.

Up, a anunciada nova aposta da Pixar para este ano, está aos poucos a fazer descansar quem ainda por pouco que seja duvidasse do poder de sedução e de originalidade do estúdio californiano. De acordo com John Lasseter, o seu muito meritório CEO, Up é o filme mais cómico que o estúdio já realizou até hoje. A avaliar pelo segundo trailer disponível, tal parece não divergir muito da realidade. Desta vez, a suculenta bizarria da Pixar vai ao ponto de pôr um septuagenário a atar 10000 balões ao telhado de sua casa e a viajar para a América do Sul. A acompanhá-lo, a mais improvável das personagens: um rapazola a quem nada sai bem. Promete. Afinal de contas, a bizarria das história é parte do charme e do encanto planetário da Pixar.
Uma palavra ainda para Partly Cloudy, a curta-metragem que acompanhará Up nas salas de cinema, e que tenta responder à pergunta: onde vão as cegonhas buscar os bebés?
Porque ano sem Pixar...já não é ano.


domingo, 26 de abril de 2009

O Pianista (2002).


A partir de uma história verídica (quão bem sabem as histórias verídicas), O Pianista retrata a história de Wladyslaw Szpilman, pianista talentoso de uma das cidades mais martirizadas da II Guerra Mundial, Varsóvia. O filme conta a ziguezagueante vida de Szpilman por entre um mundo que colapsa à sua volta; por entre bombas, por entre a miséria humana, e por entre uma felicidade quase estratosférica que o acompanha em momentos cruciais.
A história do pianista é também de certo modo a história da cidade, senão mesmo da própria Polónia: traído, apanhado por uma guerra que pouco ou nada lhe diz respeito, indefeso face às circunstâncias. O Pianista é, portanto, a fatalidade de um homem e do seu país, forçados a vergarem-se à mais dura das tarefas em tempo de guerra, a sobrevivência. Através dos seu olhos, o filme testemunha a derrocada do povo judeu na Polónia, da sua redução a quase nada, do seu destino trágico e, finalmente, do recuperar de uma dignidade afinal de contas nunca beliscada.
Por tudo isto, O Pianista é um documento histórico. Não julga nada nem ninguém. Relata os factos à distância do olhar de Szpilman, mais do que suficiente para não acometer o espectador a dados quaisquer ilusórios, fazendo-o abrir um autêntico livro de História. A veracidade dos acontecimentos assim o dita, e seria pernicioso apontar fosse o que fosse à abordagem seguida por Polanski, afinal tão real e singela como a música de Chopin que instigou Szpilman a viver.
O Pianista é, até hoje, uma das súmulas por excelência da tragédia que se abateu sobre um povo há 60 anos atrás em plena Europa civilizada. Sem subterfúgios, sem aditivos, O Pianista conjuga primorosas interpretações com a triste carga dramática do momento.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Fleet Foxes (2008).


Há uma pequena maravilha no incomensurável mundo musical ainda não devidamente laureada com os devidos méritos. Fleet Foxes, com álbum homónimo, parecem retorcer a canção tradicional e dela retirar a sua semente, o seu esqueleto. As canções dos Fleet Foxes não são estranhas a quem as ouve. Parece que estiveram sempre no ouvido, sem todavia nunca as termos ouvido.
Fleet Foxes é uma inversão de marcha no tempo até aos primórdios da pop que nunca existiram; é a criança grande sobredotada a quem já ninguém ensina nada. Fleet Foxes são exactamente isso: um fenómeno. A pureza requintada do álbum não se fica pelas aconchegantes melodias. Toda a temática envolvente é de um lirismo enternecedor que faz com que tudo nas canções sobressaia sem esforço, sem mácula. Pássaros, montanha, família, morte, vida. Nada de mais, mas mais não seria necessário.
Tiger Mountain Peasant Song foi a escolhida para encabeçar o estonteante desfile melódico que é Fleet Foxes, embora qualquer uma das outras pudesse receber esse epíteto. Das mais ritmadas como Ragged Wood, até às mais sombrias como Heard Them Stirring, Fleet Foxes é desconcertante para todos os sentidos do corpo. A voz de Robin Pecknold é um bálsamo para os ouvidos, atingindo o pico da grandeza na estoteante Your Protector.
Se a tudo isto se juntar o segundo disco da edição portuguesa, vemos que lá se incluem quase todas as entradas do EP lançado antes do álbum, e das quais se destacam English House e uma versão de Mykonos, um canção portentosa soft-rock para ouvir de sorriso estampado na cara.
O mar acústico que é todo o álbum, entrelaçado com harmónicos coros e uma guitarra do outro mundo (Dylan à espreita) faz de Fleet Foxes e da sua estreia um marco em absoluto e uma retumbante vitória, deixando qualquer desprevenido ouvinte ávido por mais.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O Antecipado Desastre de 7 de Junho.


