A propósito de W, que retrata o lado menos alienado do ainda Presidente norte-americano, surgiu um também muito oportuno artigo no último número edição portuguesa da ForeignPolicy, que faz uma espécie de apanhado do que foram as principais conquistas e feitos da Administração Bush em matéria de política externa. E não foi tudo mau. Pelo contrário, Bush incrementou as relações com a China e desenvolveu-as como nunca. Fez o mesmo com outras potências asiáticas como a Índia e o Japão, prosseguindo uma política de selectiveengagement própria da direita americana, que opta por ser menos abrangente nas alianças e afigura-se mais voltada para zonas estratégicas consideradas vitais para os interesses da América. Mesmo na relação com os aliados da NATO, é errado pensar-se que foi Bush quem contribuiu decisivamente para a deterioração das relações no seio dos membros da Aliança. Estas cisões advêm já da altura em que a NATO se viu envolvida em operações nos Balcãs, durante os anos 90. Em termos de segurança interna, não é fora do contexto afirmar que os EUA estão mais seguros agora do que durante outras Administrações. E, não sendo seguro que o ódio aos Estados Unidos tenha aumentado em países potencialmente patrocinadores do terrorismo ou mesmo em países considerados aliados quando comparado com níveis anteriores, é crível dizer que a probabilidade de o seu território continental sofrer um atentado não é maior do que durante, por exemplo, a era Clinton. Até porque não foi durante os anos de Bush que foram planeados os ataques às Torres Gémeas e ao Pentágono a 11 de Setembro de 2001. Esta probabilidade exclui, obviamente, as forças militares estacionadas no estrangeiro. Isto não faz varrer para debaixo do tapete os erros crassos de Bush, nem faz olvidar a penúria que foi o último mandato, quando esses mesmos erros eram já impossíveis de encobrir ou de justificar perante a comunidade de países livres. A intervenção no Iraque foi o caso mais flagrante de uma política fracassada no global, mas com pontos positivos pelo meio – basta pesquisar sem preconceitos e com olhos de ver.
Mais não seja, o novo filme de Oliver Stone vale pelo sentido de oportunidade. Podia até nem ser um grande filme, podia até ficar muito abaixo das expectativas, podia até ser arrasado pela crítica, mas este W. não pode ser acusado de ser inoportuno. E só por isso, a “humanização” de George W. Bush vale as duas horas. Stone é maquiavélico. Não no sentido a que a palavra nos habituou, mas porque contra a vontade de muitos, não enxovalha Bush Jr., conferindo-lhe um retrato muito pouco político e muito mais biográfico. O que é perfeitamente compreensível: afinal, para quê calcar mais a figura de alguém que é calcado todos os dias? Bush Jr. será um homem livre daqui a um par de meses, e pouca gente percebeu quem é que realmente se esconde por detrás da máscara de Presidente dos EUA. Bush Jr. é um tipo normal. Teve um pai importante, rico, influente, como alguns têm a sorte de ter. Foi um «rebelwithout a cause» durante os loucos anos da universidade. Gostava de beber uns copos, de dançar, de ser livre. É daquelas pessoas que toda a gente se imagina a rir alarvemente diante de várias cervejas. Bush Jr. sofreu agruras em empregos por onde passou. Foi injustiçado em alguns aspectos da sua vida, especialmente no aspecto familiar, irremediavelmente tapado pelo irmão Jeb, preferido do pai. Teve de provar-se a ele mesmo que era capaz, e mais importante, de provar a outros que era capaz. E foi. Bush Jr. era mau em tudo por onde passou, mas não era mau na política – nela apostou tudo, contra a desconfiança do pai e da mãe, e ganhou. Ganhou algo aos 40 anos, depois de uma vida de completo fiasco é verdade – mas ganhou. Poucos acham que ele não teve de lutar por nada. Puro engano: não foi fácil descolar-se da imagem de “protegido”, e pior ainda de se distanciar da imagem do pai para conquistar algo por ser quem é, e não por ser filho de quem é. Bush Jr. é Bush Jr., não é Bush Sr. E o homem tido por burro não é burro nenhum. É antes um bonacheirão, produto do meio rural americano, o qual cativou pela simplicidade, por meia dúzia de ideias-chave, e por uma perseverança e simplicidade de trato que a maioria dos americanos lhe reconheceu. Junte-se a isto o facto de Clinton ter caído em desgraça nos últimos tempos do mandato, e temos Presidente. Bush Jr. foi capaz de sacudir obstáculos e acusações, e conseguiu ter sucesso sabendo pouco. Mas sabia pouco porque achou que não precisava de saber muito para chegar onde queria chegar. Getready to knowtheman.
Bem ao estilo americano, depois de Os Simpsons parodiarem a candidatura de John McCain, é a vez do muito liberal SethMcFarlane, criador da série de culto FamilyGuy, meter a mãozinha na campanha eleitoral. E, muito mais radical do que a série de MattGroening, não fez por menos. McFarlane faz a série recuar até à Alemanha nazi para colocar em Stewie - o personagem mais hilariante da série - um pin da dupla McCain/Palin, quando este veste um uniforme nazi.
Muito se pode discernir sobre o pretenso mau gosto de McFarlane. Estas coisas têm o seu espaço e têm uma influência praticamente nula na votação: quem vota democrata ri-se, quem vota republicano pode ficar chateado mas encolhe os ombros. Há até aquele punhado de pessoas que fica tão chateado que passa a votar McCain só pelo mau gosto da coisa. Claro que casos como este têm mais tendência a serem desculpadas aos meios liberais do que aos meios conservadores, mas que tem piada lá isso - diabos me levem - tem.
E uma coisa é certa: esta é apenas uma das muitas provas de que a América e a sua democracia estão vacinadas e sabem como lidar com o que vem do outro lado. A sociedade de lá sabe que o humor, mesmo aquele que faz ferver alguns, faz parte da festa.
