quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

The Road.


A obra literária vencedora do Prémio Pulitzer para ficção em 2007 é nada menos que assombrosa. Cormac McCarthy, autor tarimbado e cada vez mais admirado, rubrica um romance enigmático, mas com muitas pontas soltas onde nos agarrarmos e reflectirmos. The Road transporta o leitor para um mundo pós-apocalíptico onde quase toda a vida no planeta desapareceu.
The Road é um relato fascinante de uma missão hercúlea em que pai e filho tentam, por todos os meios possíveis e imaginários, chegar à costa por entre um continente americano desolado, onde abundam grupos canibais ("the bad guys"). É este o pano de fundo para uma saga de sacrifício, sofrimento em doses massivas e muito, muito amor paternal, em contraste absoluto com a paisagem e com a bíblica tarefa que pai e filho têm de superar.
Neste contraste reside a riqueza da história, e é aqui que McCarthy mostra o seu génio literário: apesar da devastação e da aniquilação da civilização tal como a conhecemos, há espaço para aquilo que de melhor tem a raça humana, o amor pelo próximo, o qual é capaz de superar tudo e de explicar o grande mistério da vida.
O filnal é surpreendente, digno dos grandes clássicos, e constitui a súmula de toda a mensagem de McCarthy, um dealbar de esperança num futuro novo. Após ter protagonizado a destrição do seu planeta, só é permitida à raça humana um "reset" pelo mais simples e ao mesmo tempo mais complexo dos sentimentos. Um livro poderoso, assente no imaginário assustador mas credível de McCarthy, arrepiantemente cru e cruel na forma, mas portador de um desesperado repto a que é impossível ficar indiferente.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Uma Casa Vitoriana Com Certeza.