A eleições europeias de 7 de Junho próximo, como todas as que a antecederam, são encaradas internamente como um "barómetro" para as eleições legislativas. Já não bastava o acto eleitoral para o Parlamento Europeu (PE) não captar, tradicionalmente, a atenção dos portugueses, tinha ainda de calhar num ano cravejado de eleições. Azar para o país, azar também para a visibilidade e para o grau de legitimidade que o PE pretende ter no espaço geográfico que co-legisla.
Mais uma vez, os portugueses aparecem nas estatísticas como os menos interessados por estas eleições, não se apercebendo que as matérias que lá se discutem são não raras vezes bem mais relevantes para o seu quotidiano do que as discutidas na nossa tão querida Assembleia da República. Na verdade, desde 1979 - ano em que pela primeira vez este órgão foi alvo de eleição directa - o número de domínios legislativos aos quais se aplica o processo de co-decisão (entre o Conselho e o PE sobre iniciativa da Comissão) aumentou de 15 para 37. Se o Tratado de Lisboa entrar em vigor, o número aumentará para nada menos que 90.
Para bem da transparência de processos, a tendência para o reforço do papel do PE é manifestamente positiva para a imagem da União no seio das sociedades civis nacionais. Seria bom que em países periféricos como Portugal fosse desencadeada uma iniciativa de informação em larga escala de modo a clarificar aquilo para que as pessoas estão realmente a votar. O PE é o fórum por excelência de discussão do dia-a-dia da Europa comunitária, papel que em tempos de crise económica e financeira internacional generalizada como os que vivemos, deveria ser reforçado e cimentado nos níveis inferiores de poder, fazendo-o chegar ao cidadão comum.
Enquanto isto, a abstenção em Junho será assustadora, e assistiremos a um debate de fraquíssima qualidade, pouco esclarecedor, retórico, e que nada abona em favor do papel da Europa em Portugal e, mais importante para nós, no papel que Portugal poderá ter na Europa.

domingo, 19 de abril de 2009

Mais Um Ano, Mais Desilusões.

A época desportiva da equipa sénior de futebol do Vitória acabou ontem. Este clube continua a marcar passo ano após ano. Ano após ano as desculpas são diferentes. Ano após ano aos adeptos é-lhes pedido para esperar. Ano após ano, este clube é uma desilusão.
Já não falava neste espaço do Vitória há uns tempos; mas tendo a época acabado ontem, é altura de tecer alguns desabafos. O primeiro tem a ver com a incapacidade da equipa de manter um resultado favorável. É desesperante assistir a um triste espectáculo onde uma vez em vantagem, o Vitória não tem o mínimo de capacidade para marcar mais golos de modo a garantir uma vitória clara e confortável - para si e para os adeptos nas bancadas. Os jogos não acabam aos 56 minutos, nem aos 70, nem aos 80, nem aos 90. Acabam quando árbitro apita. Até lá a equipa está obrigada a jogar como se estivesse a perder. Caso contrário, dá em derrota. Geralmente justa. Foi o caso do último jogo com Sporting, com o jogo anterior em Paços, e com o Porto. Esta é uma atitude de uma equipa medíocre e que não merece ir à UEFA. Dói-me o coração dizer isto, mas é a mais pura das realidades.
Em segundo lugar, é altura também de ser absolutamente claro. Há jogadores nesta equipa que não têm qualidade para vestir esta camisola. Os muitos milhares de abençoados adeptos estão fartos de mediocridade. Fartos de oscilações incompreensíveis, fartos de sofrer em todos os jogos. Ávidos por troféus. Sou dos que acha que uma equipa tem que o mínimo de estabilidade de um ano para outro. Infelizmente, a estabilidade de que a equipa necessitava este ano não foi tida em conta. Vieram jogadores de qualidade duvidosa, a juntar a outros que há muito deviam ter saído. O Vitória é uma equipa remendada, com um punhado de jogadores de qualidade.
Posto isto, e para bem do futebol do Vitória e da sanidade mental dos adeptos na próxima época, eis os senhores jogadores a quem deveria, a meu ver, ser apontada imediatamente a porta da saída:
Grégory
Luís Filipe
Milhazes
Lionn
Andrezinho (ou joga noutra posição ou sai)
Fajardo
João Alves
Carlitos
Até ao final da época, porque não ir pondo alguns juniores a jogar? O clube nada tem a perder. Pelo que tenho visto, muitos deles farão com certeza melhor figura do que qualquer destes acima citados.
Para a próxima época, e já que se aguarda o melhor exercício financeiro da história do clube, é bom que se invista em jogadores a sério, capazes de dar alegrias. Caso contrário, será sempre a mesma velha e deprimente história.

sábado, 18 de abril de 2009

Podridão Bacoca.