Magnolia (1999) é o filme do sofrimento. São mais de três horas em que os olhos não despegam do ecrã, arregalados com tamanha sumptuosidade. O filme está impregnado com cenas de rara beleza, daquelas que tocam até o mais rabugento dos corações. Magnolia é um objecto cinematográfico que faz a alma desesperar-se aos poucos, perante histórias aparentemente banais, mas lá no fundo densamente complexas. A mestria é de Paul Thomas Anderson, uma das mentes mais geniais de Hollywood. Impressionante é deslindar como Anderson permeia e interliga os anseios, as frustrações e os devaneios de não poucas personagens, captando a quente as suas emoções e transpondo-as para o olhar do espectador na sua dimensão mais impiedosa e mais cruel. A câmara de Thomas Anderson é crucial neste emaranhado de situações psicologicamente dramáticas. A precisão dos seus movimentos aliada à maneira como foca, por exemplo, o rosto dos personagens numa sincronia perfeita com o meio envolvente é, pode dizer-se, um dos mais significativos traços do cineasta californiano. E talvez a melhor cena para o demonstrar seja esta onde as personagens são focadas no seu espaço físico e psicológico mais íntimo, sem constrangimentos nem superficialidades - onde o papel da música (Wise Up de Aimee Mann) é particarmente importante. É um momento de rara beleza que perdurará certamente na memória de qualquer um. Esta cena tem de vir nos manuais de cinema.
Refira-se também, em Magnolia, a introdução da temática das probabilidades e do acaso e na forma como esta entra de rompante na vida de cada um, perante as suas mesclas de pequenez e impotência. E a forma como capta a solidão inata e irremediável de cada um deles é simplesmente única. Pois no final é disso mesmo que se trata: mesmo nas sociedades mais ricas e evoluídas, todos sofremos sozinhos, à nossa maneira sim. Mas sozinhos.
Ora bom, muita gente não gosta de John McCain. Muito bem, estão no seu direito, os republicanos tiveram ao longo dos últimos anos a pior liderança da história, com o homem que foi também o pior Presidente de que há memória. Mas McCain é um autêntico menino do coro comparado com o ex-candidato à nomeação republicana, MikeHuckabee. O antigo governador do Arkansas é fã de...ChuckNorris e, para ele, o actor é a solução para os problemas de segurança dos EUA e fundamental para a protecção do direito à posse de armas, contemplado pela famosa e controversa 2ª emenda da Constituição. O vídeo aqui exposto é de visionamento obrigatório, para que com uma boa gargalhada (ou várias), nos apercebamos daquilo que de pior a América é capaz de produzir politicamente. Com Huckabee, em vez de dois países invadidos em oito anos, teríamos uma média de dois por mês...
I'm ChuckNorrisand I approvethismessage. Bendito McCain.
E, por fim, o último. Já não há mais debates até 4 de Novembro próximo, dia em que pouco menos de 290 milhões de norte-americanos serão chamados às urnas para, entre muitas outras coisas, escolherem o seu dirigente máximo até 2012. Para o terceiro apronto entre os dois candidatos, Barack Obama continuava bem à frente nas sondagens em relação a John McCain. Se bem que com números divergentes, é possível afirmar com relativa certeza que Obama estava – e continua a estar – numa posição privilegiada na corrida à Sala Oval. Contudo, não é de menosprezar o facto de que McCain dispõe ainda de um número suficiente de indecisos para dar a volta à eleição, cerca de 8% segundo a última sondagem CNN. E mesmo não sendo crível que todos os indecisos acabem convencidos pelas ideias do senador republicado, não é menos verdade que algumas sondagens podem estar a pecar por excesso em relação à alegada vantagem de Obama: o New York Times atribui 14% de vantagem ao democrata, ao passo que a Gallup atribui apenas 3%. Números confusos e dispersos que não permitem conclusões sólidas. De qualquer modo, e jogando à defesa nas afirmações, Obama lidera, e à partida para o derradeiro frente-a-frente, tinha mais do que condições para manter ou até aumentar a vantagem face a John McCain. É importante ainda veicular que Obama parece, até agora, ter de alguma forma superado com sucesso a questão racial, em especial a natural antipatia que muitos hispânicos e alguns sectores brancos nutrem pelos negros nos EUA. Obama não é visto como um negro típico, muito menos como um segundo Jesse Jackson ou um Martin Luther King Jr. E isto tem sido fulcral para Obama ter chegado onde chegou. Já o republicano não conseguiu nunca, em nenhum momento da campanha, afastar-se o suficiente de George W. Bush. Havia feito até aqui uma campanha sem novidades de maior, cujo maior golpe mediático (chocante para alguns até) foi a escolha de Sarah Palin para vice. Escolha que não correu da melhor maneira a McCain, que após um período inicial de aprovação, cedo viu a sua “running-mate” revelar a sua verdadeira face, a qual, como é amplamente sabido, não agradou a quase ninguém. Ainda para mais tendo em conta que é no mínimo plausível pensar que as hipóteses de chegada à presidência do nº 2 de McCain, fosse ele (ela) qual fosse, são consideráveis. Portanto, tornava-se imperativo para o senador do Arizona puxar dos galões neste último debate e passar a ataque. E foi isso mesmo que aconteceu. No palco da Universidade de Hofstra, em Hempstead, Nova Iorque, McCain começou e acabou o debate com uma chuva de críticas ao democrata, naquele que foi sem dúvida o mais intenso e vivido dos três debates a que tivemos oportunidade de assistir. Houve fases em que esteve melhor do que Obama, mais convincente, sabendo ser forte nas críticas sem ser paternalista, e sabendo ser duro sem ser ofensivo – dois erros crassos que McCain poderia ter cometido mas que não cometeu. Entrou de rompante, procurando colar a imagem de Obama ao aumento de impostos, ao passo que apregoava enfaticamente uma política económica centrada em descidas fiscais. Prometeu poupança acima de tudo, e fez tudo para se distanciar de Bush, estando particularmente bem quando interceptou Obama dizendo: “I am not President Bush. If you wanted to run against him you should have done it four years ago.” Na área económica, Obama esteve ao seu estilo habitual. Sem arriscar – assim ditavam as sondagens – limitou-se a responder aos ataques de McCain, o mais calmamente possível, consolidando no eleitorado a sua a imagem de solidez e confiança. E creio que o conseguiu. Insistiu no redefinir de prioridades, defendendo a eliminação dos programas estatais que não funcionam em favor dos que funcionam e prometendo reduzir a carga fiscal a 95% das famílias. Nada de muito novo, portanto. No tema da campanha, o democrata tremeu um pouco face às investidas do republicano, que o acusou sucessivamente de interesses em certos sectores e de uma campanha obscura. Mas no final acabou por sair-se bem, ao colocar preto no branco as pessoas que o acompanharão à Casa Branca em caso de eleição. Na pergunta sobre os respectivos “vices” (aqui em vídeo), Obama levou inequivocamente a melhor. McCain não soube atenuar a imagem de Palin, e não fez sobressair suficientemente bem as suas virtudes; ao passo que Obama elogiou Joe Biden eficazmente, tocando nos pontos essenciais da sua personalidade, ou seja, na sua especialidade, que é a política externa.
