quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pessoa Malcriado.


(...)
Está claro
Que isso tudo
É desse pulha austero e raro
Que, em virtude de muito estudo,
E de outras feias coisas mais
É hoje presidente do conselho,
Chefe de internormas animais,
E astro de um estado novo muito velho.

Que quadra
Isso com qualquer espécie de graça?
Nada.
A Igreja Católica ladra
E a Maçonaria passa.

E eles todos a passar
Na vitória que os uniu
Neste nada que se viu,
Dizem, lá se conseguiu,
Para onde agora avançar?
Olhem, vão pró Salazar
Que é a puta que os pariu.

Em 1935, já com Salazar plenamente instalado em São Bento, havia um certo poeta bem conhecido de todos que vociferava contra o ditador beirão. Trata-se do caríssimo Pessoa, que nesses idos de 35 não parou de o achincalhar. O poeta até começou por receber bem o golpe do 28 de Maio, para não muito tempo depois se desgostar com o caminho seguido pelo regime, em especial pela escolha da figura do discreto professor para chefiar o governo.
Afinal, também os poetas se têm direito a chatear.

sábado, 24 de janeiro de 2009

The Strange Case of Dr. Jekyll & Mr. Hyde.


He put the glass to his lips and drank at one gulp. A cry followed; he reeled, staggered, clutched at the table and held on, staring with injected eyes, gasping with open mouth; and as I looked there came, I thought, a change - he seemed to swell - his face became suddenly black and the features seemed to melt and alter--and the next moment, I had sprung to my feet and leaped back against the wall, my arms raised to shield me from that prodigy, my mind submerged in terror.
"O God!" I screamed, and "O God!" again and again; for there before my eyes - pale and shaken, and half fainting, and groping before him with his hands, like a man restored from death - there stood Henry Jekyll!

A vontade que tenho em ler e saborear contos sobejamente conhecidos da literatura universal é pouco menos que uma constante, mau grado a habitual falta de tempo e cabeça infelizmente comuns à maioria das pessoas activas. Mas o forcing foi feito e consegui por fim pôr cobro à minha curiosidade em mergulhar no conto de Robert Louis Stevenson, Dr. Jekyll & Mr. Hyde.
Curiosidade, diga-se, é a tónica do conto a cada página. Apesar do desfecho, por senso comum sabido de antemão, a verdade é que nem por isso o leitor deixa de ser surpreendido. Jekyll & Hyde junta ao ambiente noir da história uma tragigidade típica dos mistérios Vitorianos, uma espécie de golden era deste tipo de novelas.
Monstruosidades à parte, o livro é pródigo no foco em temas universais e marcadamente humanos. O humanismo do conto conflui na duplicidade do bom Jekyll, homem socialmente prezado e respeitado, mas cuja natureza não o deixa evitar o seu lado obcuro - algo impensável de assumir no seu meio. O conto patenteia a fragilidade do ser humano, a sua parmeabilidade ao mal e à supressão de vontades pautadas por necessidades emocionais latentes, transversais ao ser humano. Em suma, a supressão do biológico pela moral, contornada por uma inata dualidade.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Uma Imagem de Esperança.


Porque do sucesso deste homem depende muito do futuro deste mundo. Haja fé na mudança.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Estiveste Quase Lá, Fincher.