Talvez por estarmos em Abril, mês onde até o ar cheira a liberdade, os Xutos e Pontapés fizeram questão de usar a política para dizerem ao país musical (e ao país político também mas que foi usado para tal) um grande: "sim ainda existimos, sim ainda estamos vivos, por isso olhem um pouco para nós se faz favor".
É muito mau. Estamos a voltar ao tempo em que era preciso socorrer-se de uma música para protestar contra o Governo. Este tipo de intervencionismo soa mal hoje em dia. É uma forma cinzenta de protesto, amorfa, gasta, sensaborona. Não faz mover. Soa a aproveitamento piroso das circunstâncias. É roto. É super-mega-hiper-pretensioso, falso. Vem de um grupejo ultrapassado com bastante dinheiro nos bolsos, não de alguém letrado e realmente compelido e talhado para o intervencionismo artístico na política.
Pobre Zeca, deve estar a dar voltas na tumba. No seu tempo a sua música adaptava-se às circunstâncias e, ao mesmo tempo, era bela e maravilhosa por si só. Era pensada, subtil. O que esta banda fez é de uma rasquidão de todo o tamanho. Não diz a cara com a careta, e assenta-lhes muito mal. Só pode ser visto como um pedido de socorro que atesta a já difícil de esconder decadência da banda. Grotesco.
Ai Zeca, Zeca...nem queiras ver. Muito menos ouvir.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Munique (2005).


O ódio visto pela lente de Spielberg. Na verdade, a temática não é não é nova no realizador, sendo já vários os exemplos onde Spielberg faz questão de passar para o cinema algo que lhe é caro, e que tem sobretudo a ver com a má condição das vivências humanas, com o ódio politico, étnico ou religioso, com a exploração do homem pelo homem, e com a eterna demanda pela liberdade. Amistad, O Império do Sol, A Lista de Schindler, O Resgaste do Soldado Ryan, e até mesmo Terminal de Aeroporto, são exemplos de uma das grandes e mais reconhecidas facetas do famoso realizador norte-americano.
Munique é mais um exemplo de uma reconstituição histórica destinada a homenagear directamente quem sofre(u) com o ódio, na pelo de quem foi impiedosamente vítima da propagação deste. Munique, pese embora não desdiga obras anteriores, é contudo um registo que não foca somente o sofrimento. Em Munique, o sofrimento pelo ódio está lá, mas a tónica essencial do filme reside na vingança crua e implacável movida sem sentimentalismos e sem porquês. Munique não culpa nem desculpa ninguém; como o próprio Spielberg o disse, o filme "não procura culpados".
Tendo como ponto de partida o ataque movido pela Setembro Negro à comitiva israelita aos Jogos de Munique em 1972, o filme conta a história do ajuste de contas levado a cabo pelo governo de Golda Meir contra os idealizadores do golpe. Um por um, os cérebros do golpe vão sendo fria e inescrupulosamente eliminados pelo grupo escolhido (mas não oficializado) pelo governo israelita.
No meio do "olho por olho, dente por dente", há afinal lugar para moralidade e para equidade? Se há, qual? O filme parece responder que dificilmente a violência terá fim enquanto o ódio estiver tamanhamente enraizado dos dois lados da barricada; enquanto o ódio cego se basear na secularidade do ódio e não se começar verdadeiramente a pensar num futuro para árabes e israeltas. Munique é assim um valioso e surpreendente raciocínio sobre as acções humanas, e sobre a ténue fronteira que separa (separará neste caso?) identidade de fundamentalismo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Filadélfia (1993).


Filadélfia é um caso peculiar na história do cinema. Embora os haja, não de todo fácil encontrar nos anais do cinema objectos que, mais do que filmes, sejam verdadeiras fotografias de eras em transição. Filadélfia é um deles.
Até aos inícios da década de 90, praticamente não havia quem em Hollywood tivesse ousado quebrar um dos últimos tabus preconceituosos do século e retratar o tema da SIDA – mais tarde reavivado por Mike Nichols na fabulosa mini-série da HBO Anjos na América. Foi o que fez Jonathan Demme, dois anos depois do muito aplaudido Silêncio dos Inocentes.
O filme de Demme deu a Tom Hanks o seu primeiro Óscar de melhor actor, num registo em que demonstrou definitivamente a sua versatilidade. Hanks interpreta Andrew Beckett, um jovem advogado promissor que é alegadamente despedido por incompetência, sabendo contudo que o verdadeiro motivo da dispensa é o facto de ser homossexual e de ter contraído SIDA. Beckett decide processar a firma e, depois de procurar os serviços de inúmeros advogados que rejeitam o seu caso, encontra em Joe Miller – um brilhante Denzel Washington – o seu defensor. Em suma, poder e dinheiro contra…pessoas.
O filme é pródigo em cenas tocantes, e mantém constante uma desconcertante toada de intervenção social para o problema do preconceito injustificado, perante a ignorância que a maior parte das vezes consegue vencer a bondade inata e o bom senso. Destaque para o momento em que Miller, após ter rejeitado a defesa a Beckett, o vê sentado solitariamente num recanto de biblioteca a preparar a sua própria defesa. Esta cena é nada menos do que o propósito do filme: fazer o espectador inflectir-se à realidade, fazê-lo retirar a cobarde máscara que ele próprio coloca de modo a não ver o que o rodeia. Filadélfia é um filme tocante e um alerta social intemporal que, pelo carácter vanguardista que teve e pela fortíssima mensagem que lhe está inerente, é indicado para todos sem excepção. E sem preconceitos.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Obrigado Senhores.