O debate prosseguiu com a discussão sobre energia e alterações climáticas, altura em que é difícil dizer quem esteve melhor. McCain saiu-se bem, provando não ter esquecido o tema, sendo peremptório na aposta no nuclear. Já Obama optou por um discurso cuidado mas revelador, focalizando-o na importância da energia limpa, a qual afirmou ser o motor da economia americana para o próximo século. E disse acreditar ser possível reduzir a factura petrolífera em dez/quinze anos anos - uma previsão mais realista do que a do republicano. Este é um dos pontos que jogam bastante a favor do democrata, e que o distingue bem de McCain. De resto, soube, na noite de ontem, defender-se a grande nível dos ataques do adversário, aos quais respondeu separadamente e com enorme à vontade – especialmente neste tema. McCain, por seu lado, já pouco tinha por onde pegar, voltando a dirigir-se em tom pessoal a uma pessoa em concreto durante o tema da saúde. Mas mais uma vez, Obama teve uma resposta à altura do republicano, ao declarar que os cuidados de saúde nos EUA devem começar por ser, antes de mais, preventivos. O debate chegou ao fim com mais investidas de McCain, as quais em parte deram resultado. Obama teve um período menos bom, durante o qual não teve arte nem engenho suficientes para não deixar McCain ficar por cima. De qualquer forma, o candidato democrata equilibrou a contenda na parte intermediária, para não mais a deixar escapar. Resumindo, McCain esteve melhor do que no primeiro debate e muito melhor do que no segundo, mas Obama primou pela regularidade e rectidão no discurso, algo imensamente apreciado por todo o eleitorado. Por isso, e no conjunto dos debates, Obama levou a melhor por 2-1 – ainda por cima nos dois últimos, os que mais ficam gravados na memória. Barack Obama, actual senador pelo estado do Illianois, 47 anos, é a minha aposta para próximo presidente dos Estados Unidos da América, numa eleição onde não só se decide o futuro do país, mas o futuro modelo sobre o qual assentará todo o sistema de relações internacionais para os próximos quatro (oito?) anos.
Fellini é um realizador surpreendente. Aparte o seu incontestável génio, do qual já é perda de tempo discernir longamente, o mestre italiano não quis legar a sua obra sem uma referência directa ao tema da música. Muito diferentemente dos seus outros filmes, Fellini opta em Prova d’Orchestra (1978) por uma abordagem mais descomprimida – note-se por exemplo que apenas o maestro é actor profissional, sendo que os restantes são meros actores de ocasião. No entanto, nada disto retira génio ao filme, pelo contrário, apenas o realça. Fellini traça magistralmente o retrato da relação amor-ódio (mais ódio do que amor) de uma banda para com o seu maestro. A acção ocorre num reduzido espaço, não superior a uma capela transformada em auditório, devido a uma alegada excelente acústica. O espaço revela-se um elemento primordial, porquanto permite articular finamente com a câmara a interacção estreita existente entre os risíveis personagens, fazendo sobre eles abater o seu insondável espectro. Mesmo em tão pouco tempo de filme, parece haver uma definição quase perfeita do carácter irrepetível de cada um dos elementos que compõem a banda, os mesmos que a lançam numa anárquica e contestatária avalanche de emoções e gestos irracionais. A emotividade acelerada da banda lança dúvidas sobre a exequibilidade da empreitada musical, e ainda mais da hierarquia e do respeito pelos quais por convenção se pautam este tipo de colectivos. A lição de Fellini surge então sob a forma de acalmia, depois da inesperada derrocada de uma das paredes da igreja, durante a qual a harpista sai ferida. Todos se apercebem da necessidade da ordem e da harmonia, que apenas podem ser trazidas pela direcção de um maestro competente e sério. O final é soberbo, com toda a orquestra a tocar sublimemente dentro de um conspurcado cenário de uma igreja parcialmente destruída. O binómio ordem/desordem numa melódica realização de Fellini.
Cuidadinho. Mas muito cuidadinho mesmo. Eles não morreram. Eles andam aí e vêm dispostos a pôr a modéstia de lado. Os manos mais perigosos da Velha Albion voltaram às arrasadoras lides “rockeiras”, culminando um período no qual muita tinta correu sobre o seu anunciado e aguardado regresso. Como estará o som dos Oasis? Estará pouco reconhecível? Os Oasis deixaram de ser…Oasis? Voltarão aos tempos de Rock n’RollStar? Não, nada disso. Noel e Liam estão simplesmente a marimbar-se para rótulos. A música que lhes sai daqueles instrumentos é a que eles quiserem que saia, sem artifícios nem «corantes». À boa maneira Gallagher, quem quiser que ouça, quem não quiser não ouça. Quem achar que eles estão a fugir aos pergaminhos que vá dar uma volta ao bilhar grande, para não dizer pior. DigOutYourSoul sucede a um muito «morninho» Don’t BelieveTheTruth, e tendo em conta o que iam dizendo os manos, o que estaria para vir seria diferente. Diziam que não haveria hits, que não se admirariam se nenhuma das novas canções passasse na rádio. E de facto assim é (com a excepção da fabulosa TheShockoftheLightning). Mas não se apoquentem os mais cépticos. DigOutYourSoul é um disco robusto, construído sobre sólidos alicerces. As quatro primeiras faixas são de fazer tremer as más-línguas, e colocarão um sorriso na cara aos mais desprevenidos. O álbum abre com BagItUp, uma sumptuosa batida rock e segue com Turning, na minha opinião das melhores do disco. Elegante, belissimamente escrita ao melhor estilo dos Gallagher. Em Wainting for theRapture já estamos a esfregar as mãos à espera de TheShockoftheLightning, mas apuramos e ouvido e deparamo-nos com uma enérgica guitarrada cheia de saborosas oscilações. Quanto ao “single”, é do melhor. Mais um hino que parece saído dos anos 90. Oasis clássico. Acreditem: só esta faz encher a barriga. Depois do fartote, DigOut… acalma. Só em Ain’t GotNothin’ volta a haver barulho. Até lá, I’m OuttaTime, (GetOffYour) HorseLady e FallingDown são agradáveis «intrusos» cheios de pintarola. A primeira é um calmante para a alma que pede um fechar de olhos; a segunda pede um bater de pé para acompanhar o abrasivo ritmo imposto pela batida – tal como, diga-se, To BeWhereThere’s Life; já a terceira sobe de tom e é dominada por um som retorcido e misterioso – mais um exemplar de uma das veias criativas dos manos. Para fechar em beleza, TheNatureofReality é uma marcha triunfal a rasgar tudo. Mais um dos momentos altos do álbum. Para fechar, um momento mais “cool”, talvez uma das facetas mais bem conseguias de DigOutYourSoul. SoldierOn é daquelas com que nos identificamos imediatamente e das que dá vontade de cantarolar baixinho. E pronto. Eis DigOutYourSoul, o melhor registo dos Oasis desde MorningGlory. Sentem-se melhorias em relação a HeathenChemistry e a Don’t BelievetheTruth. Neste está lá tudo. Tudo o que os Oasis podem fazer. Não estão descaracterizados, estão apenas uma década mais velhos. Mas desta vez deram um murro na mesa. Sejam bem regressados! E agora com vossa licença, mas há uma certa TheShockoftheLightning para ouvir.