Depois de assente a poeira motivada pela indecisão de Pimenta Machado em concorrer à presidência do VSC, e agora que já é possível falar em candidatos efectivos e não em pré ou pseudo-candidatos, entendo ser esta a altura correcta para discorrer algumas ideias sobre o acto eleitoral e sobre o futuro do Clube.
Em primeiro lugar, é para mim um alívio saber que Pimenta Machado não é candidato. O direito de concorrer assiste-lhe como qualquer outro sócio que tenha as cotas liquidadas, ainda que todas de uma vez. Mas Pimenta não seria uma candidato qualquer. Pimenta representa um passado que o VSC não deve, para seu bem, escamotear. Pimenta é o símbolo de uma época que já passou, uma época cinzenta e nebulosa, a todos os níveis questionável. O VSC, como instituição, foi nas últimas semanas prova indelével de que a democracia é um sistema maleável, prestável a aparentes ditaduras das maiorias, ainda que essas (mais que duvidosas) maiorias tivessem sido alvo preferencial de sebastianismos enganadores e de pútridas declarações pintadas em tons atractivos para que os de memória curta, os impiedosamente amorais e os mais facilmente impressionáveis pudessem exercer a sua liberdade de "deitar" Pimenta.
A democracia precisa deles para funcionar, ainda bem que existem, pois aqui está uma boa maneira de esta se reafirmar e consolidar consecutivamente, predispondo-se à discussão e a uma continuada revitalização. Mérito aos sócios do VSC. Neste aspecto, só posso agradecer a Pimenta Machado o facto de ter contribuído nestes dias para a destruição - em curso desde 2003 - do mito pimentista. Obrigado e não volte.
Sobram dois. Pinto Brasil, de fala alarve e empinada, e Emílio Macedo da Silva. Sobre a presidência deste último, ocorrem-me sempre que nela reflicto, as palavras de um general romano que em tempos idos declarou sobre os Viriatos, esse "povo que não governa nem se deixa governar". Palavras sábias, vindas de um observdor externo, imparcial e descomprometido. Também os há hoje, mas não somos nem podemos ser nós. Ninguém como nós se gosta de sentir agrilhoado, muito menos quando qualquer decisão ou gesto presidencial nos atinge como se roubassem o chupa-chupa a um filho nosso ou remexessem na nossa mais-que-tudo gaveta da mesinha de cabeceira.
Do ADN do Vitoriano faz parte um amor quase petrarquiano ao Clube, e não permitimos que ninguém lhe faça mal. Pimenta disse que o VSC era como um filho, esquecendo-se que falava do filho de todos nós. Só não lhe contamos histórias à noite nem lhe levamos o leite à cama antes de dormir porque as nossas mulheres, mães ou namoradas ficariam seriamente preocupadas com a nossa sanidade mental se nos vissem afagar com olhar choroso e embevecido o galhardete ou a camisola de treinos do nosso querido VSC.
Ora aquela que foi, é e continuará a ser a grande força e o grande património deste Clube é também um dos seus maiores focos de instabilidade. A frase pode parecer dura demais ou injusta, mas é verdadeira. Contra mim falo, já que faço o mesmo. Berro como todos berram, insultam como todos insultam, gesticulo; mas sei, bem lá no fundo, que é mais fácil as ilhas Vanuatu declararem já hoje guerra aos Estados Unidos do que contentar a 100% um Vitoriano.
Pois é tempo de calma. O VSC tem sido em todos estes anos um antro de sectarismo e de acirrados antagonismos, que só prejudicam o Clube. O VSC não é suficientemente grande para tanta crispação, tanta maledicência barata, tanta crítica destrutiva e tanta animosidade contra os presidentes ou contra grupos de sócios.
Tudo piora quando existe um factor de instabilidade, externo ao Clube, que nos faz remoer de raiva por dentro, chamado Sporting de Braga. Este tem sido outro grande problema do VSC, e que tem injustificadamente transbordado para a vida interna do Clube. O exemplo do SCB é frequentemente citado quando alguma coisa no VSC corre mal. Mas muitos Vitorianos esquecem-se que o Braga passou anos sucessivos sem alcançar qualquer tipo de sucesso. Há quantos anos é Salvador (sim, esse que nos admira) é presidente do Braga? Quantas desilusões tiveram os adeptos do Braga antes deste ano, o ano de todas as maravilhas? Quanta e que tipo de contestação interna tem Salvador? Tem alguém a minar-lhe o caminho, tem presidentes da Assembleia Geral a fazer líder da oposição? Tem ex-dirigentes ricos de berço e pobres de maneiras a achincalhar direcções ao desbarato? E já que se fala tanto em contas, qual o passivo do Braga? O Braga, clube de todas as ilusões, e incomensuravelmente mais pequeno do que o VSC, respira saúde financeira por todos os poros? No Braga houve paciência, houve um presidente que pegou no clube e que passo a passo o levou à época que hoje meritoriamente protagonizam. Muita coisa correu mal pelo meio. E no VSC? Se precalços da mesma dimensão acontecem, cai o Carmo e a Trindade. As direcções do VSC não podem ser culpabilizadas pelo sucesso dos rivais.
O exercício da cidadania - neste caso de associação - deve ser responsável e racional.- A responsabilidade dos sócios é fazer críticas, preferencialmente construtivas, e não associar todo e qualquer assunto do Clube à falta de golos nas balizas adversárias.
Os Vitorianos têm de pensar o que de bem e de mal foi feito nos últimos anos, o que o Clube alcançou e cresceu (muito), mas têm de estar cientes das suas dificuldades, compreendendo que o Céu não é o limite. Todos queremos mais, mas não podemos estar com quantro pedras na mão cada vez que uma direcção toma ou se prepara para tomar uma decisão, e muito menos quando a equipa entra em campo. O principal papel do adepto é apoiar, tanto a equipa como as direcções. Não incondicionalmente, mas com responsabilidade e moderação.
Nos últimos tempos o apoio à equipa tem-se esbatido, e a culpa parece ser da direcção. Não o é. Este princípio é errado, são os sócios que devem puxar pela equipa e não o contrário; devemos pensar o que podemos fazer pelo VSC e não no que o Clube pode fazer por nós. Os Vitorianos não estão a deixar de ser únicos. Os Vitorianos SÃO e continuarão a ser únicos, mas devem apostar em dar às direcções e aos restantes profissionais do Clube mostras da sua grandeza, de modo a que todos eles percebam onde estão e o que deles se espera. Não nos podemos substituir a funcionários, dirigentes e jogadores do Clube, nem ser impiedosamente críticos quando as coisas correm menos bem. O nosso papel como sócios amantes deste Clube é fazer o que fazemos melhor, aderência em massa aos treinos, iniciativas pujantes e merecedoras da atenção e do respeito de todos, divulgação do nosso Clube além cidade, etc. Enfim, ser criativos como sempre fomos e como sabemos ser. Não devemos tentar a todo o custo levantar a voz acima dos outros com mezinhas milagrosas para o sucesso do Clube, nem com receitas infalíveis, nem com ideias iluminadas. A era do "eu é que sei", do "eu faria melhor", do "eles são todos burros", do "eu é que tinha razão" seria bom que acabasse. Quer queiramos quer não, esta é a verdadeira força do Clube, na ausência de cofres cheios de milhões para comprar jogadores. Sem esta massa associativa, o VSC é apenas mais um. Pensemos o Clube sim, mas sobretudo pensemo-nos a nós também - para que o VSC não se vulgarize.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Poder pelo Exemplo.