A Volta ao Mundo parece ter gostado das palavras que há dias dediquei à Big Apple e, como tal, escolheu a respectiva missiva como vencedora da edição de Março. Como se pode ver, pude escolher dois guias de viagem (ui que sorte...), e tendo eu escolhido Paris e Londres, quem tiver ou vier a ter planeada alguma deslocação a estas duas belas capitais, pode sempre pedir-mo(s) emprestado(s). Será um prazer. Por agora, o meu obrigado aos simpáticos senhores da Volta ao Mundo.


P.S.: Da próxima vez, seria pedir muito uma viagem a sério?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Dylan por Bono.


Dylan fez com a canção o que Brando fez com a representação. Rompeu o artifício para chegar à arte. Ambos deitaram abaixo as regras rígidas estabelecidas pelos professores do seu ofício, chegaram junto do público e disseram: «Desafio-te a pensares que estou a brincar».

Bono Vox, Blitz nº34, pág.44 (Abril 2009).

domingo, 12 de abril de 2009

Mais Uma! Parabéns!

Mais uma conquista para o voleibol do Vitória. É com enorme orgulho e satisfação que vejo o clube a engordar uma bem precisada sala de troféus mesmo que através de modalidades extra-futebol. A festa foi enorme, bem comemorada, plena de emoção, mas com muitos sorrisos no final. É belo aos olhos de qualquer vitoriano ver uma sua equipa ganhar.
Valha-nos o voleibol. É a prova provada do que este clube poderia (deveria) fazer noutras andanças; vulgo noutras modalidades, vulgo futebol. Sem querer de maneira nenhuma misturar as duas relidades, muito menos retirar mérito a quem dá alegrias a este clube, a verdade é que não posso deixar de imaginar o que não seria se estes meravilhosos adeptos pudessem algum dia serem presenteados com uma Taça de Portugal em futebol, ou mesmo - porque não dizê-lo? - com um Campeonato Nacional.
Até lá, viva o voleibol! Por agora, o maior motivo de orgulho deste clube e desta cidade.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Arte.

O cinema fica mais belo, mais poderoso quando uma dada música encaixa com divina perfeição numa determinada cena. Como se aquelas cenas jamais pudessem ser concebidas sem aquela música. Cinema e música, uma complementaridade da qual ainda poucos realizadores conseguem tirar o devido partido. Cinema e música, quando são uma e uma só, fazem estremecer as profundezas dos sentidos.
Um desses casos acontece no fabuloso Donnie Darko, filme que atirou Jake Gyllenhaal e a sua mui sensual mana para a ribalta. O seu final é absolutamente soberbo, muito por culpa da sequência de cenas aliada à melodia de Gary Jules, que adaptou lindamente esta Mad World, dos Tears for Fears. Sublime.


quinta-feira, 9 de abril de 2009

Plastic Fang (2002).


Há exactamente sete (!) anos, Jon Spencer e a sua trupe editavam Plastic Fang, o oitavo registo dos nova-iorquinos. É impossível rotular seja de que maneira for o que Jon e os compinchas fazem. Groove, punk, rock, blues, indie? Tudo? Nada daquilo? É complicado. Apenas uma coisa é certa: it's damn good!
Há sete (!) anos também, um indivíduo douto nestas andanças chamou-me entusiasmado para escutar por breves momentos um certo som que saía de uns auscultadores na Worten (infelizmente, sitos algures entre Toy e Mónica Sintra). Esse som era Jon Spencer e o indivíduo em questão happened to be my cousin. E estava feito: meio minuto depois, Jon e a respectiva comandita ganhavam dois fãs do outro lado do mar. Obrigado meu.
Grande voz, enormes guitarras a rasgar o limite. Som "abluesado" pelo meio, uma estrada musical feita de lampejos inescedíveis, uma sensação de energias inesgotável, impiedosa e furiosamente dinamitada. Mas o que é isto? Que som saído dos confins dos amplificadores é este que cola imediatamente ao mais desprevenido e ao mais sabichão dos ouvidos? Blues Explosion é a democratização do rock, é blues lançado às feras da corrente eléctrica, é descarregar emoções acumuladas em plena noite de trovões. É um go fuck yourself às convenções. Não devia ser assim toda a música?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Nuclearmente Falando.