A história de um homem nascido “sob circunstâncias muito pouco usuais” é, por si só, um ponto de partida interessantíssimo. Acrescido do nome de David Fincher ainda o é mais, e se a dupla de protagonistas incluir dois gurus como Brad Pitt e Cate Blanchett a expectativa gerada torna-se compulsiva. The Curious Case of Banjamin Button entrecruza o curso normal do tempo com a vida em rewind de um ser que parece ter sido amaldiçoado desde o início. A viajem do bebé velho Benjamin por múltiplos espaços e vivências é suscitada por uma juventude psicologicamente confusa, por um enquadramento social nem sempre fácil para o próprio nem para os que amavelmente o aceitaram nas suas vidas, e pela consciência de uma finitude previamente conhecida.
Há, sem dúvida, mestria na obra de Fincher. Nota-se a ambição do projecto e é sobretudo notório um vívido e intenso desejo de quebrar barreiras. Mas The Curious Case… não convence totalmente. A linha temporal é salpicada por vários episódios de relevo, designadamente os vividos através da aventura marítima no ‘Chelsea’, rebocador onde Benjamin passa uma importante parte do seu tempo e talvez a maior testemunha do seu (de)crescimento. Aqui, ênfase para o adultério em Murmansk com Tida Swinton e para a relação muito peculiar com o seu capitão (diga-se, que grande referência a Forrest Gump trazida por Eric Roth).
Aliar um espantoso trabalho de caracterização que envolveu a mais alta tecnologia e muitas dezenas de profissionais a uma história sinuosa mas cativante é o maior triunfo de Fincher. No entanto, no melhor pano cai a nódoa, e a verdade é que nem a fantástica química entre Pitt e Blanchett apaga o arrastamento por vezes penoso da história durante uma boa parte da segunda parte do filme. A relação entre os dois é, em muitos momentos, ultra-explorada sem necessidade. A intenção de mostrar um amor intemporal, procurando alhear-se das vicissitudes de uma vida a andar para trás, foi conseguida, todavia exageradamente. Esticar a complexidade inata do conto de Fitzgerald por via da história de amor, faz o filme perder algum do fulgor inicial e retira-lhe o possível estatuto de obra-prima. E nestas, é sabido, nada mas rigorosamente nada pode soar a forçado.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Tombstone Blues.

Marcus Carl Franklin e Richie Heavens ou, se quisermos, o encontro entre o novo e o velho numa demonstração preciosa e genuína da música americana. Esta é uma das muitas performances de encher o olho (e os ouvidos) encontradas em I'm Not There, filme de Todd Haynes em torno das múltiplas facetas de Bob Dylan. Woody, Billy, Jude, Robbie ou simplesmente Dylan. Porque Dylan não é uno, é um desdobramento contínuo de vivências, formas de arte e sonoridades. Dylan é único, é inimitável. O som que segue é eterno.


domingo, 11 de janeiro de 2009

Um Regresso de Saudar.


Os tempos que se seguem serão pródigos em filmes com a II Guerra Mundial como pano de fundo. O ano de 2009 traz consigo películas como Defiance, The Reader, Good, The Boy in the the Striped Pajamas, Valkyrie e, lá mais para a frente, o muitíssimo aguardado Inglorious Basterds, a nova aventura de Tarantino. O interesse de Hollywood é assinalável, pois há já muito tempo que não se viam tantos filmes seguidos focalizados naquele acontecimento. O interesse fica provado pelo nível dos actores envolvidos: respectivamente, Daniel Craig, Kate Winslet, Viggo Mortensen, Vera Farmiga, Tom Cruise e...Brad Pitt. Tanto filme sobre uma temática sempre apaixonante como a II Guerra, com tantos e tão bons intervenientes, faz abrir o apetite para os tempos mais próximos. Não deixa de ser reconfortante que no meio de muito filme que apenas vive de efeitos especiais e de outros ornamentos sem significado, Hollywood é sensível à necessidade de mostrar outro tipo de histórias, voltadas para um classicismo moral que hoje em dia começa a fazer falta.


P.S.: Não que Tarantino seja propriamente um moralista...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Young Mr. Lincoln.


Em 1939, John Ford dava início à sua longa e frutífera colaboração com Henry Fonda através de uma história centrada nos tempos de juventude de Abraham Lincoln, então um jovem letrado que optara pela advocacia. O filme é uma peça valiosa do cinema americano clássico e da própria "americanidade" enquanto valor artístico. Além da magnifica presença de Fonda, Ford inaugura uma nova forma de filmar, colocando as personagens no centro de uma vasta área de terreno circundante, focalizando-se nos seus contrastes. Eisesntein disse um dia que este era o filme que gostaria de ter realizado.
Young Mr. Lincoln é cativante pela forma, mas especialmente pelo conteúdo. Trata-se de uma história de justiça, bela por si só, onde as palavras surgem só como complemento, pois é como se tudo já estivesse dito. A ascensão de Lincoln fora já o corolário daquilo que ele representava à época: uma garantia de sobriedade a nível dos valores, capaz de se fazer destacar como símbolo social numa América ainda à procura de si mesma e dos seus ideais. Para tal, Lincoln impõe ordem e justiça a um ambiente incendiado por um assassínio. No final, o jovem Lincoln foi capaz de devolver à liberdade um par de inocentes e desmascarar o culpado, chamando a si um papel denunciador da fragilidade da conduta e do temperamento humanos.
Lincoln, ao longo da sua carreira política, acabaria na Presidência, com resultados que se sabe; e Ford, ao longo da sua inigualável carreira de cineasta, acabaria com quatro Óscares de melhor realizador, e um de Melhor Filme.