O jornal Expresso avança hoje com uma notícia surpreendente e inesperada. Fernando Nobre, fundador e presidente da Assistência Média Internacional (AMI), vai apresentar uma candidatura à Presidência da República.
Depois de um primeiro impacto de estranheza e de alguma interrogação, motivado mais pela surpresa do que por outra coisa qualquer, esta candidatura merece desde já o meu aplauso e a minha mais profunda simpatia. Desde logo pelo perfil e pela obra humanista a que Fernando Nobre dedicou toda a sua vida. Não sendo um político profissional - e muito menos um "animal político" - tal joga a seu favor numa candidatura a um cargo que, por definição constitucional, deve garantir entre outras prerrogativas, a "unidade do Estado".
Uma figura tão comummente respeitada fica automaticamente mais propícia à geração de consensos dentro da sociedade portuguesa, uma condição importante para o regular desempenho das funções de Presidente da República. A candidatura de Fernando Nobre personifica uma dimensão ética a que a política tradicional nunca devia estar alheia, e desperta a natureza suprapartidária desta eleição, algo que é muito positivo para o sistema político português e para a própria República, que este ano celebramos.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Alma-Ata.







Alma-Ata, Casaquistão. Dezembro de 2009.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Mundo Está Menos Democrático.

É esta a conclusão de um relatório da Freedom House, a ser publicado na íntegra na próxima Primavera, que dá conta de um regressão da liberdade no mundo. O assunto é tema central de um interessante artigo do The Economist, incluído na edição deste mês do Courrier Internacional.
Altamente aconselhável, o artigo reflecte sobre o estado da liberdade e da democracia liberal no mundo, que durante os últimos anos não tem conhecido evoluções positivas. Há mais estados recentemente entrados no lote dos "não livres" do que aqueles que fizeram o caminho inverso. A realidade, pura e dura, é um sinal claro de que a comunidade dos países livres, bem como as organizações políticas e económicas internacionais não têm tido sucesso na promoção da democracia, dos respeito pelos direitos humanos, e da liberdade económica um pouco por todo o mundo - valores que não sendo os mesmos geralmente aparecem associados.
É tão importante apurar as causas desta regressão como repensar o tipo de política e de envolvimento em zonas do mundo "não livres" seguido pelo mundo democrático, e com poder para o fazer. A reflexão, oportuna, levada a cabo pelo artigo presta atenção tanto a um ponto como a outro.
A maior causa para a regressão da democracia no mundo parece ser o descrédito da ideia de que um sistema político pode exportado por via das armas, aliado à evoluções registadas no sistema internacional como a ascensão de potências como a Rússia e a China: se, por um lado, Moscovo tem constituído um sério entrave à promoção do soft power europeu, Pequim tem feito provar que liberdade económica é compatível com um sistema política autocrático.
As democracias terão pois desafios difíceis e complexos pela frente, pois terão de provar continuamente que um sistema político democrático e respeitador dos direitos humanos é o sistema que melhor assegura a riqueza, a prosperidade económica, a segurança e a justiça no seio das sociedades. Felizmente, continua a ser verdade que os sistemas autoritários são mais passíveis de instabilidade do que as democracias; e que um clima de liberdade e o pensamento livre, plural e independente oferecem melhores condições para um desenvolvimento económico sustentado do que a alternativa autoritária. Em suma, e conforme remata o artigo, "a democracia não prevalecerá se os seus defensores não governarem bem."