Oasis aqui na capa da Uncut de Stembro, o que atesta bem a atanção que imprensa da especialidade dedicou ao seu regresso. Menos não seria de esperar. Respeitinho é muito bonito.
Esta música é obrigatória. A banda de Tom Barman atinge um patamar quase divino com esta melodia e faz bom jus ao nome dEUS. Os belgas excederam-se nesta belíssima composição musical, uma belíssima amostra da melhor face do rock alternativo/indie chamem-lhe o que quiserem. O refrão é qualquer coisa de mágico, ao nível dos melhores. Redescobrir Sister Dew, do álbum The Ideal Crash vale bem a pena. E não, a música não tem meio ano, tem quase uma década. Garante-se qualidade a quem se der ao trabalho de abrir o vídeo abaixo:
O casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma questão menor. Não é uma questão prioritária, muito menos fulcral para o regular funcionamento da sociedade portuguesa ou de qualquer outra. Deve ser discutida sim, mas tendo em conta que há muitas outras coisas bem mais importantes e bem mais urgentes.
Mas já que a discussão passou para o nosso querido plenário, não posso deixar de notar um ou outro aspecto muito típico do muito nosso seguidismo partidário - os quais parecem, não sei porquê, colarem-se irremediavelmente à imagem do nosso também querido Partido Socialista. O mui volátil PS mostra nesta votação quem verdadeiramente é. Ou não é. Ou diz que é mas afinal só é em parte. Ou afinal parece que alguns são e outros são mais ou menos e afinal só uma pequena parte é que não é. Ou afinal de contas são todos e não querem dizê-lo com excepção de um ou outro. Ou então não é nada disto e são realmente todos a favor só que não querem votar agora mas talvez votem depois. Ou...ou...ou...
Calma.
Já nem sei o que estou a dizer. Respiro fundo e concluo perplexo que é o Partido Socialista que me põe assim. Para o Partido Socialista, deve ser absolutamente normal contrariar a própria consciência e votar contra algo que se defende. Sim porque era o que mais faltava os inchados e empoleirados falcões do PS votarem uma questão fracturante em período pré-pré eleitoral sob risco de perder uns quantos votozinhos! Nem pensar. Antes contrariar os próprios valores do partido e dos ideiais de esquerda que tanto apregoam. Pior: antes desdizerem-se perante a câmara que representa o povo português. Gosto muito deste país, mas pena tenho que este povinho continue insistentemente a votar no partido da rosa (ou do risível punho fechado). Infelizmente, vezes demais penso que temos o que merecemos.
E à segunda foi de vez. Barack Obama foi um claríssimo vencedor do debate que na madrugada de hoje opôs os candidatos democrata e republicano à chefia do (por enquanto) estado mais poderoso do mundo. O senador do Illianois partia para Nashville com uma pequena vantagem nas sondagens, vantagem todavia magra e possivelmente até enganadora, dado que muitos dos que responderam que preferiam Obama não confirmaram que votariam de facto. Já McCain via-se obrigado a correr atrás do prejuízo, mesmo após a boa performance tida no primeiro embate. Este segundo debate afigurava-se, portanto, fulcral para as aspirações do republicano. Nenhum dos dois se podia dar ao luxo de cometer qualquer gafe, nefastas numa altura em que campanha entra na sua fase decisiva. O formato deste debate não favoreceu McCain. Ambos os candidatos passaram a maior parte do tempo de pé a responder a perguntas da plateia, e a perguntas colocadas pelo moderador, dentre as cerca de seis milhões que haviam sido enviadas via Internet. McCain fez contrastar o peso da sua idade com a jovialidade do seu adversário, pelo modo como andava com dificuldade no círculo preparado para o efeito. Por outro lado, McCain esteve quase sempre na sombra de Obama na questão económica (onde nenhum dos dois é especialista), e mais ainda na discussão sobre política externa. Num debate em que ambos procuraram reforçar as ideias transmitidas no primeiro debate, Obama soube contornar os ataques de McCain, os quais muitas vezes saíram de tom. Obama conseguiu também sacudir um argumento que McCain usou com frequência, relacionado com o facto de ter mais currículo do que ele. Disse várias vezes McCain: “Look at my record and look at his”. Na questão económica, questão central no debate em virtude do recente abalo nos mercados financeiros internacionais, a confrontação verbal surgiu um pouco oca de conteúdos, mas teve algumas tiradas interessantes: McCain acusou Obama de ter responsabilidades na falência do Fannie Mae por via da sua acção no Congresso, ao passo que Obama acusou McCain de ir contra vários projectos lei que visavam o investimento em energias limpas, factor que o democrata considera essencial para uma recuperação económica dos EUA. Por outro lado, Obama insistiu e bem na importância de apurar responsabilidades ao mais alto nível por tudo o que tem acontecido nos mercados. McCain reforçava a ideia de credibilidade e de solidez que o próximo Presidente devia ter para enfrentar uma crise sem precedentes. Em suma, discursos vazios, mas dos quais se conclui que Obama esteve acima do seu rival, tanto pela fluidez do discurso como pela maneira como soube colar McCain a uma imagem de imobilismo e de passado. E esteve particularmente bem ao insistir regularmente que todos devem partilhar o fardo (”share the burden”), e não apenas alguns – algo que McCain não fez. Em termos de prioridades, Obama soube também ser mais assertivo e convincente do que o republicano. Colocou, por esta ordem – e sem contornar a pergunta como fez McCain – a energia, o sistema de saúde e a educação como prioridades para o seu mandato. Defendeu a produção de energias limpas em solo americano, para evitar a sua compra ao estrangeiro; e prometeu fazer girar toda a economia à volta das novas energias limpas. Defendeu a redução de impostos para 95% dos americanos, e um favorável sistema de crédito para que as PME’s possam adquirir seguros de saúde para todos os seus funcionários. McCain foi forçado a ir atrás de Obama neste assunto e não esteve nunca