Vitória Sport Clube.


Salvo circunstâncias excepcionais, não haverá neste espaço mais análises avulsas a jogos do Vitória SC. Doravante, e se assim se justificar, qualquer assunto relacionado com o melhor clube do mundo será incluído na etiqueta "Futebol". Esta alteração tem a ver com uma sugestão de um amigo que muito prezo, e que decidi aceitar. Este espaço tem outro tipo de prioridades, que não o futebol.
O amor ao emblema da terra, esse, é inquestionável e cada vez maior. Vitória até morrer.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Escárnio Educativo.


A Turma, de Laurent Cantet, é um filme atípico. Atípico porque baseado numa experiência de vida aparentemente próxima de cada um de nós, mas que é difícil engolir ao depararmo-nos com muitas das cenas aqui retratadas. E quando digo "cenas" não o faço referindo-me ao termo cinematográfico, mas a verdadeiros momentos de paródia pedagógica, uns "engolíveis", outros um pouco menos, e outros ainda incontornavelmente detestáveis.
Este não é, de modo nenhum, um filme fácil de ver. O espectador é atirado para o meio de uma combustão emocional chamada sala de aula, onde predomina a lei do mais forte. Esta é, aliás, a única lei que parece por vezes dar resultado. Embora diga-se que o elemento mais forte a que me refiro não é o professor. A partir daqui os dados estão lançados para um banquete de desordem selvática, que faz tremer até a mais empedernida das almas. É lançado um imodesto desafio ao sistema nervoso central do espectador, entre gritos, insultos, desobediências de vária ordem, expulsões e uma mochila na cara.
Amigavelmente falando, no fundo até estão ali bons miúdos coitados. Vai-se a ver e a culpa até nem é só deles. Mas tornam-se num obstáculo ruim de ultrapassar para todo o pobre docente que tenha a desmedida ambição de conservar uma quantidade suficiente de sanidade mental. Ser professor nos subúrbios de Paris não é, repito, não é, agradável para os "Bégaudeaus" dessa França (e desse Portugal) fora.
Contudo, para o bem e para o mal, é uma Palma de Ouro muito bem dada.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma Metáfora à Vida.


Esta é a insignificante história de um elefante. Insignificante não por menosprezo do seu autor nem da sua obra, longe de mim de tal blasfémia, mas porque lá bem no fundo insignificantes são todos os seres vivos à face desta bola simpaticamente chamada Terra. Talvez até ela própria, quem sabe, seja insignificante.
Virtuosismos à parte, o que é certo é que o pobre do paquiderme andou tanto sob tanta neve, tanto frio, tanta lama para chegar a um sítio que lhe era mais estranho do que Lisboa e acabar como acabou, o pobre do bicho. Não digo como para não atrapalhar as leituras de ninguém, mas bem não foi, apesar das mordomias que chegou a receber e dos olhares atónitos e espantados de que era alvo. Ele e também o seu cornaca, Subhro feito Fritz pela imperial sapiência - que isto de tomar conta de elefantes não é coisa que se veja muito na velha e civilizada Europa, agora imagine-se o século XVI, com muito mundo ainda por desbravar.
Não aconteceram muitas peripécias durante a viagem do elefante à corte austríaca, mas as que aconteceram provam muito daquilo que é a natureza humana, que alheia à sua insignificância, ora se faz de forte, ora se faz de parva, ora se faz de coisa nenhuma, tornando-se mais insignificante ainda. Ou grotesca, ou seja lá o que for.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Comfortably Numb (1979).