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

The Company (2007).


No tempo em que o mundo se dividia em dois blocos político-económicos antagónicos e irreconciliáveis, as actividades desenvolvidas pelas agências governamentais de espionagem e contra-espionagem detinham uma importância primordial no decurso dos acontecimentos. Por outras palavras, a "guerra" era "fria" precisamente porque disputada por meios não tradicionais, e em que por vezes valia mais o génio pessoal dos homens por detrás dos dois lados da barricada.
The Company, mini-série de dois episódios realizada por Mikael Salomon e co-produzida por Ridley Scott, mostra as mundividências do grande jogo que durou 46 a 91, os seus métodos, e sobretudo as regras da profissão, nem sempre vis. O que torna a série surpreendente é exactamente a familiarização com as regras deste jogo e com a abordagem adoptada por quem o jogava: imutáveis e implacáveis, mas com um pano de fundo onde imperava um certo reconhecimento e até respeito e admiração pelos cérebros oponentes.
Sem ser uma série de referência - está longe de o ser - The Company oferece-nos um reflexo privilegiado do fascinante mundo da espionagem, desfazendo alguns mitos (de que tanto gostamos) e mantendo outros. Aparte algumas passagens que pecam por uma desconexão algo simplória, e um ou outro erro de casting, The Company vale a pena pela riqueza com que trata certos aspectos da actividade, tais como o serviçal idealismo dos seus agentes, e a inelutável crença de muitos homens e mulheres de que as guerras não são ganhas apenas no campo de batalha ou atrás dos gabinetes das agências de segurança. Mas no terreno; em Berlim, Budapeste, Cuba e, do ponto de vista sempre parcial dos vencedores, em Washington, bem dentro do seu próprio covil.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Filme da Década.


Seria difícil concordar mais com a escolha que a Total Film de Fevereiro faz para melhor filme da década. There Will Be Blood, de Paul Thomas Anderson, foi o ilustre escolhido. Surpreendente e fascinante a todos os níveis, a obra de P.T. Anderson destaca-se das demais (e quantos excelentes filmes houve nos últimos dez anos) pela aura épica de Daniel Plainview, mais uma assombrosa interpretação de Daniel Day-Lewis.
Mas para além do génio absoluto de Day-Lewis, There Will Be Blood é um recrudescer de emoções afiadas como uma lâmina, irrepreensivelmente potenciadas por P.T. Anderson e protagonizadas por Plainview e pelo reverendo Eli Sunday (Paul Dano). De um lado a ambição de Plainview pelo ouro negro, extensão natural da sua vida; do outro, a ambição de Sunday em fazer a sua Igreja lucrar com as prospecções de petróleo. Deste confronto de egos e de ambições resulta uma encarniçada luta entre dois homem de mundos diferentes e aparentemente indestrutíveis. Toda a estética do filme é esmagadora, crua, por vezes até cruel, num sublime reflexo do perfil psicológico da dupla de protagonistas.
There Will Be Blood, passe o cliché, é de facto aquilo que se chama um "clássico instantâneo". Há muitos poucos filmes tão poderosos e eloquentes como este, não só na última década mas em toda a história do cinema. Não levou para casa o Óscar (como deveria), mas isso não lhe retira ponta de mérito.


domingo, 24 de janeiro de 2010

O Que Pensa o Urso?


