quarta-feira, 25 de março de 2009

Gran Torino.


Naquela que é provavelmente a sua última participação num filme como actor, Eastwood dá mostras de não vacilar. Pelo contrário, Gran Torino é uma obra esteticamente bela, algo que nem a crueldade de alguns momentos consegue esbater. Magistralmente, como se não estivéssemos já habituados, Eastowood é frio e pujante no enquadramento que constrói sobre os tormentos e sobre as pequenas injustiças de um bairro residencial marcado por problemas sociais e pelos constantes despiques raciais entre gangs, problema transversal a não poucas sociedades ocidentais.
Eastwood é cáustico e ultra-draconiano ao longo de quase todo o filme: mais do que os despiques entre gangs, é o despique entre um velho solitário, marcadamente old school, perseguido por fantasmas do passado, cravejado pela experiência; e um miúdo perdido também ele na sua solidão, amargurado por uma vida sem rota definida. Para complicar tudo, dá-se o caso de o miúdo ser hmong, um grupo étnico asiático que se divide por vários países do sudeste daquele continente. Daqui já se depreende da transformação de 180 graus que dá a personagem interpretada por Eastowood, Walt Kowalski. De velho rabugento, desconfiado, ultra-protector, atormentado, Walt encontra um inesperado escape e redenção última na afeição à família do jovem hmong. Gran Torino é a viagem psicológica final de um velho, sufocado, e que não encontra na família biológica qualquer conforto, e pela qual só sente desdém. Doente, sentindo que já não está para durar, Walt protagoniza um derradeiro acto de justiça, e paga-o intencionalmente com a vida.
Gran Torino é soberbamente clássico, sublimamente abordado, e com uma toada que transpira Shakespeare por todos os poros. Eastwood não brinca. Pode ser sorrateiro, mas ele está aí; confirmando uma vez e mais outra a sua indelével mestria. Como se não o soubéssemos já.

2 comentários:

Samuel Silva disse...

É excelente! É um clássico fora de época. O filme é sobre si próprio: um peixe fora de água. Algo fora do seu próprio tempo, mas encontrando espaço para ser amado.
Walt (posso tratá-lo assim?) era amado pela vizinhança e nós amamos Grand Torino.
E o Eastwood a cantar no fim? Espectáculo. Lembrei-me do Tom Waits.
O Old Man está a fazer, nesta última dúzia de anos de carreira, uma série de obras de mestre.

João Gil disse...

Está mesmo do caraças o filme. Speechless.