Ir ao fundo do baú recordar músicas intemporais é um exercício fascinante. Faço-o com regularidade, apercebendo-me do bem que faz ouvir canções de outras décadas repletas de significado. É o caso de Comfortably Numb dos Pink Floyd, datada de 1979, e incluída no celebradíssimo The Wall. É realmente complicado ficar indiferente aos solos de Gilmour e ao refrão em forma de hino que os acompanha. Uma boa canção é como o whisky: quanto mais velha melhor.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

2008 - Crónica de Um Ano Atípico.


Aceitando com prazer o repto lançado pelos blogues Abertamente Falando e Colina Sagrada, deixo aqui a minha análise do que mais importante se passou no ano que agora finda:

O ano de 2008 foi pródigo em acontecimentos. Pode mesmo ter sido um ano de viragem para algumas concepções até aqui dadas como suficientemente sólidas para não precisaram de ser alteradas pelos menos durante as próximas décadas. Caíram muitas máscaras por esse mundo fora, mas houve três que caíram e que considero fundamentais. Como ano de transição, creio ser impossível destacar os mais relevantes acontecimentos do ano sem fazer referências, ainda que superficiais, a outros. Por isso, para evitar desconsiderações e imprecisões desnecessárias, opto por uma análise mais global.
Em primeiro lugar, a crise económica, depois financeira, depois económica e financeira. Contra as previsões mais optimistas para o crescimento da economia, a verdade é que o carácter marcadamente global desta crise parece ter abalado as fundições do sistema vigente desde a II Guerra Mundial. Caiu a máscara à ordem económica do pós-guerra. Muitos advogam não a morte do capitalismo, mas uma mais do que urgente reformulação deste. A palavra mais ouvida, a que faz qualquer adepto do liberalismo económico coçar-se, foi a mais ouvida em 2008 – a par, claro está, de “estagnação”, “recessão” ou “crise”: regulação. Regular os mercados, as instituições financeiras de crédito; regular o mercado habitacional, regular as trocas de capitais, regular as práticas obscuras de muitos gestores; regular e tornar mais transparente e credível o sistema financeiro, incentivar à poupança; e, acima de tudo, punir os responsáveis por danos irrecuperáveis causados a quem confia o seu dinheiro aos bancos. Para os que auguravam a morte do estado enquanto poder regulador, esta crise veio trocar completamente as voltas. Ao estado foi-lhe implorada a sua intervenção sob a forma de muitos zeros – vejamos se agora esse mesmo estado está em condições de se fazer pagar com a imposição de mais e melhores regras e, mais visível aos olhos do cidadão, com justiça.
Aproveitando o embalo de ideias como “estado” e “regulação”, destaque e honra seja feita à eleição do 44º Presidente dos EUA. Barack Obama, após uma transição que se afigura impecável, vai assumir as rédeas do (ainda) estado mais poderoso do mundo. Os EUA deixaram cair uma máscara que escondia a sua genuína identidade como povo democrático e tolerante. Do país que fez catapultar a crise económica, resta saber se vem também o antídoto. Obama inspira confiança, teve um discurso atractivo e eloquente durante a campanha mas será o motor da mudança necessária? Se os EUA não se assumirem como líderes de uma mudança anunciada, a sua posição no mundo estará definitivamente ameaçada. Não parece restar outro caminho ao novo Presidente que não um novo rumo para o seu país. O dia 5 de Novembro último pode ter sido o princípio de uma bela história. Ou não.
Um destaque final para uma questão intrinsecamente política e estratégica, que foi alvo de abrupta actualização em Agosto passado. Durante as Olimpíadas de Pequim, os olhos do mundo desviaram-se inesperadamente das piscinas e das pistas para o Cáucaso, região onde a Rússia fez questão de mostrar quem manda. Tal resposta seria impensável ainda há poucos anos. Enriquecida pelos petrorublos e dona de si como há muito não se via, o gigante russo marcou território e dissipou muitas dúvidas sobre a natureza do seu poder actual – centralizado, ambicioso, nacionalista e, pior, imperialista. Também a Rússia deixou cair a sua máscara para se tornar num dos mais sérios testes à União Europeia e aos EUA, ou por outras palavras, à unidade da UE (através da mais que duvidosa PESC) e à capacidade de influência dos EUA, respectivamente.
Venha 2009.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Retratando um Monstro.