Gigante euroasiático e país de inúmeras e insofismáveis contradições, a Rússia não enveredou por um caminho democrático ou democratizante durante o postulado de Vladimir Putin. Mais do que as contradições e o estigma do enigma que a persegue, a Rússia de Putin demonstrou ao mundo a actualidade da realpolitik e da hard politics. Putin não é Bismarck, mas soube como ninguém tirar partido das potencialidades do seu país, ao mesmo tempo que procurou, pelo menos até 2004, que o Ocidente abrisse à Rússia as portas das suas instituições e a aceitasse como a sua grandeza impunha: um parceiro igual e necessário. Como se sabe, sem sucesso.
O período que a Rússia atravessa é crucial para o seu papel no mundo nas décadas futuras. O país, apesar dos avultados recursos naturais, não detém um sistema político robusto e suficientemente bem entrosado entre os seus diferentes níveis, não apresenta um modelo de desenvolvimento económico a longo prazo que permita enfrentar os desafios que se vão revelando, e quase não tem aliados. Dentro das suas fronteiras, há um problema demográfico e uma união federal em risco.
A médio e a longo prazo, a Rússia terá que harmonizar as suas regras internas e a sua política externa, ainda hoje típica de uma grande potência do século XIX, e não de uma grande potência do século XXI. A interdependência entre os países desenvolvidos é hoje um dado incontornável, e ficar fora desse "jogo" não será opção para um país como a Rússia, cujos devaneios unilateralistas tenderão a acabar num futuro não muito distante.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

1910 ou 2010?

Ramalho Ortigão podia facilmente ser hoje um opinion-maker em Portugal:
"A indisciplina geral, o progressivo rebaixamento dos carácteres, a desqualificação do mérito, o descomedimento das ambições, o espírito de insubordinação, a decadência mental da imprensa, a pusilanimidade da opinião, o rareamento dos homens modelares, o abastardamento das letras, a anarquia da arte, o desgosto do trabalho, a irreligião, e, finalmente, a pavorosa inconsciência do povo."
Ramalho Ortigão, Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, 1910.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Алматы, Казахстан.


Depois de três meses em Oslo, passados mais em trabalho do que em diversão, eis que o regresso a Portugal não se efectuará sem uma viagem ao Cazaquistão. Irei também em trabalho é certo, mas mesmo sabendo de antemão que permanecerei ocupado durante a maior parte dos dias em que lá estarei, não posso deixar de estar ansioso e expectante face a um país tão desconhecido. A incógnita, neste caso, é positiva. Precisamente por não saber ao certo o que esperar de um país nascido a partir da dissolução da URSS, a curiosidade é ainda maior e o entusiasmo também. Almaty, onde me deslocarei, será porventura uma cidade bastante diferente de Astana, a actual capital, decerto mais sovietizada e não tão moderna. Não espero, contudo, que isso seja algo de negativo, pois a tipicidade de Almaty só faz com que seja possível conhecer melhor as idiossincrasias locais. Não sei se será como regressar à URSS, mas assim como mero prognóstico, algo me diz que o Sacha Baron Cohen exagerou um bocadinho. A confirmar.
Estarei, na próxima 3ª feira e durante seis dias, em plena Ásia Central, bem perto da fronteira ocidental da China, num país tão ilustremente desconhecido para o comum dos europeus como os restantes "ãos", seus vizinhos meridionais. O conhecimento teórico do país e a meia-dúzia de estereótipos que tenho na cabeça não são suficientes para amenizar a curiosidade e o exotismo da deslocação. Quando giramos o globo no conforto dos nossos lares, Almaty não será para muitos uma primeira opção de viagem, e para tantos outros nem chega a ser opção nenhuma. Mas a mim, a incógnita faz-me salivar. É para Almaty? Pois sim!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Obamania (III).