O debate acerca da introdução da energia nuclear em Portugal já não é recente, mas reacendeu-se por estes dias com o anúncio da formação da Associação para a Divulgação da Energia Nuclear (ADN). Entre os fundadores da ADN encontram-se personalidades nacionais de renome do mundo da ciência, que pretendem dar um contributo construtivo para uma questão cada vez mais premente hoje em dia no nosso país.
Não é mais possível ignorar, num país como este, que importamos cerca de 20% da electricidade que consumimos de países como Espanha e França, a qual provém precisamente de fonte...nuclear. Não faz sentido algum prolongar um tabu que tem durado décadas, como se este tipo de energia representasse o advento incontornável de acidentes nucleares e de criancinhas moribundas para o resto da vida. A energia nuclear não coloca em causa a aposta do país em energias renováveis, e muito menos acarreta os riscos e as interrogações que levantava há décadas atrás. Está hoje provado que a opção nuclear é tecnicamente segura, e tem um baixíssimo nível de emissão de CO2 para a atmosfera, o que significa que é uma energia globalmente limpa e que vem por isso, desde logo, de encontro às preocupações do momento em matéria ambiental.
Como tal, creio que a necessidade urgente de evitar a dependência do petróleo e do carvão, aliada ao inevitável aumento do consumo de energia eléctrica são bons motivos para que Portugal acmpanhe a tendência internacional de retoma da produção deste tipo de energia. Países como a Suécia, o Reino Unido e outros estão a ponderar a construção de novas centrais e Portugal devia considerar seriamente a hipótese de construir uma sua. Devemos ter a nossa central e continuar a aposta nas renováveis. Seria mais uma fonte investimento (provavelmente privado), e um factor de criação de novos postos de trabalho.
Sei que em ano de eleições é impossível, mas espero que o próximo Governo (socialista) o coloque este na sua agenda legislativa. Mais não seja, acredito que o debate merece ter lugar. Sem preconceitos nem juízos pré-concebidos - muito menos daqueles que emanam de argumentos estupida e ignorantemente politizados e nada sérios, que não poucas vezes dão à tona em praça pública.

domingo, 5 de abril de 2009

Para Abrir o Apetite...


Inglorious Basterds já está anunciado há algum tempo. Mas não é daqueles filmes que sai de uma vez; nada disso. Inglorious Basterds vai saindo aos bocados. Qualquer resquício de novidade surgido sobre o filme é tratado à lupa e revirado, qual bomba noticiosa.
A foto acima, saída da objectiva da Vanity Fair, é visualmente deliciosa e mostra os grandes protagonistas da obra mais esperada do ano, pela qual legiões de indefectíveis fanáticos se espumam e retorcem à espera de mais uma imagem, de mais uma curiosidade, de mais um trailer que mostre só um bocadinho mais da nova aventura de Tarantino. A 27 de Agosto próximo dissipam-se todas as dúvidas.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O Grupo dos Vinte.


A cimeira do G-20, que amanhã dia 2 começa em Londres, pode muito bem ser a reunião de líderes mundiais mais relevante do ano. Vários actores de primeira proa do sistema internacional levam na bagagem propostas para reformular o sistema financeiro mundial. Infelizmente, muitas delas são pouco ou nada coincidentes entre si. A reunião do G-20 pode ser a alavanca necessária para um real e duradouro entendimento à escala global, ou pode saldar-se num dos maiores fiascos que há memória.
A ténue fronteira entre o sucesso e o fracasso da cimeira advém da diferença de opiniões e de estratégias a seguir para o combate à actual crise, defendidas pelos actores envolvidos. Os EUA têm apostado num plano de injecção de capital na economia, ao contrário do defendido pela Rússia e pela União Europeia. Mesmo assim, economistas como Paul Krugman dizem que os montantes em causa não são ainda suficientes. Pelo meio, a presidência do Conselho da União chegou mesmo a acusar os EUA de estarem a acalentar um novo proteccionismo. Rússia e UE insistem na prioridade a dar à reforma das maiores instituições financeiras mundiais, tais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
A chave para uma abertura no diálogo pode residir no papel negocial da Grã-Bretanha, que se declarou abertamente empenhada em construir um consenso alargado e de ser o motor do mesmo. Londres propõe, entre outras medidas, a criação de uma nova instituição financeira global que detecte preventivamente os riscos de ocorrência de novas crises.
Não é menos verdade, contudo, que desenhar um novo New Deal parece hoje tarefa bem mais complicada. A solução conjunta para grandes problemas globais é facilitada pela existência de lideranças fortes, carismáticas e que sejam capazes de emanar confiança aos restantes agentes sociais. O panorama contemporâneo, a esse nível, não é satisfatório. É hoje mais difícil aglutinar interesses no seio das lideranças políticas, muitas vezes por culpa própria. Obama, Medvedev e Sarkozy são líderes jovens, mas com muito ainda para trilhar. A estrada continua sinuosa e cheia de obstáculos.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Playboy à Nossa Moda.


Após tantos anos, alguém se lembrou de publicar a Playboy em Portugal. Não contesto a ambição do projecto, muito menos o facto de a sua publicação constituir mais uma prova da abertura das mentalidades em Portugal durante as duas últimas décadas. Tudo isto é verdade, e nada tem de negativo.
Não consigo, no entanto, tirando o expectável interesse e curiosidade iniciais, vislumbrar um futuro airoso para a revista em Portugal. A revista tem um par de artigos com alguma profundidade, mas não vai além do que as outras revistas direccionadas preferencialmente ao público masculino já fazem. Não há uma única secção da revista que seja realmente diferente das outras publicações do género, designadamente da GQ. Pelo contrário, e tendo em conta este primeiro número, parece-me até estar bem em desvantagem: exceptuando o consensual Nuno Markl, não há colunas especialmente interessantes; Costinha e Pacman são são exactamente figuras nacionais de primeira linha; e até a menina da capa poderia ter sido muito melhor escolhida. Para não falar do preço, mais elevado.
Assim, e para além da nudez (pouco explícita) das partes baixas das meninas, a Playboy é mais do mesmo. Não acredito pois que apenas a falta de cuecas leve o público masculino de todas as idades a correr a comprar a Playboy todos os meses. Como é sabido, para isso há outras opções.
Veja lá, Sr. Hefner, não entre em mais despesas que os tempos são de crise e as coisas pelos seus lados não lhe têm corrido nada bem. Oxalá esteja enganado.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ainda a pérola de Eastwood...