Hitler sempre foi um olhado como um demónio da Humanidade. Os factos falam por si e não deixam mentir: uma guerra mundial, a qual deixou atrás de si um rasto de destruição sem precedentes na história do mundo, reclamando as vidas de 50 milhões de pessoas entre civis e militares, onde se incluem 6 milhões de judeus nos lamentavelmente famosos campos de extermínio. Cidades arrasadas, património irremediavelmente perdido e uma nova ordem mundial foram as pricipais consequências do turbilhão que alterou (a mal) a face do mundo entre 1939 e 1945.
Sendo muito embora bastante incomum os politólogos e historiadores centrarem as suas análises no nível puramente individual dos fenómenos sociais, a verdade é que o papel e a força aglutinadora deste indivíduo como sujeito histórico é um papel que ultrapassa o acaso e a superficialidade. A dimensão bíblica dos seus crimes aliada às sensibilidades que várias décadas depois ainda consegue ferir vai lateralizando a análise deste indivíduo pela via artística, como é o caso do cinema. Der Untergang, ou A Queda em português, vem de encontro à norma e, mais do que isso, distorce-a por completo ao focar o alegado lado humano, ou se quisermos, humanizante, do ditador autro-germânico.
Posto isto, A Queda é, desde logo, um filme misterioso. Nunca vai revelar tudo, vai sempre deixar à consideração do espectador aspectos fulcrais da personalidade de Hitler, vai sempre deixar muita coisa implícita. Mas não deixa por isso de ser um exercício cinematográfico marcado por uma toada assumidamente ambiciosa e, claro está, absolutamente fascinante - facto a que não é alheio o carácter eminentemente revisionista da obra.
Abaixo segue aquela que para mim é, por excelência, a cena que cola o espectador à cadeira e faz estremecer todos os sentidos do seu corpo: o momento em que Hitler se consciencializa da inevitável derrota final do III Reich às mãos das forças soviéticas que já se movimentavam nos escombros de Berlim. Pelo corpo do actor Bruno Ganz faíscam os olhos de Hitler, que vocifera enraivecido contra os seus, num momento marcadamente dramático e infinitamente perturbador. Obrigatório.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A Evitável Queda do Tio Sam.


O mundo já não é unipolar. Uns dizem que ainda é e será. Outros que ainda é, mas não por muito tempo. Outros ainda afirmam categoricamente que nunca foi. E, dentro destes, alguns dizem que é unimultipolar, outros que é simplesmente multipolar. A confusão do leitor não será menor que a do escriba. Quando os académicos não acertam, o comum dos mortais não fará por certo muito melhor, se bem que nestas coisas o senso comum conta e não é pouco.
Para clarificar estas e outras dúvidas, Fareed Zakaria, homem reputado, doutor por Harvard e actual editor internacional da Newsweek, traz a público um livro bem oportuno. Bem escrito, dentro da simplicidade possível, sem floreados e repleto de exemplos ilustrativos, Zakaria traça o ponto da situação da conturbada distribuição de poder a nível mundial. O retrato, esse, é claro: os EUA, outrora intocáveis, estão a perder terreno face às potências emergentes do Oriente, não só económica mas sobretudo politicamente. China e Índia são por isso os mais vibrantes e elucidativos desafios estratégicos com que os EUA terão de lidar.
Contrariamente ao convencionado, os novos poderes, explica Zakaria, não representam ascensões políticas ou militares do tipo tradicional. São, isso sim, ascensões pautadas por uma diplomacia tranquila, nada quezilenta, preocupada com a vertente económica e em estender o seu braço comercial a toda a Ásia e depois ao resto do mundo. Se a China ou mesmo a Índia fossem uma ameaça do tipo da que representava a União Soviética, os EUA estariam preparados. No entanto, para este novo tipo de ascensão e de crescendo pacífico, os EUA não estão preparados e serão forçados a mudar radicalmente de estratégia.
Mas como? Nas suas palavras, já nem se pode falar em futuro: “o futuro já está aqui”. Os anos 90 habituaram mal os EUA, que se tornaram preguiçosos, arrogantes e presunçosos na arena internacional. A unipolaridade fez mal a um país, que na economia sempre se privilegiou e incentivou a concorrência, mas que em termos de política externa se habituou a agir sozinho, sem obstáculos ao seu poder. E isso complica a resposta que terá de dar.
De acordo com Zakaria, “Washington ainda não descobriu que o imperialismo diplomático é um luxo que já não pode sustentar”. Ainda assim, os EUA têm todas as condições para conservarem o seu poder dominante, embora já não hegemónico. Para tal, terão de fazer escolhas e não gastar recursos em zonas do mundo onde não tenham muitas hipóteses de levar a sua avante; deverão procurar ser o motor da criação de regras, práticas e valores para que o mundo se possa reger; devem manter melhores relações com as novas potências do que elas mantêm entre si; deverão fazer mais trocas e compromissos com outros países; devem pensar assimetricamente e não se deixar iludir por ameaças sobreavaliadas como o terrorismo islâmico; e devem, last but not least, actuar com mais legitimidade, a qual será necessariamente fonte de poder na nova era em que entramos.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Quase Grandes.