Entre Palestina, mudanças climáticas, bases americanas em Vicenza, Irão e anti-globalização, o menu era farto e era só escolher. As causas eram muitas e variadas, e nada como a visita de um Presidente norte-americano para as acicatar. Chato mesmo seria estar-se em frente à entrada principal do hotel onde ficou instalado o Sr. Obama e não ter nada para protestar.
Urgentemente precisado de uma causa, eis que ela miraculosamente vem ter comigo. Depois de vários minutos de heróica dedicação, passados em solitária deambulação por entre uma moldura humana subitamente interessada na minha pessoa, talvez o Dalai Lama um dia me agradeça.

Obamania (II).


Aquele casaco amarelo (nada discreto) é o da senhora primeira-dama, Michelle. Obama também lá está, embora não tão nítido. Nesta altura, a apoteose era já quase total, atingindo o clímax nos momentos imediatamente a seguir, em que o Presidente se voltou para saudar o bom povo norueguês, que tão ansiosa e pacientemente o aguardava. O Escrito na Pedra não perdeu a oportunidade e registou o momento (não muito bem mas registou).

Obamania (I).



Aqui ficam duas provas inequívocas da loucura que invadiu a pacata cidade de Oslo, neste dia 10 de Dezembro. Um dia igual a tantos outros, não fosse a ilustre visita de Barack Obama, e a perturbação ao quotidiano da cidade que ela acarreta. Obama não mexeu com Oslo, Obama acordou a sonolenta Oslo com um balde de água gelada a meio da noite. Cá para mim, a cidade não conhecia tanto rebuliço desde que os alemães nela entraram nos idos de 40. E mesmo assim não sei não.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Ian e Rob.



Quem já viu High Fidelity, de Stephen Frears, baseado no romance homónimo de Nick Hornby, recorda-se deste momento como nenhum outro. Ian (Tim Robbins) é o responsável por "roubar" a namorada de longa data de Rob (John Cusack). E esta é a forma como Rob (não) reage às provocações de Ian, a personificação de todas as misérias de Rob. Bem à imagem do filme, esta cena, ainda que desbocadamente cómica, ajuda a perspectivar os problemas sérios das relações humanas e o sempre delicado tema do amor de uma forma leve, desdramatizando-os. É como falar de assuntos sérios a brincar. High Fidelity, para além da fabulosa banda sonora, não é parco em momentos como este. Por isso mesmo, o melhor é apreciar e desfrutar deste delicioso filme do princípio ao fim.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Estocolmo.




A menos de uma hora de avião de Oslo, Estocolmo apresenta-se como uma solução de viagem mais acessível do que muitas regiões da Noruega, que se localizadas noutro país menos afortunado, estariam perigosamente em risco de esquecimento. Tal não acontece é certo, mas isso não torna uma hipotética deslocação às paragens setentrionais do país mais facilitada, já que as poucas horas de luz do dia que Oslo ainda consegue gozar, são um bem ainda mais raro lá em cima. E tendo em conta que a ambição não me deixaria viajar abaixo de Tromsø, creio que, nesta radical época do ano, fiz uma boa escolha ao optar pela bem mais meridional Estocolmo.