Ainda a propósito de Gran Torino, torna-se imperioso ouvir o tema de Jamie Collum. É uma melodia assombrosa e de derreter quaisquer "Walt Kowalskis" que por aí deambulem. Uma vénia ao senhor, isto é qualquer coisa. Ouvi-la é sentir o filme.


Gran Torino.


Naquela que é provavelmente a sua última participação num filme como actor, Eastwood dá mostras de não vacilar. Pelo contrário, Gran Torino é uma obra esteticamente bela, algo que nem a crueldade de alguns momentos consegue esbater. Magistralmente, como se não estivéssemos já habituados, Eastowood é frio e pujante no enquadramento que constrói sobre os tormentos e sobre as pequenas injustiças de um bairro residencial marcado por problemas sociais e pelos constantes despiques raciais entre gangs, problema transversal a não poucas sociedades ocidentais.
Eastwood é cáustico e ultra-draconiano ao longo de quase todo o filme: mais do que os despiques entre gangs, é o despique entre um velho solitário, marcadamente old school, perseguido por fantasmas do passado, cravejado pela experiência; e um miúdo perdido também ele na sua solidão, amargurado por uma vida sem rota definida. Para complicar tudo, dá-se o caso de o miúdo ser hmong, um grupo étnico asiático que se divide por vários países do sudeste daquele continente. Daqui já se depreende da transformação de 180 graus que dá a personagem interpretada por Eastowood, Walt Kowalski. De velho rabugento, desconfiado, ultra-protector, atormentado, Walt encontra um inesperado escape e redenção última na afeição à família do jovem hmong. Gran Torino é a viagem psicológica final de um velho, sufocado, e que não encontra na família biológica qualquer conforto, e pela qual só sente desdém. Doente, sentindo que já não está para durar, Walt protagoniza um derradeiro acto de justiça, e paga-o intencionalmente com a vida.
Gran Torino é soberbamente clássico, sublimamente abordado, e com uma toada que transpira Shakespeare por todos os poros. Eastwood não brinca. Pode ser sorrateiro, mas ele está aí; confirmando uma vez e mais outra a sua indelével mestria. Como se não o soubéssemos já.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Synkronized (1999).


Faz este ano uma década que Synkronized viu a luz do dia. Por meados de 1999, Jay Kay e os seus lançavam aquele que pode até nem ser o seu registo mais bem conseguido, mas aquele que mais decididamente definiu e delineou o quadro dos meus gostos musicais. Synkronized é um álbum da "minha" época, daquela verde época em que ainda se está a separar o trigo do joio, daqueles recambolescos e indefinidos anos em que andamos à procura do que somos (não só mas também) um pouco pelo que ouvimos. Posso por isso dizer que Synkronized foi o meu mais decisivo trampolim para outros voos, para outras andanças.
O mérito de Synkronized é tanto devido à sua inegável qualidade, como à altura em que surgiu. Surgiu-me na altura ideal, precisamente na altura em que decidi explorar mares musicais desconhecidos. E por aí ficou. Ouvi e não mais larguei. Até hoje, é o disco mais ouvido da minha vida. Synkronized é como um velho amigo que não se vê há muitos anos, mas que apesar do tempo não perde proximidade, muito menos cumplicidade. Hoje, olho para Synkronized, esse good old chap, com um misto de ternura e de agradecimento por me ter iluminado trilhos musicais de qualidade.
Só não acredito é que já lá vão dez anos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

É Possível Outra Ditadura Na Alemanha?