O terceiro registo destes senhores soa a hino. Ou a hinos se quisermos. Durante a audição é fácil imaginar um tremendo coro de milhares de vozes a entoar entusiasticamente estas melodias numa qualquer sala de concertos, ou em qualquer estádio por esse mundo fora. Day and Age é muito bom. Não sem antes torcer o sobrolho, deparamo-nos com uns Killers desviados do caminho palmilhado até agora. Não soa ao (excessivamente) criticado Sam's Town, muito menos a Hot Fuss. Day and Age é como a Coca-Cola: primeiro estranha-se depois entranha-se. E de que maneira.
No início, além do sobrolho, torce-se também o nariz. Depois já custa menos, mas continua a soar estranho...Volta-se à faixa 1 mais algumas vezes. Até que finalmente os ouvidos se começam a habituar e a engraçar com esta surpresa. Chega a parecer que podiam ter sido os U2 a fazer aquilo. E o veredicto tarda mas sai, como diz o outro, firme e hirto: Day and Age não é muito bom. É fantástico. Além de Human, o primeiro single, o álbum destaca-se por pérolas como Losing Touch ou I Can't Say. Não consigo decidir qual a melhor. Menção honrosa para Goodnight, Travel Well, um pouco mais sombria que as restantes, mas uma saída esplendorosa para o álbum.
Experimentais q.b., Brandon Flowers e os seus estão de parabéns. Deu a volta a muito boa gente, esta sapatada de luva branca chamada Day and Age. Podem não ter passado o teste do segundo álbum, mas passaram certamente o do terceiro. Depois disto, os Killers transformaram-se numa caixa de pandora: o que virá dali a seguir? Futuro risonho para estes senhores.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Considerações Sobre Maquiavel (II).