E a cidade não desilude, de facto. Estocolmo é uma visita curiosa e não deixa ninguém indiferente ao encontrar-se fragmentada entre pequenas ilhas. Esta divisão não faz Estocolmo parecer tão grande em terra quanto vista de cima. Só assim se pode ter uma ideia da dimensão da cidade, de resto bem maior do que Oslo. Por outro lado, há a diferença arquitectónica, bem patente no estilo dos edifícios históricos. Tal não é de admirar tendo em conta que, nos longos tempos que durou a união política entre os dois países, toda a nobreza - logo, todo o dinheiro - se encontrava na Suécia. Daí que Estocolmo se apresente, se assim se pode dizer, como uma cidade bem mais 'europeia' do que Oslo - ao passo que esta é mais genuinamente 'escandinava', com uma arquitectura e uma disposição urbanística mais sóbria, mais rectilínea e com menos ostentação. O Palácio Real é a prova mais clarividente desta diferença, e não é sequer comparável ao de Oslo, nem em tamanho, nem na ornamentação, nem na riqueza e faustosidade do interior.Diferenças nítidas também ao nível do rush citadino e do volume de trânsito, incomparavelmente maior do que em Oslo. A diferença de dimensão entre as duas cidades nota-se na vida artística e cultural de Estocolmo, com mais centros de arte, moderna e clássica do que Oslo, ainda que o gosto pelas artes seja comum e igualmente praticado por suecos e noruegueses.

Uma última palavra para a cidade velha, Gamla Stan, a mais atractiva de todas as ilhas que compõem a cidade e ponto turístico obrigatório em Estocolmo, especialmente para quem desde o início luta com imperativos de tempo e deixou ainda muito por ver. Tal não espanta, pois 14 ilhas diferentes não se percorrem num par de (meios) dias. Uma vez mais, e tal não me desagrada, ficaram motivos para voltar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

As Palavras de Delors.

"If the European population want to leave a EU for their grandchildren that will be relatively well-off but without real influence on the world stage, that's their responsibility."

Delors, o histórico presidente da Comissão Europeia, faz a crítica inversa de muitos: o Tratado podia ter ido mais longe.

Jacques Delors, aqui.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

On the Beach (1974).


On the Beach, quinto álbum a solo de Neil Young, é ponto de referência na carreira do canadiano. Apesar da influência em grupos de grunge dos anos 90, On the Beach está longe de ser um álbum de desespero. Muito pelo contrário. On the Beach é um álbum de emancipação e transbordante de uma rejuvenescida confiança. A par de Harvest e do esmagador After the Gold Rush, é a grande obra do mestre. Embora menos popular do que estes dois, On the Beach encerra em si uma terrível ambiguidade, sendo que é preciso escutá-lo algumas vezes para nos apercebermos da total genialidade de Young, e da maneira com agarra no folk-rock e faz dele um género que podia levar com o seu nome.
Destaque evidente para For the Turnstiles, porque o mais genuíno, talvez o expoente máximo do registo. Mas é impossível escrever sobre On the Beach sem referir a enigmática Vampire Blues, bem como a canção homónima On the Beach, deslumbrante pela profunda mas alternada melancolia, mais em jeito de libertação do que de comiseração. Por fim, cabe a Ambulance Blues resumir o verdadeiro sentimento por detrás da obra: um lamento esperançado na mudança de hábitos de uma sociedade hipnotizada pelo superficial, abandonada ao poder dos poderosos e aos desvarios colectivos.
On the Beach é uma obra-prima, tardiamente reconhecida mas nem por isso menos divinal, tanto na música como no que a inspira. Speechless.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Os Limites do Novo Cargo.

"...Europe's chief diplomat will also not be allowed to venture beyond strictly defined limits when dealing with day-to-day politics. The high representative may be allowed to speak with the Turkish government about its relations with Iraq, but she will be prohibited from discussing with Ankara the prerequisites for possible EU membership, such as freedom of the press and respecting human rights. In the future, the issue of Turkish membership will still be reserved for the Commission. In the Balkans Mrs. Ashton can talk about everything under the sun -- but will be strictly forbidden from mentioning possible financial aid from Brussels. Everything that has to do with EU enlargement falls under the jurisdiction of the Commission. She will also have to steer clear of key areas such as foreign aid and international trade."

Presseurop, aqui.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Desilusão Completa.