Há filmes perturbadores. Die Welle ("A Onda"), de Dennis Gansel, é um desses. Talvez mais do que um filme, seja um manual de instruções sobre as fragilidades e incongruências da natureza humana. Die Welle levanta questões sobre a nossa identidade enquanto cidadãos, mas sobretudo enquanto sujeitos pensantes dotados de bom senso e de inteligência.
Die Welle faz o retrato de uma turma liceal absolutamente banal que é conduzida numa experiência inovadora pelo seu professor de História. A ideia é ensinar o que é uma autocracia. Herr Wenger, assim se chama (ou se faz chamar) o professor, propõe colocar em prática uma autocracia dentro da sala de aula, algo que desde cedo chamou a atenção dos alunos, cansados de referências pouco inovadoras ao III Reich. Os resultados são devastadores e surpreendentes: não só os alunos passaram a acatar as disposições comportamentais de uma autocracia (disciplina, unidade, obediência) como fizeram aquilo que supostamente seria uma mera experiência pedagógica resvalasse para fora dos muros da escola, tornando-a incontrolável. É arrepiante ver como o passado pode ser tão abjecta e maquinalmente ignorado, em prol de um movimento aglutinador das consciências individuais, responsável por actos orquestrados por verdadeiros nazizinhos de laboratório.
Die Welle capta na perfeição a facilidade como a humanidade pode ser conduzida ao mais trágico dos destinos, se hipnotizada devidamente e se lhe forem ditas as palavras certas no momento certo. No início do filme, como resposta à pergunta "Acham possível uma nova ditadura na Alemanha?", esta foi breve e imediata: "Não. Somos demasiado esclarecidos." Na cena final do filme (fantástica por sinal), tal convenção é completamente aniquilada pelo discurso envolvente e cativante de Wenger para os seus alunos, numa farsa final intencionalmente montada para desmascarar a cegueira geral que até aí se tinha apoderado da turma, e procurando fazê-los voltar à razão. Tal é conseguido, e os alunos acordam do torpor, não sem antes se depararem constrangidos com o rumo que os seus actos levavam. O pior de tudo é que o preço a pagar foi elevado. Demasiado elevado para adolescentes. Definitivamente a ver.

Resposta à pergunta inicial: sim, é possível.

quarta-feira, 18 de março de 2009

The Wrestler.


Se há algo que aparece clarividente aos olhos de qualquer um após no retrato intimista e indelevelmente humano de The Wrestler, é que Mickey Rourke está (aparentemente) de volta. Rourke tem uma interpretação genial, daquelas que colam imediatamente um actor a uma dada personagem. Rourke conseguiu isso, algo que está ao alcance de muito poucos.
Sendo verdade que The Wrester gira em torno da interpretação de Rourke, também não o é menos que o filme não se resume a isso. A vida atribulada de Randy “The Ram” Robinson – em certa medida análoga à vida real de Rourke – espelha os bastidores de uma actividade nem sempre olhada com respeito pela sociedade. Debaixo dos músculos e da encenação idílica dos combates há toda uma realidade muito particular; misto de companheirismo, de solidariedade, de angústia perante um futuro adiado aos poucos, e de um quotidiano marcado pelas mazelas físicas e psicológicas que vão sendo irreversivelmente sulcadas. Aronofsky mostra tudo isto de forma sóbria, sem floreados, adoptando uma postura que encaixa na perfeição com o tema tratado. O filme não precisa de mais, está tudo lá.
Não deixa também de ser curioso reparar na maneira como The Wrestler é capaz de incutir no espectador sentimentos tão contraditórios quanto passageiros: desde a empatia que a lealdade patente no mundo wrestler a espaços vai gerando, até às "facadinhas" emocionais advindas de momentos perniciosos como o intenso drama familiar vivido com a filha, ou como o tortuoso caminho percorrido até à conquista definitiva (?) do amor.
A par disto, The Wrestler traz consigo resquícios do que foi a cultura popular dos anos 80, pura mas ainda desconexa em muitos sentidos – a que o tema de Boss Springsteen vem acrescentar uma certa dose de ternura. Imperdível.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Inimigos de Peso.


Parece-me que vem aí algo em grande. Michael Mann, que rubricou películas tremendas como Heat ou Colateral, volta em Julho com Public Enemies, filme que pelo que tenho visto será dos melhores do ano. Juntos estão dois protagonistas fabulosos: Depp não corta gargantas a clientes desprevenidos, mas dá uso à sua metralhadora de forma implacável pelas ruas de Chicago. Bale é o destemido agente do FBI que lhe dá caça, e que além da missão de fazer cumprir a lei, dá início a uma encarniçada luta pessoal com Dillinger (Depp) que promete grandes momentos de acção de qualidade. É daqueles filmes para ver de olhos arregalados e de sorrisinho cúmplice ao canto da boca.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Ali Não Se Dorme.


A capa da Volta ao Mundo deste mês remete-me para uma das melhores experiências da minha vida. Era muito novo é certo, novo demais provavelmente para apreciar devidamente uma cidade como Nova Iorque. Mas lembro-me do movimento, do rush, daquele frenesim tão típico mas ao mesmo tempo ainda tão distante. Nova Iorque é a cidade dos sonhos e cada um vive-a muito à sua maneira, segundo padrões próprios. É uma cidade diferente com o mundo lá dentro, é a capital da tolerância e da liberdade.
Lembro-me da Times Square, assombrosa pelo néon das luzes. Lembro-me da ilha do emigrante, porta de entrada para um admirável mundo novo. Lembro-me da escadaria da Estátua da Liberdade, a perder de vista. Lembro-me da Catedral católica de St. Patrick. Lembro-me de olhar boquiaberto para a infinidade da 5ª Avenida. Lembro-me da Lexington, do átrio do Lowe's, do ritual de comer na rua como qualquer outro. Lembro-me da envolvência pouco familiar de Chinatown e do colossal Central Park. Lembro-me do sítio onde Lennon foi assassinado, dos yellow cabs, dos Lincoln's, e das Torres Gémeas de pé. Lembro-me de tentar capturar a grandeza esmagadora do Empire State e de não ter conseguido.
Lembro-me disso tudo e de muito mais. E digo que tomar o pulso áquela cidade é tomá-la como nossa. Não saí de lá apenas português, saí nova-iorquino. Saí mais cidadão do mundo do que era antes.
Como diz a célebre canção e muito bem:
New York, you're perfect
Don't please don't change a thing...

terça-feira, 10 de março de 2009

Jolene (1974).