Para Maquiavel, o cerne da questão reside no facto de que ser-se “liberal” é sinónimo de magnificência excessiva; o que significa despesa excessiva e perfeitamente desnecessária. Ao actuar desta forma, acabarão depressa as capacidades financeiras do Príncipe, e começará rapidamente a sobrecarga fiscal sobre o povo – com o correspondente descontentamento e revolta contra o soberano. Não é vital para um Príncipe um gasto deste género. É possível, com muito menos gastos e com mais paciência, obter o apoio do povo sem o risco de o perder a curto prazo: o apoio dos súbditos resultará gradualmente, quando estes se derem conta de que o Príncipe é capaz de “empreender cometimentos” sem custos adicionais.
O Florentino oferece uma perspectiva económica do realismo político, mais concretamente, uma perspectiva de contenção de gastos. Uma estratégia de poupança valerá a fama de “somítico” ao Príncipe, uma fama que depressa se dissipará num momento de maior necessidade e aperto para o Estado. Em conformidade com o seu modo de pensar – não se pode hesitar em usar de quantos vícios quantos necessários – também aqui ser-se “somítico” é positivo e permite ao Príncipe não ser odiado e reinar em paz.
A liberalidade só pode ser admitida na acção política se para tal forem usados os bens dos outros, isto é, o resultado de pilhagens e saques de cidades conquistadas ou inimigas. A riqueza retirada destas investidas compensará portanto o referido vício de “somítico” do Príncipe, que, ao sê-lo, defende apenas o que é dele. O soberano não precisa de gastar o que é seu, visto que pode comprar o apoio dos seus soldados e súbditos com aquilo que é extorquido a outrem.
Maquiavel, como é sabido, considera a natureza humana negativa e, pior que tudo, imutável. O recurso a exemplos do passado constitui então prova fiel e sólida daquilo que pretende ilustrar. Se era verdade antes, também o é agora. Maquiavel prova assim o seu ponto de vista através dos exemplos de Júlio II e de Júlio César. É possível neste ponto definir um pouco mais da identidade ideal do Príncipe: um homem moldado pela “experiência histórica real”, que coloca os fins antes dos meios.
Maquiavel foi, conclui-se, pioneiro num modo muito específico de ver a realidade. De ver o “ser” em vez do “dever-ser”. Citando Viriato Soromenho Marques, o texto de Maquiavel “situa-se claramente na zona dos paradigmas clássicos da Realpolitik”, do qual o capítulo XVI constitui ilustrativo exemplo.

sábado, 29 de novembro de 2008

Considerações Sobre Maquiavel (I).


Considerada uma das obras mais influentes e importantes da história do pensamento político ocidental, O Príncipe de Nicolau Maquiavel marcou indelevelmente uma forma de pensar e de estar na política. Devido ao seu hiper realismo e à sua visão egocêntrica do mundo, é por muitos considerada uma obra imoral e desprovida de escrúpulos, designadamente quando se trata de lidar com os assuntos do estado. Não obstante, o pensamento do “Secretário Florentino” reveste-se de uma originalidade singular no campo da Ciência Política, especialmente no que respeita à introdução de novas metodologias de investigação e análise, e ao desenvolvimento de conceitos-chave para esta mesma ciência. Inclusivamente, nas palavras de Freitas do Amaral, e como “o segundo grande politólogo da história”, é responsável pela autonomização dos fenómenos políticos em relação aos restantes fenómenos sociais; bem como pela tentativa de formulação das “leis da política”. Consequentemente, é também um dos responsáveis directos pelo nascimento de uma nova ciência.
A natureza d’O Príncipe é ímpar e muito distinta da de outras obras de filosofia política. Em suma, o livro é um “guia prático” de como alcançar e manter o poder nos vários tipos de principados oportunamente diferenciados pelo Florentino. Nas reflexões sobre a função da liberalidade na acção principesca, Maquiavel foi mais longe que os outros, não só descrevendo a realidade das lutas viscerais pelo poder tal como elas são, mas também incitando à prática de actos vis, cobardes e maléficos caso sejam necessários para o referido alcance e manutenção do poder – aliás fim único e último de toda a acção política. Aqui reside a verdadeira essência do badalado “maquiavelismo”, uma crença absoluta na perfídia inata da natureza do homem, desembocada numa necessária secundarização do papel da moralidade na política, se o objectivo passa por consolidar um posto como governante.
Maquiavel reserva, portanto, um lugar limitado para a liberalidade. Para defesa do realismo político, desdobra-se em considerações e exemplos práticos: “[O Príncipe] encontrará algo que parecerá ser virtude, mas que, se lhe obedecer, será a sua ruína, e algo que lhe parecerá ser vício, mas que, se lhe obedecer, lhe dará segurança e estabilidade.” A liberalidade não passa, assim, de uma das virtudes que pode levar à ruína do Príncipe. O que é virtuoso na moralidade é, na maior parte das vezes, um vício na política.
E é esta irredutibilidade que para mim, sem ofensa, é por demais deliciosa em Maquiavel. É reprovável o uso de práticas liberais apenas por incluírem contornos eticamente aplaudíveis. Afinal de contas, toda a realpolitik veio beber a Maquiavel. O mundo de hoje não lhe dá razão, no entender de uns. Mas outros negam veementemente que a política sirva exclusivamente o bem comum. Para mim, a natureza humana não deixa o Homem ir mais longe. Muitos podem dizer: mas há excepções. Sim, excepções. Não me levem a mal, mas a política, no seu significado mais empírico, é maquiavélica.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Смерть Ивана Ильича.