à altura das propostas do democrata. Obama desacreditou McCain na questão dos seguros de saúde, argumentando que a procura de seguros de saúde fora do estado de residência promoveria a desregulação total do sector. No concernente à política externa e de segurança, não houve grandes avanços nem grandes novidades; apenas o reforço daquilo que ambos haviam defendido no Mississípi. Para McCain a prioridade é o Iraque, para Obama é o Afeganistão. Mas o democrata esteve em grande quando afirmou claramente que os 10 biliões de dólares que os EUA gastam todos os meses no Iraque é dinheiro que o país precisa dentro de portas para pôr as pessoas a trabalhar. E foi capaz também de virar a acusação de McCain sobre o facto de ser mais experiente e mais talhado para a política externa, perguntando como é que alguém tão capaz falhou rotundamente ao apoiar a invasão do Iraque. De resto, não houve grandes novidades, dado que nenhum dos dois tem diferenças de fundo quanto a questões como a Rússia, Irão, ou quanto a intervir em casos de genocídio – em que ambos dão preferência à opção multilateral). No final, vitória consensual para Obama, muito melhor do que no primeiro debate – contra um McCain que não fez jus à fama de dureza pela qual é conhecido, sendo excessivamente moderado, que foi algo que o descaracterizou aos olhos de quem o conhece e que estava à espera de ver o «verdadeiro» McCain. Será que senador do Arizona vai a tempo de emendar a mão? Não será nada fácil, tendo em conta que este debate consolidou Obama bem à sua frente. Seria preciso uma grande (ou várias) escorregadelas do seu rival para aumentar as suas hipóteses de eleição a um nível mais aceitável. Mas não é menos verdade que por esta altura, e depois de uma desastrosa governação republicana, qualquer candidato democrata já devia levar muita mais vantagem face a qualquer republicano, algo que não acontece. E este é dos poucos pontos que McCain pode ainda explorar. Seja como for, Barack Obama está mais perto da Casa Branca. Dia 15 há mais, em Nova Iorque.
A Premiere voltou. Mal conseguia acreditar quando soube do regresso da única publicação dedicada exclusivamente ao cinema que este país já teve. Na capa vem BradPitt, uma escolha simbólica que faz recordar o "primeiro" nº1. Os meus sinceros parabéns à persistência do José Vieira Mendes, novamente editor-chefe da revista, e à jovem editora que teve a coragem de ressuscitar este valioso projecto. É como ver um morto regressar à vida e ser apanhado pelo choque. Foi um interregno de um ano desde a "descontinuação" da revista em Outubro do ano passado, uma triste decisão por parte da editora francesa Hachette. Uma decisão motivada por irritantes lógicas de mercado, mas provavelmente com uma boa dose de casmurrice à mistura.
Na altura, não consegui disfarçar a minha desilusão, certamente compartilhada por muitos e muitos amantes de cinema por este país fora. Desde aí o mercado de imprensa nacional ficou visivelmente desmembrado de uma publicação que como tantas outras se dedicam a nichos, mas cuja importância não deve ser descurada, em nome de uma salutar divulgação de conteúdos culturais diversificados. É bom que revistas como a Premiere saiam todos os meses para as bancas, já que constituem um contributo essencial para um melhor acesso às mais variadas formas de arte, permitindo consolidar um público já fiel e juntar-lhe ainda gente nova com curiosidade e vontade de saber mais sobre manifestações artísticas tão enriquecedoras como a sétima arte. Para ver se este país fica um pouco menos pimba e saloio.
Valkyrie é um filme a aguardar com expectativa. Tom Cruise na pele do Coronel ClausvonStauffenberg, um oficial alemão de alta patente que tentou assassinar Hitler a 20 de Julho de 1944. O golpe tinha tudo para dar certo: por via do cargo que ocupava no exército de reserva, Stauffenberg tinha acesso à presença do Führer e os oficiais, estranhamente, não eram revistados. Stauffenberg sentia-se movido pelo amor à pátria. Mesmo que por um caminho moralmente errado, a Alemanha devia livrar-se do seu maníaco Chanceler e chefe supremo, o qual inevitavelmente levaria Alemanha ao abismo e, estava mais do que provado, à derrota final. Por várias vezes Hitler havia sido alvo de tentativas de assassinato, mas nunca nenhuma delas ficou tão perto de se consumar. O acto co-planeado e pessoalmente executado por Stauffenberg consubstanciava as inquietações e a racionalidade de uma larga franja das elites política e militar da Alemanha, que via um monstro guiar uma nação e um povo inteiros para um desastre sem precedentes. O acto deste coronel foi um acto heróico, vindo de alguém com uma educação católica romana, com gosto pelas artes, pela filosofia, e de raízes aristocráticas. Stauffenberg, à semelhança de muitos outros silenciosos oficiais alemães, sentira-se atraído pelo nazismo numa primeira fase, mas não pactuava com as incontáveis atrocidades cometidas em nome da superioridade da raça ariana, nem com as decisões militares estrategicamente erradas que vinham sendo tomadas nas várias frentes de batalha. A ideia era pois fazer a paz separada com os Aliados, evitando males maiores e muitas mortes em vão para um país já desgastado para além do limite. Por má colocação da mala ou pela via da resistência da mesa, o que é certo é que o golpe falhou. Mas o mito de Stauffenberg permanece vivo, bem como o fascinante significado do episódio da História que proporcionou. A não resignação aos poderes instalados e o dever de colocar os interesses do país e do povo acima dos interesses particulares, especialmente quando os destinos destes estão incondicionalmente entregues nas mãos de um louco. O episódio de 20 de Julho de 1944 faz repensar o movimento nazi e alimentar alguma especulação sobre os moldes em que penetrou nas mentes dos alemães, e a verdadeira extensão da sua aceitação dentro dos meios mais letrados da sociedade alemã, porventura não tão profunda como já se supôs. Repleto de “suspense” e drama, Valkyrie tem estreia prevista para 26 de Dezembro.