O actual chefe do governo belga e a commissária europeia do comércio foram hoje escolhidos, respectivamente, para os recém-criados postos de presidente permanente do Conselho Europeu e de Alto Representante da UE para a Política Externa e Política de Segurança. Herman Van Rompuy e Catherine Ashton são dois rostos que representam nada mais do que um consenso absurdamente minimalista e que não favorece em nada o que se pretendia da União Europeia num momento histórico como poucos desde a assinatura dos tratados de Roma.
O primeiro-ministro belga cessante é conhecido pelo seu estilo low-profile, e apresenta-se como uma figura pouco carismática e desconhecida. O seu papel, como de algum tempo para cá se vinha a suspeitar, será mais institucional do que pró-activo.
Mas se a nomeação de Van Rompuy ainda é justificável à luz do quadro de competências que lhe está atribuído, o pior é mesmo a nomeação da Sra. Ashton: sem qualquer tipo de experiência reconhecida em termos de diplomacia, sem nunca ter ocupado um posto ministerial, e com um background pessoal totalmente diferente do expectável para ocupar um posto daquela envergadura. Apesar de representar um grande país, não terá a presença forte nem o peso político de nomes como Tony Blair, David Miliband ou de um Martti Ahtisaari, este último de longe a melhor escolha.
Ahtisaari representava, em termos pessoais, tudo aquilo que UE pretende ser na arena internacional: uma comunidade política exportadora de valores e de princípios de boa governação e direitos humanos, apologista dos compromissos multilaterais e do respeito pelo Direito Internacional. Era uma personalidade com carisma, muitíssimo experiente, com reconhecidos dotes diplomáticos (na boa tradição nórdica), respeitado internacionalmente pelo seu percurso como enviado especial da ONU às negociações para o estatuto final do Kosovo, pelo importante papel desempenhado na resolução de vários conflitos por todo o mundo, e prémio Nobel da Paz em 2008.
Gorou-se, como muitos analistas acreditam, um momento de excepção para uma definitiva consolidação e expansão do papel da UE nos assuntos internacionais. O Tratado de Lisboa é um passo demasiado aprofundado na integração, e talvez por isso muitos governos não arriscaram em mais mudanças de fundo. É muita mudança para tão pouco tempo. Pena é estarem muitas capitais por esse mundo fora a rir à gargalhada. Não é para menos. Se eu estivesse no Kremlin também me ria. De alívio. Mas ria.

sábado, 14 de novembro de 2009

Senhoras e Senhores: o Flåmsbana.




Digerida a passagem por alguns dos sítios mais belos que já presenciei "in loco", chega a altura de escrever mais algumas palavras sobre as maravilhas da região de Vestlandet - literalmente 'terra do Oeste'.
Desta vez para aferir um pouco mais sobre uma das mais idílicas linhas férreas do mundo, a linha de cerca de 20km de extensão que liga as pequenas localidades de Flåm e de Myrdal. Trata-se de uma pequena linha férrea com ligação directa à linha principal Oslo-Bergen, mas que em tão curta distância é capaz de proporcionar momentos não menos inesquecíveis. Em apenas 20km, a linha férrea sobe continuamente entre montanhas e vales em ziguezague, desde o nível do mar até atingir ao longo do percurso os perto de 900 metros de altitude.
O Flåmsbana - assim se chama a nossa simpática composição - torna-se no guia que transporta o mais desprevenido dos visitantes a uma visita guiada com vista privilegiada sobre o recorte natural da região, uma maneira fantástica de absorver por completo o lugar onde nos encontramos. Absorver a beleza indescritível da viagem não é fácil, tal como não é fácil libertarmo-nos do torpor embevecido depois desta terminar, já em Myrdal, a uns muito respeitosos 866,7 metros, e encurralados por deslumbrantes montanhas onde o branco impera.
Menos não seria de esperar de uma linha férrea constante do restrito lote das 25 mais belas do mundo.