Pode não haver romances perfeitos. É bem provável que não existam. A literatura, como toda a arte, é um mundo de possibilidades infinitas. Mas há histórias, que contadas por determinadas palavras, parecem conter dentro de si todo o universo humano. É o caso de um pequeno romance escrito por Tolstoi, de poucas delongas, pouco conhecido, mas não por isso menos belo, nem menos profundo.
A descrição da Morte, como se não fosse preciso mais. Tolstoi traça um retrato envenenado da superficialidade da sociedade da época, tão terrível quanto actual. É uma sociedade que aliena o indivíduo, que por medo aceita, segue e promove os seus padrões de comportamento, sem questionar. Tudo na vida de Ivan Ilitch foi feito para agradar à norma, à convenção: o casamento, a casa e a decoração desta, o trabalho como meio e depois como fuga, as festas. Quão nefastamente deixamos de ser nós se assim for. Quão deturpada é uma vida que não se vive, apenas se existe.
Ivan Ilitch, ontem como hoje, é um revoltado. Como é possível que numa vida aparentemente tão longa, tão trabalhosa, tão cheia de escolhas e de caminhos, apenas a infância valha a pena? No seu leito de Morte, horrenda e incontornável, Ilitch recorda o sabor das ameixas que comia. E de novo parava na infância, e de novo era doloroso…Lindo.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Genial Apocalipse.


Saramago, para além das divinas capacidades de redacção amplamente reconhecidas, é um inventor. Não daqueles que com bata branca estão enfiados em laboratórios a testar reagentes ou daqueles que procuram sulcar novos caminhos para a mecânica ou para a informática; mas daqueles raros seres que fazem rejubilar os seus humildes e embevecidos apreciadores face aos laivos de génio puro que resvalam das suas linhas. Saramago é um predestinado.
Ensaio Sobre a Cegueira, traduzido para o cinema como Blindness, é uma obra que chama a si um mundo apocalíptico saído da mestria de Saramago. Tornando o simples complicado, e o complicado simples, Saramago traça o caótico sucedâneo de acontecimentos despoletados por uma cegueira branca que inexplicavelmente se vai abatendo sobre a Humanidade. Numa cidade qualquer de um país qualquer, num ano qualquer, o terrível fenómeno alastra imparavelmente a todos quanto vêem, fazendo vir ao de cima o mais básico e incontornável da natureza humana. Deixa de haver fachadas sociais, deixa de haver segundas necessidades, deixa de haver ordem e hierarquia, deixa de haver vergonha; mas não deixa de haver sentimentos de pertença, nem deixa de haver entreajuda, nem deixa de haver amor – nem dignidade.
Roubar à Humanidade a faculdade de um dos seus sentidos conduz à destruição da sociedade sobre a qual construímos as nossas crenças e os nossos valores. Sob pano de fundo, está o desmoronar das instituições do Estado e de ordem pública, tornando a vida numa luta pela encarniçada e brutal pela sobrevivência, à espera de um futuro que faria à partida muito pouco sentido. É ler para crer. Saramago, com um premissa aparentemente simples, mergulha o mundo numa assustadora incerteza, que tem tanto de imaginária quanto de real: Até que ponto não andaremos todos cegos, mesmo vendo?

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Premiere - Página 56.


É bom ser-se citado na Premiere, mesmo que numas modestíssimas e quase insignificantes linhas:

Bond é sinónimo de estilo, de classe, é o supra-sumo da masculinidade. Ou de como ela deveria ser. Bond está rodeado de mística, é a sublimação perfeita do trato, da sofisticação, do peculiarmente belo e atraente. Bond personifica uma certa aura de mistério, onde a confiança é um mito e o dever uma obrigação. Não há dúvidas: Bond é inigualável. Seja Connery, Lazenby, Moore, Dalton, Brosnan ou Craig. [Outros virão, outros estão por certo à altura. Bond tem muitas caras mas é só um.]

Premiere - Novembro 2008