Aqui fica a muito interessente capa da Total Film de Outubro, que faz precisamente jus à figura de Tom Cruise em Valkyrie.
Os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos protagonizaram ontem no estado do Mississípi o primeiro de três debates, através dos quais se propõem convencer o eleitorado de que são o melhor homem para liderar os destinos da superpotência nos próximos quatro anos. Considerados dos momentos mais cruciais da campanha presidencial, os debates a dois são televisionados por milhões não só na América, mas por todo o mundo. É um acontecimento político de alcance global, visto, revisto e analisado ao pormenor por especialistas e politólogos dos quatro cantos do globo.
No frente-a-frente de ontem, os dois candidatos assumiram posturas distintas. Cada um por si procurou distanciar-se do estilo do outro, fazendo por fazer salientar o melhor possível as suas idiossincrasias e os seus trejeitos pessoais. McCain optou nitidamente por apelar à razão e ao coração do americano comum, do homem simples do meio rural e do tecido urbano médio, dando especial ênfase à sua vasta experiência política e militar. Obama decidiu-se por uma comunicação mais eloquente, mais enérgica que McCain, fazendo por trazer ao de cima questões que são caras ao partido Democrata, como o sistema de saúde e a energia. Em termos de estratégia comunicativa, creio que McCain levou a melhor. Soube espicaçar Obama quando necessário, soube manter a regularidade no tom de voz e apostou numa postura sólida e quase imóvel frente às câmaras, numa clara intenção de transmitir uma imagem de dureza e de sabedoria. E nunca olhou directamente para Obama nem quando falava nem quando escutava, como que tentando diminuir ao máximo as mensagens do seu oponente. Ao contrário de Obama, que fez contrastar com McCain um discurso menos fluído, mais intermitente; ao mesmo tempo que cometeu, quanto a mim, o crasso erro de dizer com mais regularidade do que o desejável “you are (absolutely) right John, but…” no início de várias frases. Obama não precisava de admitir, mesmo que por um breve instante, que McCain estava certo. Poderia simplesmente refutá-lo, como fez aliás o seu adversário. Obama conseguiu, ainda assim, recuperar alguma da fluidez no discurso à medida que o debate avançava, melhorando em relação ao que mostrou na parte inicial.
No capítulo das ideias, o debate dos candidatos à Casa Branca girou em torno de três grandes temas: impostos, política externa e segurança interna – estas duas de resto bastante interligadas. Ambos os candidatos centraram-se mais em desdizer o outro do que em apresentar propostas concretas, havendo ainda assim lugar a algumas questões fracturantes no que toca a assuntos muito concretos e que requerem solução urgente, sendo o caso mais paradigmático o Iraque.
Começando pela economia, ambos realçaram a necessidade de controlar com mais rigor a despesa pública e ambos prometeram ser inflexíveis nesse aspecto – isto sob uma chuva de acusações mútuas sobre quem no passado mais projectos gastadores aprovou. Até aqui nada de mais. A grande diferença surgiu quando Obama acusa McCain de querer cortar nos impostos às maiores empresas, ao passo que anuncia a intenção de cortar nos impostos de 95% das famílias. McCain, por seu lado, prefere cortar nos impostos das empresas para que haja a possibilidade de atrair mais investimento e, logo, criar mais emprego. Defende a necessidade de investimento em defesa para bem da segurança interna.
No que à dependência energética diz respeito, e ao contrário de Obama, McCain é peremptório ao defender a construção de novas centrais nucleares. Obama discorda lembrando que o mercado não resolve tudo por si mesmo, requerendo amiúde intervenção estatal. Estabelecendo prioridades, faz seguidamente a apologia das energias renováveis, da educação e da necessidade de mais obras públicas – assuntos, diga-se, apenas por ele referenciados.
Em matéria de política externa, McCain procurou estrategicamente assinalar a inexperiência de Obama e desacreditar as ideias deste. Obama, nesta fase já mais confiante e recomposto das hesitações iniciais, tentou colar a imagem de McCain à de Bush, dizendo-o mais do mesmo. Iraque, Afeganistão, Irão e Rússia dominaram as atenções em termos de política externa, sendo que nos dois primeiros McCain e Obama têm pontos de vista diferentes. Enquanto que o republicano defende a manutenção das duas frentes de batalha, o democrata defende – por motivos orçamentais e estratégicos – a retirada gradual e concertada das tropas do Iraque em 16 meses, e o reforço do contingente militar no Afeganistão, país que considera a principal ameaça aos Estados Unidos, fruto da forte presença da Al-Qaeda. McCain refuta esta ideia, argumentando que o Iraque é o principal desafio a enfrentar e que uma vitória final é possível. Diz o republicano que sem presença no Iraque, a actividade terrorista no Afeganistão aumentaria para níveis incontroláveis, sendo que tal significaria nada menos que a derrocada do esforço de guerra americano dispendido até aí. Faz referência aos soldados e às suas experiências pessoais nesses territórios, algo que, segundo ele, Obama nunca fez.
Quando inquiridos sobre a maneira de lidar com as intenções nucleares do Irão, McCain passa ao ataque afirmando que Obama era capaz de se sentar à mesa com gente como Ahmadinejad sem pré-condições, e tais práticas são ingénuas e perigosas. Recorre para tal a um perceptível humor irónico. Obama não aceita a acusação e refere que é preciso falar com todos, se tal significar mais segurança para os Estados Unidos, insistindo na diferença entre pré-condições e cooperação.
No caso da Rússia, a posição dos candidatos foi mais aproximada, defendendo ambos uma abordagem dura para com acções agressivas deste país, e colocando-se ao lado de países como a Geórgia e a Ucrânia, abrindo-lhes caminho para a inclusão na NATO. McCain esteve especialmente bem ao dizer que via a Rússia como um governo de ex-KGB’s.