Jolene é uma canção poderosa como poucas. Editada nos longínquos de 74, no álbum homónimo de Dolly Parton, Jolene é a súplica chorosa de uma mulher pelo amor do seu marido, fatalmente atraído por outra mulher. Jolene impressiona não apenas pela intrincada melodia, mas sobretudo pelos sentimentos que lhe estão subjacentes: o medo da perda, a fragilidade das estruturas que nos sustentam, e a manifesta impotência face a alguém com quem é impossível lutar.
A isto junta-se um rock potente e corrosivo, que catapulta a letra para um nível superior. Jolene foi alvo de inúmeras versões, embora uma se destaque: a dos White Stripes, que pela mestria de da guitarra de Jack lhe prestam uma digna homenagem. Além da versão abaixo - tocada em Blackpool - recomenda-se também a versão de estúdio, mais "arrumadinha", mas não menos enérgica.


segunda-feira, 9 de março de 2009

O AECT Galiza - Norte de Portugal: Uma Esperança? (II)


Um AECT engloba responsabilidades em matéria de política regional que outrora, directa ou indirectamente, eram exclusivas dos Estados-membros. Este facto é ainda mais notório em Portugal, por via da sua forma de governo una e centralizada – ao contrário de Espanha, composta por Comunidades Autónomas. O AECT vem transformar a relação das regiões com os órgãos do poder central, reivindicando para si um ambicioso grau de autonomia em matéria de selecção de prioridades com vista ao investimento de fundos comunitários.
O AECT Galiza - Norte de Portugal terá como entidades constitutivas iniciais a Junta da Galiza e a Comissão para o Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), não se prevendo por enquanto a participação de mais qualquer entidade regional ou dos respectivos Estados. Ficou acordado em convénio um capital inicial de cem mil euros para cada entidade, a fim de impulsionar a colocação em prática da AECT. Acordada ficou também a localização da sede, em Vigo, e nomeação a futura de um director, que será português. O AECT Galiza - Norte de Portugal vai de encontro ao preconizado pelas directivas comunitárias para o período 2007-2013, ajustando-se plenamente ao por elas estipulado, estando voltado para objectivos como a melhoria dos sistemas de transporte e das acessibilidades; para o aumento da cooperação no âmbito do mar; para o aumento da competitividade das PME’s da Euro-região; para a protecção ambiental e desenvolvimento urbano sustentável; e para o fomento da cooperação e da integração social e institucional.
O AECT inaugura uma nova forma de relacionamento entre os vários níveis de poder dentro da União, e aparece como um elemento transformador do próprio método comunitário, conferido uma dimensão mais alargada e profunda ao princípio da subsidiaridade, uma das ideias-chave sob a qual assenta a União Europeia. E atendendo à receptividade que teve e tem tido em regiões de toda a União, parece vir a tornar-se (assim se espera) um caso sério de sucesso, do qual se espera que esta região retire os dividendos esperados. Para já, há que reconhecer a importância do seu pioneirismo. Resta saber se a uma bela ideia se juntarão resultados práticos, especialmente em matéria de emprego e de competitividade, da qual a nossa região, muito especialmente o sempre atrasado lado português, está carente.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sea Change (2002).



Sea Change é um álbum difícil de qualificar. Vem de alguém que desde cedo habituou o público a canções cuja parafernália sonora desde cedo agradou e lhe marcou o estilo. "Isto é Beck de certeza" dizem muitos qundo confrontados com "aquele" som. Beck de si já difícil de qualificar. Mas quando em 2002 lança Sea Change, depois de pérolas como Odelay, a sua legião de fãs franzia o sobrolho. Em vez de "isto é Beck de certeza" passou a dizer "isto é Beck??? De certeza!!?". Sim, é Beck. Sea Change não só é Beck, como é o melhor Beck que eu já ouvi.
Doze canções escritas depois de findo um amor de longa data, doze diamantes de um lirismo quase canónico. A música, de uma tristeza suave, reconfortante, pura e despretensiosa. Brotando sentimento por todos os lados, Sea Change são duas mãos cheias de uma simbiose perfeita e maravilhosa. O simplismo dos versos é encantador, não só pelo que revela mas pelos mundos que deixa por revelar, e que nem todos percebem.
Sea Change é dos melhores álbuns de sempre, e merece ser (re)descoberto por muito boa gente. Possuir esta obra-prima é nada menos que um orgulho.