Nas alegações finais, Obama dá mostras de pretender restaurar a confiança, entretanto perdida, do resto do mundo na América e nos seus valores, e de apostar em abordagens multilaterais como formas privilegiadas de resolver os problemas. Já McCain é mais pessoal e intimista, dirigindo-se uma vez mais ao homem comum e aos seus anseios e necessidades, tentando soar mais protector e paternalista que Obama.
No rescaldo deste confronto, creio que McCain conseguiu ganhar algo mais que Obama. Mesmo num debate pobre e pouco aguerrido, McCain soube gerir melhor o seu discurso e penso que o tom usado tenha soado bem aos ouvidos de muitos americanos indecisos. Obama triunfa sempre que chama Bush ao barulho, e tem de potenciar mais as ideias que verdadeiramente o distinguem de McCain: a saúde, as energias renováveis e a política social. Os próximos debates, em Nashville e Nova Iorque, terão forçosamente de ser mais assertivos quanto a alguns aspectos ainda pouco esclarecedores no programa de ambos os candidatos.
Por agora, as atenções viram-se para o debate de «vices», entre Joe Biden e Sarah Palin, no próximo dia 2 de Outubro.
Gosto de livros pronto. Pode parecer exagero tanto calhamaço que tenho mas a verdade é que não me incomoda nada ter tantos livros, muitos deles não lidos (e outros tantos que não faço para já a menor intenção de ler). Um livro é um amigo. E eu estou orgulhosamente rodeado deles. E se pudesse estaria rodeado por muitos mais. Uns em Portugal outros nos Estados Unidos, outros ainda na Rússia; uns em Guimarães outros em Braga, Porto ou Lisboa; uns pela net outros em pessoa; uns em livrarias a cheirar a novo e outros a tresandar a velhice; todos eles fazem parte da minha enternecida colecção. Agora das duas uma: ou o meu filho me vai achar um génio ou vou ser motivo de chacota para toda a turma dele. Mas enfim, há coisas que nos colocam um estúpido sorriso na cara e esta coisa de ter livros certamente é uma delas.
Mais um capítulo da saga 007 anunciado. Tal como outras publicações do género, a Empire de Outubro antecipa-se e faz o retrato do “novo Bond”. Com estreia em solo luso marcada para 6 de Novembro próximo, Daniel Craig volta a encarnar o espião mais famoso do mundo em Quantum of Solace, tida já como a aventura mais sangrenta de sempre. E já agora a mais cara: 200 milhões de dólares batem todos os recordes em orçamentos atribuídos a um filme de James Bond.
Mas Bond bem o merece. Expectativas altas rodeiam pois o filme a cargo de Marc Forster, que já assinou, entre outros, Monster’s Ball e Finding Neverland. Não são exactamente filmes de acção explosiva, mas Forster parece ser o tipo realizador capaz de dar o necessário toque de classe a um filme de 007. Forster, que inicialmente declinara o convite, acabou por aceitar após conhecer Craig e após ter tomado em consideração o conselho intemporal de Orson Wells, segundo o qual o seu maior arrependimento foi nunca ter realizado um filme comercial. Forster substitui então Martin Campbell, um dos grandes responsáveis pela profunda transformação de James Bond como personagem fílmica. A Bond foi-lhe retirando o aspecto artificialmente requintado dos últimos filmes, ao passo que foi conferida à personagem uma aura declaradamente austera, mais dura e cruel, e claro de maior realismo e aproximação à ideia de Fleming. Quantum of Solace terá de confirmar Daniel Craig no papel de Bond, e dissipar de vez toda e qualquer interrogação que ainda recaia sobre a pertença da personagem a este actor britânico (pois claro). Quantum of Solace será uma continuação da história de Casino Royale, contando para tal com a mesma equipa de argumentistas, dentre os quais se destaca o nome de Paul Haggis. Garantia pois de uma fidelização ao conceito que até agora deu resultado, tendo em conta as altas taxas de aprovação – totalmente justificadas – ao trabalho de Craig.
Na sua nova aventura, Bond procurará vingança pela morte de Vesper Lynd, e irá tomar contacto com uma organização criminosa bem mais complexa e tentacular do que o previsto. Bond tentará destruir os planos de Dominc Greene, um dos vilões da história. Greene planeia colocar o exilado general Medrano no poder de um país da América Latina para obter um pedaço de terra por forma a desenvolver as suas actividades ilícitas. Greene é um poderoso inimigo de Bond, possuindo contactos na CIA e no próprio governo britânico. Olga Kurylenko fará o papel de Camile, uma mulher que transborda sensualidade, e que um mal-entendido colocará no caminho de Bond. Mais um motivo para esperar o melhor de Quantum of Solace. Um desafio bem à maneira de Bond, num filme que promete.
A posição russa sobre o conflito no Cáucaso parece, á primeira vista, bastante plausível. Num dos últimos números da Newsweek (acima disponibilizado), as acusações feitas a Mikheil Saakashvili por Sergey Lavrov de ofensas á população civil e á segurança das tropas de manutenção de paz russas lá estacionadas desde os acordos de 1992, são para ter em conta. Se verdadeiras – e em parte crê-se que sejam – as acusações do actual chefe da diplomacia russa constituem um claro ponto a favor do Kremlin, que por estes dias tem sido alvo da desconfiança e até de alguma hostilidade por parte da Europa e dos Estados Unidos.
Em contextos de conflito armado não há inocentes, mas pode haver uns menos inocentes do que outros. Desde há algum tempo que os sinais para uma guerra no Cáucaso se tinham vindo a avolumar. Desde expulsões de embaixadores até incursões provocativas em espaço aéreo do outro, passando por trocas de palavras nada condicentes com a postura diplomática que um chefe de Estado deve assumir, até embargos comerciais – um pouco de tudo aconteceu nas frágeis relações entre a Geórgia e o seu poderoso vizinho setentrional. Incentivado por Washington, que via em Saakashvili um actor político da maior relevância para a sua influência na região e o seu país como Estado-tampão ao poder russo, a Geórgia deu um passo em falso, e não mediu a proporção da resposta russa. Moscovo, por sua vez, não enjeitou uma oportunidade de ouro para fazer valer a sua renovada estratégia na cena internacional. O que não invalida que a Rússia tenha aproveitado a ocasião para reduzir a capacidade militar da Geórgia ao mínimo, amputando-a da possibilidade de projectar livremente o poder dentro das suas próprias fronteiras.
Para tal, a intervenção russa não pode nunca ter sido proporcional á ameaça georgiana (tal como defende Lavrov), sendo que no decurso da guerra excedeu largamente o estritamente necessário. Em política, ou em diplomacia, tal facto pouco conta na prática. Era assim dantes, é assim hoje. A justificação russa, consistentemente formulada, não oferece grande espaço de contra-argumentação à Europa ocidental, e muito menos aos Estados Unidos, sempre prontos a defender “o seu povo” por todos os meios necessários. A oratória russa respeitante à guerra na Geórgia praticamente não difere da utilizada pelos Estados Unidos nestas ocasiões. Demarcando-se da União Soviética, a Rússia amadureceu diplomaticamente. Parece saber lidar com o mundo ocidental, conseguindo tocar nas suas fragilidades, imitando os seus métodos em matéria de política externa, suscitando assim focos de aprovação em vários pontos do globo. Já não serve de muito comunicar com o Kremlin usando argumentação de pendor moralizante; o diálogo deve ser levado a cabo em plano de igualdade. Só dessa forma é possível garantir o respeito da Rússia, garantir desta mais cedências, bem como uma política menos ofensiva. Respeito internacional e reconhecimento como actor activo no plano externo é, garantidamente, tudo o que a Rússia pretende. Veremos que tipo de resposta dará o Ocidente a estas pretensões.
Atendendo à natureza do cinema de Wong-Kar-wai, não é de estranhar o carácter eminentemente experimental de My Blueberry Nights. O cineasta oriental, amplamente reconhecido pelo enorme contributo prestado ao cinema de Hong Kong, lança-se na aventura de filmar o seu primeiro trabalho em língua inglesa. Não sendo um passo em falso (não o foi), também não foi um passo totalmente acertado. É como se o realizador chinês cedesse parte da essência do seu cinema, fragmentando à partida o filme e transformando-o num objecto saboroso mas com pouca profundidade.
Os elementos básicos da sua arte – personagens psicologicamente em mutação, confusas perante a vida (perante o amor sobretudo) e perante o que as rodeia; histórias com desenvolvimentos inexplicados; e, mais notoriamente, fortes efeitos visuais – estão lá todos. Mas parecem pouco relacionados, pouco concertados, como se não houvesse uma perfeita sintonia com o contexto geográfico, ou com o elenco propriamente dito. Basta dizer que My Blueberry Nights se apoia muito na beleza pouco comum da sua banda sonora, inquestionavelmente um dos grandes pilares que suportam a obra, fazendo até esquecer algumas das fragilidades da película. É um conjunto musical sólido e, mais importante que tudo, aplicado nos momentos certos, gerando uma grande cumplicidade entre a melodia e a cena em questão. A banda sonora é o tempero do filme; é aquilo que lhe confere um gosto especial, capaz de gerar no espectador um certo deleite em várias das suas passagens. Norah Jones não foi de encontro às expectativas em torno da sua estreia no grande ecrã, mostrando uma postura distanciada dos pergaminhos em que supostamente o filme assenta. É uma interpretação sem sal, num filme dominado pela doçura. O mesmo não se pode dizer – pelo menos não tão linearmente – das restantes personagens: David Strathairn, Rachel Weisz e Jude Law são traves mestras, algo acima de Natalie Portman, que em certa medida apanha por tabela da falência de Jones.
Wong Kar-wai parece outro realizador a imitar Wong Kar-wai. Não obstante alguns momentos visualmente belos e deleitosos, surpreendentes até, o filme não é um todo uno, e não se compreende a curvatura da sua história. O que não convém, pois após uma fatia de tarte de mirtilo, muitas curvas podem enjoar.
Nem de propósito. Sem notar que o suplemento “Actual” do Expresso desta semana tinha Marx como tema de capa, postei no passado Domingo sobre a teoria geral do marxismo patente no Manifesto Comunista, sem todavia me aperceber que a obra faz este ano nada menos que 160 anos. As directrizes que conferiram a força motriz ao projecto comunista global encontram-se explanadas neste curto manifesto político, um texto que a todos os níveis se mostrou influente no modo como os partidos e organizações comunistas alicerçaram as suas acções durante a segunda metade do séc. XIX e no séc. XX. O rotundo falhanço da prática comunista - em abono da verdade da marxista-leninista - não esmoreceu a discussão sobre a validez do pensamento de Marx e Engels na era das democracias liberais e da globalização. Interessará pois menos tentar encontrar culpados para o desabamento do ideário marxista sobre si mesmo, do que tentar enquadrar Marx no espaço político-económico da realidade contemporânea. Aquilo que mais me chamou a atenção neste artigo da “Actual” foi precisamente o sublinhar da importância da “ideia crítica” do marxismo por parte do filósofo argelino Jacques Derrida, uma das suas dimensões actualmente mais valiosas: Derrida designava assim uma actualidade de Marx, para além dos apelos ideológicos e ao «retorno de Marx»: invocando a «revolta», mas sem necessidade de uma organização do proletariado, ou de uma classe, nem muito menos de um partido; apelando à força crítica e analítica de Marx tanto no plano da acção política como na interrogação dos fantasmas, das mercadorias, da tecnologia, do trabalho imaterial, da globalização em curso e do aparelho mediático. E nomeava «dez pragas» da nova ordem mundial para propor uma «nova internacional» capaz de renovar e radicalizar a crítica ao estado do direito internacional. Uma aliança sem instituição, proposta por alguém que nunca acreditou no papel messiânico da união dos proletários de todos os países, nem na ditadura do proletariado – eis o que Derrida apresenta como resposta aos desafios da herança de Marx e como de fidelidade de um dos seus «espíritos». Ao mesmo tempo, Derrida denunciava a atitude que consiste em jogar Marx contra o marxismo e neutralizá-lo politicamente. «Marx-renaissance» é simplesmente isto: não negar a abordagem crítica de Marx, mesmo – talvez sobretudo – no mundo actual, cravejado por processos capitalistas megalómanos, muitas sob uma capa falsa de justiça social. Sem ser marxista, e negando o seu insucesso empírico, é preciso contudo aproveitar a sua dimensão provocatória, a sua forma de questionar as relações sociais, e em especial (porque não dizê-lo), as relações entre capital e assalariado. Aproveitar a dimensão humana do marxismo, para amenizar algumas das consequências nefastas motivadas pela troca incomensurável de capitais, é uma necessidade dos nossos dias.